Porque não somos tons de cinza

A psiquiatra Miriam Grossman explica tudo o que você precisa saber sobre o livro “Cinquenta Tons de Cinza”:

Christian Grey foi terrivelmente negligenciado quando era uma criança. Ele está confuso sobre o amor, porque nunca o experimentou de forma verdadeira. Em sua mente, o amor está emaranhado com sentimentos ruins como dor e constrangimento. Christian gosta de machucar mulheres de formas bizarras. Anastasia é uma menina imatura que se apaixona pelos olhares e pela riqueza de Christian, e tolamente segue seus desejos.

A Dra. Grossman ainda conclui que, “no mundo real, essa história iria acabar mal, com Christian na cadeia e Ana em um abrigo”, ou então “Christian continuaria batendo em Ana, e ela sofreria como nunca.”

Nesse contexto, o título do livro me parece adequado. A vida dos personagens parece oscilar entre diversos tons do mesmo cinza. Mas a vida é muito mais colorida que isso, e cada indivíduo enxerga as cores do mundo de forma diferente. Como afirma a escritora Anaïs Nin, “Vemos o mundo não como ele é, mas sim como nós somos”. Isso se chama percepção.

Percebemos o mundo ao nosso redor segundo nossos conhecimentos e crenças. Fatos e acontecimentos não têm qualquer valor intrínseco. A importância dos fatos depende de quem os seleciona, organiza, analisa, interpreta e a eles atribui valor. Dois fatos recentes ilustram muito bem isso: a aprovação do casamento gay nos Estados Unidos e a aprovação, em primeiro turno, da redução da maioridade penal no Brasil. Enquanto alguns comemoravam este ou aquele fato, outros protestavam ou lamentavam profundamente. A aprovação do casamento gay ou a redução da maioridade penal não têm qualquer valor intrínseco. A atribuição de valor depende de quem percebe tais fatos, e isso é algo que aprendemos, desenvolvemos  e adaptamos ao longo de nossas vidas.

As nossas crenças e valores direcionam nossas atitudes e comportamentos, e estes determinam como nos relacionamos com os outros. Algumas questões-chave:

  1. Quais são realmente nossas crenças e valores?
  2. Costumamos agir de forma mais racional, intuitiva ou operacional?
  3. Agimos de forma semelhante no trabalho e fora dele?
  4. Quais são as máscaras que, consciente ou inconscientemente, adotamos em nossas diversas esferas sociais?

Algumas ferramentas disponíveis na internet podem auxiliar na busca por algumas respostas para as questões acima, principalmente no âmbito do conhecimento de seus campos mentais, ou a forma com a qual sua mente prefere trabalhar, e as diferentes preferências adotadas de forma consciente e inconsciente. Existe um serviço gratuito oferecido pelo site MyEtalent (que pode ser complementado por análises adicionais, dependendo de suas necessidades e do quanto você estiver disposto a pagar), e uma análise bastante completa pode ser obtida através dos serviços oferecidos pela Insights Discovery.

Segundo o Sistema ISOR®, nossos campos mentais podem indicar uma preferêcia pelo operacional, racional ou intuitivo. Como seres complexos que somos, carregamos conosco um pouco de cada um desses três elementos, mas tendemos a adotar alguns mais que os outros.

O operacional diz respeito a execução. Um colega de trabalho certa vez me disse, se referindo a um de seus empregados: “Sabe o que odeio em Fulano? Ele me diz que vai me entregar tal coisa no dia tal, e ele realmente entrega!”. Isso é preferir pelo operacional. Pessoas com capacidade operacional tendem a ser práticas, manter o foco no produto final e entregá-lo de forma satisfatória.

Já o racional diz respeito a conceitos, processos e referências lógicas. Uma pessoa racional é capaz de prover senso de direção aos negócios, muito embora possa não ser a pessoa mais apropriada para executar aquilo que prega. Pense naquele gerente capaz de desenvolver excelentes Políticas e Procedimentos Operacionais, mas que é incapaz de entregar aquele relatório gerencial dentro do prazo estipulado.

Finalmente, temos o intuitivo. Líderes tendem a demonstrar certa preferência pelo intuitivo. O intuitivo diz respeito ao lado emocional, aos sonhos, a arte, a motivação através de uma visão comum. O intuitivo é o combustível do progresso, enquanto que o racional é a engenharia por trás do projeto e o operacional é o motor que nos faz seguir em direção ao objetivo traçado. Todos são igualmente importantes, mas cada um tem o seu lugar e seu papel a desempenhar.

Ao apresentar o primeiro IPod ao mercado, em 2001, Steve Jobs exaltou as especificações  técnicas do novo produto, sem deixar de lado o principal motivo para o qual alguém se interessaria pelo produto. Em tradução livre: “A música faz parte da vida de todos, ela sempre esteve aqui e continuará ao nosso redor para sempre. (…) IPod tem design Apple, e a Apple tem a melhor equipe de designers do mundo. (…) Este pequeno aparelho carrega mil canções, e tudo isso cabe em meu bolso.”. Emoção, aspectos técnicos e atenção aos detalhes, tudo explorado em um mesmo discurso. Ao explorar os três campos mentais em sua apresentação, Steve Jobs sabia que atingia sua audiência como um todo, não importa quais as preferências pessoais de cada indivíduo. O vídeo do lançamento pode ser visto em https://youtu.be/kN0SVBCJqLs.

Ao compreender suas preferências pessoais e compará-las com aquilo que os outros esperam de você, seja na sua profissão ou em outras dimensões de sua vida em sociedade, você será capaz de avaliar se realmente está no lugar certo, se aquilo que você faz está alinhado com aquilo que você busca, quais as mudanças de atitude que são requeridas e que você está disposto a adotar, para que sua vida seja ainda mais produtiva. Descubra suas cores, faça as pazes com Carl Jung, com os outros e com você mesmo. E, porque não, ouse renovar seu guarda-roupas, trocando suas gravatas cinza por tons mais vibrantes, como o vermelho flamejante ou o verde folha.

Andre L Braga é coach profissional com certificação internacional pelo Instituto Holos, embora não exerça profissionalmente tal função. Atua em Finanças para uma multinacional de bebidas não-alcoólicas. Gosta do azul e do amarelo, mas não se importa em usar vermelho ou verde sempre que assim requeira a ocasião.

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