Extravase a raiva

Já fui daqueles profissionais que soltam algumas palavras agradáveis em meio a um turbilhão de palavrões. Sabe aquele tipo que tenta mostrar energia, indignação e incorformismo com o status-quo através do uso agressivo das palavras, do tom de voz e da linguagem corporal? Confesso que já fui um deles, em algum lugar do passado.

Não que tenha me tornado uma pessoa livre de maus hábitos. Sei muito bem que esse não é o caso. A decisão de deixar palavrões de lado foi, na verdade, egoista: percebi o quanto esse comportamento era auto-destrutivo, o quanto me fazia mal. Mudei não pelos outros, ainda que meus colegas de trabalho agradeçam a mudança. Mudei por mim mesmo.

Deixar de usar palavrões não significa que não expresso minha insatisfação com relação a fatos e atos que, de alguma forma, me incomodam. Não me tornei um ser passivo, que aceita tudo o que vem para mim. Tampouco deixei de expressar meu descontentamento, apenas busquei formas de fazê-lo sem o uso de palavras ofensivas.

“Guardar raiva é como segurar um carvão em brasa com a intenção de atirá-lo em alguém; é você que se queima.”

                                                                                   – Buda –

As palavras que escolhemos para expressar nossos sentimentos tem um poder enorme de transformação, tanto positiva quanto negativa. Seja firme, seja enfático, demonstre seu descontentamento, mas o faça sem o uso de palavras ofensivas, e você poderá ganhar apoiadores a suas ideias. Faça o mesmo, mas recheie seu discurso com palavras ofensivas, impondo suas ideais pela força e pelo medo, e esteja certo que as pessoas que hoje te apoiam são as mesmas que esperarão ansiosas pelo dia em que você será chutado para fora de seu cargo atual. Ou espere pelo dia em que tais pessoas entenderão que você jamais será chutado, e então elas deixarão a empresa para algo melhor. A verdade é que chefes tiranos não são capazes de manter bons e leais profissionais em suas equipes por muito tempo.

Eis aqui o grande segredo de um processo de coaching: ao conhecer-se a si mesmo, entender o que você realmente busca, quais são seus valores e o quanto você está disposto a mudar para atingir seus objetivos, você passa a agir de forma diferente, mais leve, mais pacífica – não confunda pacífica com passiva ou conformista. E a partir daí, você começa a transformar a realidade ao seu redor.

Conflitos geralmente ocorrem por divergências de opinião, e diferentes opiniões acerca de um determinado tema sempre vão existir, e o debate pode ser saudável. Brigas, por outro lado, acontecem não por conta de opiniões divergentes, mas pela forma com que lidamos com tais divergências. Faça uso de violência, física ou verbal (ou mesmo não-verbal, aquela violência que se expressa através de sua linguagem corporal), e provavelmente é isso que obterá em retorno.

Você já notou como algumas crianças parecem não escutar seus pais, que precisam gritar e ameaçar para que os pequenos façam aquilo que lhes é pedido, mas essas mesmas crianças se transformam em verdadeiros anjos obedientes quando estão em um grupo liderado por um professor ou monitor habilidoso? Diversos fatores podem influenciar essa mudança drástica de comportamento, e deixo a tarefa árdua de explicar tais fatores para os psicólogos infantis. Mas me atrevo a questionar se o fato dos filhos não escutarem aos pais não tem a ver com a repetição constante e indiscriminada de ameaças, como perder um brinquedo, a mesada ou ficar de castigo? Adultos impactam o comportamento dos pequenos através da constante repetição de palavras duras. Por que deveríamos esperar um resultado diferente, caso façamos uso de palavras inadequadas em nosso relacionamento com colegas de trabalho?

Tome as rédeas de seu vocabulário. Elimine palavras ofensivas. Seja assertivo ao expor seus pontos-de-vista. Seja pacífico, mas nunca passivo ou conformista. Transforme a realidade através das palavras. E se tiver que usar um palavrão, que seja para expressar felicidade – porque às vezes nenhuma palavra pode expressar melhor nossa felicidade do que um alto e bom “p*** que pariu”.

Andre L Braga é coach profissional com certificação internacional pelo Instituto Holos, embora não exerça profissionalmente tal função. Atua em Finanças para uma multinacional de bebidas não-alcoólicas. Com este texto, conclui sua missão de ilustrar as agendas cobertas em um processo de coaching. Espera ter derrubado a crença de que “quem sabe fazer, não precisa de coaching” e espera ter ajudado a remover a nuvem cinza que por vezes encobre o trabalho de um coach profissional.

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