Raposas, hedgehogs e toupeiras

Há pouco mais de quatro anos, decidimos deixar o Brasil. Vendemos carro, apartamento e mobília, empacotamos nossas roupas e os brinquedos das crianças e embarcamos com destino a Inglaterra. Ali começava uma jornada que contabiliza até então três diferentes países, cada qual com seu próprio idioma, seus próprios costumes e tradições.

Quando tomamos tal decisão, a economia do Brasil ia bem, com boa recuperação do crescimento em 2010, após forte queda em 2009. Portanto, nossa decisão não foi influenciada por aspectos econômicos. Queríamos oferecer às nossas filhas, a mais velha com pouco mais de 3 anos na época e a mais nova, ainda em seu quarto mês de vida, a chance de verem e vivenciarem um mundo diferente – se melhor ou pior, caberá a elas julgarem no futuro. Queríamos oferecer-lhes a possibilidade de ampliarem a maneira com que vêem o mundo ao seu redor. E esse objetivo é o que nos mantém firmes nessa empreitada, apesar de termos deixado para trás nossos amigos e parentes.

Mas toda essa experiência que oferecemos às nossas filhas e a nós mesmos pode não acrescentar real valor, caso não estejamos realmente abertos à sua essência. Estamos aqui não somente para aprendermos um novo idioma ou então para acrescentarmos linhas aos nossos currículos – tudo isso é apenas consequência, e não o objetivo principal. Estamos aqui para aprendermos a enxergar o mundo ao nosso redor sob diferentes pontos de vista. Estamos aqui para ampliarmos nossa visão de mundo.

Precisávamos mesmo sair do Brasil para ampliarmos nossa visão de mundo? Talvez não. É possível exercitar nosso poder de crítica sobre nossas próprias crenças em um ambiente familiar, em nossa zona de conforto, embora tal processo requeira muito mais disciplina que a exposição direta a outros ambientes como forma de enxergar o mundo sob outra ótica. E ainda que  minha esposa e eu fossemos assim tão disciplinados, como poderíamos cobrar tal atitude de nossas filhas? A exposição física direta a realidades diferentes daquela que nos soava familiar foi o caminho mais apropriado para atingirmos nosso objetivo de ampliação de nossa visão de mundo. E as frequentes mudanças de país nos últimos anos apenas contribuiu para esse aprendizado.

Em um processo de coaching, o coachee (ou o cliente) será estimulado pelo coach (o condutor), através de questionamentos específicos, a buscar a ampliação de sua visão de mundo. Esse processo inclui o entendimento de que não existe uma única verdade, e que os fatos podem ser observados de formas diversas, dependendo do ponto de vista de quem os observa; que a vida está sempre em mudança, nada é permanente e não podemos controlar a sua aleatoriedade; e que o que sentimos é muito mais poderoso do que aquilo que temos, pois o sentimento dura o quanto quisermos que ele dure, enquanto que as posses são efêmeras e podem deixar de ser nossas por conta de fatos aparentemente aleatórios, mas que estão intrinsecamente interligados.

Essa explicação sobre visões de mundo pode parecer mais complicada do que realmente é. Deixemos de lado explicações teóricas e retornemos à experiência que minha família e eu vivenciamos nestes quatro anos fora do Brasil.

Nossa preocupação inicial estava no possível distanciamento de nossos amigos e parentes. Não sabíamos quanto essa mudança para o velho mundo iria nos custar, em termos de isolamento pessoal. A distância física entre São Paulo e Amsterdam, nossa atual cidade, é de 9.795 Km, mas nunca tivemos amigos e parentes nos visitando e passando uns bons dias de férias conosco quando vivíamos no Brasil. Não havia tal necessidade,  já que vivíamos na mesma cidade e nos víamos com frequência. Nos encontrávamos para um almoço, jantar ou festa, mas não passávamos a semana inteira juntos. Agora temos a felicidade de compartilhar momentos com nossos amigos e parentes de forma mais intensa que aquela que vivenciávamos quando éramos praticamente vizinhos. E quando a saudade bate entre uma viagem de férias e outra, sempre tem a tecnologia para nos pôr em contato, na hora em que mais precisamos deles.

Chegamos em Londres, e tínhamos aquela ideia de que os ingleses são fechados. Aos poucos descobrimos que os ingleses são elegantemente reservados e de uma educação exemplar. Até que um dia uma mulher enfurecida entrou em uma loja de conveniência, gritando as piores palavras que se possa imaginar, tudo por conta de um carro mal estacionado, que a impedia de abrir a porta para entrar em seu carro. Sim, ela era britânica. Não, ela não foi nada educada. E assim nossa verdade pré-concebida se modificava e nossa visão de mundo se ampliava. Tudo se convertia em aprendizado positivo para todos nós. E para as crianças, dentre as diversas lembranças da Inglaterra, fica a família de raposas que vivia no terreno ao lado de casa e que brincava nas manhãs ensolaradas de primavera.

Dois anos de Inglaterra e nos mudamos para Genebra, na Suiça, e ali vivemos por 18 meses. Minha filha mais velha se apegou emocionalmente a casa na qual morávamos em Genebra. Uma casa azul, quadrada, sem um mínimo de beleza arquitetônica, mas com um quintal enorme e um hedgehog – uma espécie de ouriço – que nos visitava de tempos em tempos. Para ela, fica a lembrança da casa azul e do ilustre hedgehog, e a difícil tarefa de aprender a se desconectar de posses materiais e cultivar sentimentos positivos, pois os últimos, diferentemente dos bens materiais, duram o quanto permitirmos que venham a durar.

Viemos então para a Holanda, e agora nos preparamos para nosso retorno a Inglaterra. A vida está sempre em mudança, nada é permanente e não podemos controlar sua aleatoriedade. E agora que estamos de partida, temos um novo inquilino em nosso jardim: uma toupeira. Ainda não encontramos o animal, mas vemos montes de terra cobrindo seus túneis todas as manhãs. E isso cria a expectativa nas meninas – e em mim também, devo admitir – de um dia, antes de partirmos, poder encontrar o novo habitante do jardim para dizer “oi” e “tchau”.

Andre Braga é coach profissional com certificação internacional pelo Instituto Holos, embora não exerça profissionalmente tal função. Atua em Finanças para uma multinacional de bebidas não-alcoólicas. Espera sinceramente que, desta vez, sua passagem pela Inglaterra dure ao menos 3 anos – mas sabe que a vida está sempre em mudança e que não se pode controlar sua aleatoriedade.

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