O inferno não são os outros

Sexta-feira passada foi o dia namorados, aquele dia em que nada pode estragar o romantismo. Tudo tende a ser irrelevante, pois a noite é para namorar e deixar-se levar pela leveza e o frescor do amor romântico. Mas sabemos que não vivemos de amor romântico o ano todo. A realidade tende a ser um pouco mais dura, e mesmo o mais apaixonado dos casais vai, um dia, cair em alguma discussão ferrenha por aquele assunto importantíssimo que já nem se lembram mais qual era. Isso tudo porque a convivência tende a resultar em conflitos.

Ao filósofo francês Jean-Paul Sartre atribui-se a frase “o inferno são os outros”. Muito embora a interpretação automática dessa frase seja a de que os outros são os responsáveis por nossos problemas, Sartre reconhece que não existimos sem os outros, porque nossos projetos de vida deixariam de fazer sentido se vivêssemos em total isolamento. E tem mais: sem o olhar do outro, sequer nos vemos como parte do mundo que habitamos. Os outros são necessários à nossa existência plena, então cabe a nós mesmos aprender a conviver com eles.

Nas empresas, as coisas não são diferentes. Podemos até ter nossos “dias dos namorados”, como quando chegamos a um novo emprego e nos sentimos energizados pelo desafio que o novo proporciona, ou quando temos um projeto aprovado pelos gestores da empresa. Mas sabemos que esse clima de romance entre você e a empresa não durará para sempre. O que faz com que aqueles que hoje são o motivo de sua paixão pela empresa, mudem de atitude dias depois e transformem sua vida em um verdadeiro inferno? Talvez a resposta esteja em você mesmo e na forma de relacionar-se com os outros.

Problemas de relacionamento resultam de problemas de comunicação. Uma frase mal colocada ou mal interpretada, um email em tom de ataque e defesa, um debate interminável acerca de diferentes pontos-de-vista sobre um determinado problema. A lista é enorme, mas a causa é sempre a mesma: comunicação ineficiente.

Quanto mais transparentes, objetivos e focados formos na nossa comunicação, maiores as chances de que conflitos sejam reduzidos. Se você fez algo errado ou que afetou negativamente alguém, assuma e pergunte o que pode ser feito para resolver o mal-estar que isso possa ter causado. Não tente se explicar, não tente achar culpados, pois isso não resolverá o problema. Quando assumimos responsabilidade pelos nossos erros e somos objetivos ao oferecer soluções, focamos nossos esforços naquilo que irá trazer resultados. Desculpas são uma total perda de tempo e apenas aumentam a frustração acerca do ocorrido.

Não confunda ser transparente e objetivo com ser inocente. Existem pessoas que são propositadamente desfocadas, essa é a estratégia que adotam para conseguir o que querem. Discussões cuidadosamente planejadas, com o intuito de confundir e tirar o foco do problema real que querem esconder – isso soa familiar?

Tampouco confundam ser transparente com ser rude. Ninguém precisa saber sua opinião acerca de algo irrelevante, que não vá acrescentar nada de positivo. É possível ser transparente sem ser rude, basta focar seus comentários em comportamentos e ações, ao invés de pessoas. Não personifique o problema.

Manter o foco é viver o momento presente. Aprendemos com experiências passadas e temos expectativas e planos para o futuro, mas as coisas acontecem aqui e agora. Ficar remoendo o passado, dizendo que “bom mesmo era quando fulano era nosso chefe”, não vai trazer resultados positivos, e ainda alimentará conflitos com o novo chefe. Trazer à tona uma discussão sobre o que de fato era melhor na atitude do chefe anterior, e como isso poderia ser explorado na forma atual de trabalhar, seria uma discussão mais produtiva.

Imaginar o futuro não é objetivo se não definirmos ações concretas a serem adotadas hoje, para que possamos construir nossa visão. Causa de frustrações e discussões nada objetivas, a visão de futuro sem ações para transformá-lo em realidade gera ansiedade e discórdia.

Você pode ser objetivo, transparente e focado nas ações requeridas para solucionar os problemas existentes, e ainda assim deparar-se com inúmeros conflitos de relacionamento com colegas de trabalho: aquele chefe autoritário que quer tudo para ontem, ou aquele colega de departamento que sempre quer ter a última palavra nas reuniões. O que fazer? A resposta está novamente em você e na sua postura com relação ao tratamento que recebe de colegas de trabalho.

Conheça-se a si próprio, sua missão, visão e valores pessoais. Seja objetivo, transparente e focado. Seja consistente. A partir dai, fica fácil compreender que você tem sua vida em suas próprias mãos, e que os outros somente podem invadir seu espaço se assim você o permitir. Delimite seu espaço pessoal e não invada o espaço dos outros. Não manipule e não se deixe manipular. Não deixe que os outros gerenciem a sua vida, que é só sua. É certamente mais fácil falar do que fazer, mas você nunca conseguirá se não tentar. E o maior inimigo que podemos enfrentar nesse processo é o medo: medo de sermos repreendidos, medo de não sermos promovidos, medo de criarmos mais conflitos, medo de sermos demitidos. E os medos são criações de nossa mente, não encontramos medos caminhando pelas ruas ou sentados na mesa ao lado. Novamente, a resposta está dentro de você mesmo.

Se parece difícil colocar em prática uma postura focada no trabalho, volte para dia dos namorados. Busque maior transparência em sua relação, tente mais dias dos namorados ao ano, e acabe com aquela discussão ferrenha sobre aquele problema sério que nenhum de vocês se lembra mais qual era. Se você conseguir melhorar sua comunicação com sua cara-metade, reproduzir o aprendizado no ambiente corporativo não será assim tão complicado.

Andre L Braga é coach profissional com certificação internacional pelo Instituto Holos, embora não exerça profissionalmente tal função. Atua em Finanças para uma multinacional de bebidas não-alcoólicas. Torce para o Palmeiras, mas sua esposa é Corinthiana, e eles não brigam por conta disso. Até porque, objetivamente, o Corinthians está se saindo muito melhor que o Palmeiras no Campeonato Brasileiro, mas o Palmeiras ganhou do Corinthians no último confronto.

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