Era para ser apenas mais uma apresentação de fim de ano…

… mas o que essas crianças apresentaram foi muito mais questionador que uma simples canção de Natal…

Hoje foi a apresentação de fim de ano na escola de minhas filhas, uma de oito, outra de quatro anos. O tema foi a floresta amazônica. O folheto distribuído à plateia de papais e mamães “babões” já indicava o que viria a seguir:

“Você não poderia encontrar uma melhor maneira de ensinar, por um lado, as verdades acerca das preocupações ecológicas globais, e por outro, os interesses de negócios globais.”  (1)

TES

Apesar da “advertência” na forma de panfleto, devo confessar que a realidade que nos foi apresentada pelas crianças foi muito mais crua e assustadora que muitos textos publicados em artigos científicos, jornais e revistas ou mesmo por ONGs em defesa do meio-ambiente.

Crianças de 4 a 11 anos abordaram com propriedade temas complexos, tais como a urbanização descontrolada das metrópoles brasileiras, as medidas equivocadas adotadas pelo Governo, na década de 1970, tais como a construção da Transamazônica, a distribuição de terras para assentamento rural no coração da floresta amazônica e os reflexos dessas medidas sobre recursos hídricos, minerais, animais e vegetais. Uma verdadeira aula de ecologia para uma geração que protesta contra o racionamento de água, mas que não se preocupa muito com a expansão dos campos de soja ou dos pastos para criação de gado na região centro-norte.

Somos uma geração de acomodados. Temos orgulho em reciclar nossas garrafas de Coca-Cola e nossas latinhas de Skol, mas não questionamos empresas e governos sobre práticas e politicas adotadas na exploração e preservação de recursos naturais. Podemos não ser os gafanhotos de nosso planeta, mas nada fazemos para detê-los. Aceitamos as mentiras que empresas e governos dos dizem a respeito de suas práticas nada efetivas de preservação ambiental, aplaudimos empresas que plantam uma árvore para cada dez pacotes de biscoito vendidos e nunca sequer perguntamos de onde vem a carne que comemos nos churrascos de sábado a tarde. Se são criados em fazendas no interior de São Paulo ou se vêm de imensas áreas onde um dia havia uma floresta, isso realmente não faz a menor diferença. Afinal de contas, o Governo aprovou a conversão daquela área em pasto para criação de gado, não é mesmo?

Talvez o que faltou para nossa geração foi a apresentação da verdade sem maquiagem, tal qual a escola de minhas filhas apresentou-lhes. Aposto como alguns pais acharam a apresentação um tanto quanto pesada para crianças tão novas, e certamente alguns reclamarão com a direção da escola, ou discutirão o “absurdo” que foi tal apresentação enquanto conversam entre si e tomam um café em seus copos descartáveis. Eu não. Eu aplaudo de pé a iniciativa da escola e espero que minhas filhas aprendam a verdade sobre a vida, sem maquiagens, e possam fazer algo a respeito quando forem parte dos adultos que dirigem empresas em um futuro não muito distante. Espero realmente que elas promovam mudanças de real impacto quando chegar a hora delas. Enquanto isso, continuo comodamente tomando meu café em copo descartável, apreciando meu churrasco originário da Amazônia, bebendo minha cerveja de milho produzido na região que um dia abrigou o Pantanal Mato-Grossense e reclamando do racionamento de água em São Paulo.

Andre Braga é coach profissional com certificação internacional pelo Instituto Holos, embora não exerça profissionalmente tal função. Atua em Finanças para uma multinacional de bebidas não-alcoólicas. Não mora em São Paulo e entende que a crise hídrica é muito mais complexa do que possa parecer, mas precisa conversar com sua filha mais velha para realmente entender como essa crise se iniciou e o que precisa ser feito para solucioná-la.

(1) Tradução livre do texto original em inglês: “You couldn’t find a better way of teaching the truths of global ecological concerns on one hand and global business interests on the other.”

Imagem cortesia de Stuart Miles em FreeDigitalPhotos.net.

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