Dicas para quem quer mudar de carreira

“Cada segundo é tempo de mudar tudo para sempre. ”

– Charles Chaplin

 

Recentemente, uma amiga tomou uma decisão bastante arrojada: mudar de carreira. Depois de uma bem-sucedida temporada em Finanças Corporativas e TI, com excelentes recomendações de executivos de empresas como Whirlpool, Suzano, Fiat Chrysler, TAM e Deloitte, a Nivia tomou a surpreendente decisão de “trocar o certo pelo duvidoso”, como diz o ditado popular, assumindo uma posição em Recursos Humanos. O Marcos Minoru assim descreveu esse momento:

 

“Reconhecendo sua enorme disposição em mudar de uma especialização prévia em Finanças Corporativas e TI para a área de Recursos Humanos, apenas tive de encorajá-la a seguir adiante com seu sonho, sabedores, ambos, que ela reunia características pessoais e ‘background’ profissional, como gestora, para efetuar essa migração com alguma tranquilidade. ”

A jornada de autodescobrimento da Nivia pode ser lida no texto “Por que decidi mudar para Recursos Humanos”. Auxiliar na avaliação, promoção e treinamento de pessoas, promover o bem-estar e a inclusão, resolver problemas e conflitos, são algumas das atribuições de recursos humanos que a Nivia busca em sua nova etapa profissional, e para as quais se sente totalmente preparada. E é exatamente aí que os seus anseios vão ao encontro das necessidades do mercado: a mudança de carreira não se dá tão somente por desejo ou por necessidade do indivíduo; é preciso que seus novos “clientes” – a empresa ou as pessoas que contratarão seus serviços em sua nova área de atuação – acreditem em sua capacidade de execução.

Pense em sua rotina diária, em tarefas corriqueiras como comprar pão ou pegar um ônibus. Você provavelmente não se preocupa em buscar referências sobre o padeiro ou o motorista de ônibus, você simplesmente vai e compra seu pão no lugar que seja mais conveniente, ou pega um ônibus cujo trajeto aproxime-se ao máximo de seu destino. E caso o pão não seja bom, você pode trocar de padaria no dia seguinte. E caso o motorista do ônibus não seja prudente, você pode fazer uma reclamação formal a empresa de ônibus. Você sempre terá a opção de trocar de prestador de serviços no futuro, e as consequências decorrentes da baixa qualidade dos serviços são pontuais e facilmente reversíveis.

Agora pense em serviços mais complexos: um dentista, um médico, um cuidador para seu pai idoso ou seu filho com necessidades especiais. Será que sua escolha será tão simples e automática quanto a busca por uma padaria ou um ônibus? Provavelmente não. Você buscará referências pessoais e profissionais, avaliando a capacidade desses profissionais em entregar os serviços que você espera deles. Empresas fazem o mesmo quando resolvem contratar um novo profissional para sua equipe. Empresas querem certificar-se de que esse profissional é capaz de entregar aquilo que é requerido da posição que lhe é oferecida. Trata-se do velho dilema das experiências profissionais. E quando alguém decide mudar de carreira, não há experiência profissional prévia. Nesses casos, o que as empresas têm em mente ao contratarem tais profissionais? As empresas avaliam as características pessoais, habilidades e potencialidades do profissional em mudança de carreira, bem como sua comprovada capacidade de aprendizagem.

Jim Schreier, em seu artigo “Translating Skills For A Career Transition” (algo como “Correlacionando Habilidades para Transição de Carreira”), conta a história de um ex-jogador de futebol americano que decidiu juntar-se a uma equipe de Stock Car, trabalhando nos boxes. Para convencer a equipe de que ele era a pessoa certa para essa função, mapeou suas habilidades como jogador de futebol americano, identificando o valor de tais habilidades nos boxes da Stock Car.

Velocidade, agilidade, ser capaz de desempenhar várias tarefas ao mesmo tempo, manter-se focado em situações de pressão e reagir racionalmente ao deparar-se com imprevistos são algumas das características necessárias para atuar nos boxes de uma equipe de Stock Car, e tais características podem muito bem ser aplicadas em profissões diversas, desde a área financeira a policiais ou equipes médicas atuando em centros de atendimento a acidentados. E é aí que mora o perigo. Por vezes, profissionais em mudança de carreira elaboram verdadeira “lista de compras” em seus currículos, incluindo um número sem fim de habilidades e capacitações, como se isso fosse levá-los a algum lugar. A verdade é que não chegarão a lugar nenhum dessa forma. Para mudar de carreira, é preciso foco. É preciso conhecer-se a si mesmo, saber onde se quer chegar, quais as habilidades requeridas, quais dessas habilidades foram adquiridas durante sua trajetória profissional e qual o plano de ação com relação as habilidades menos desenvolvidas.

Uma forma de convencer o contratante de que suas habilidades são mais que uma simples “lista de compras” é incluir suas “conquistas” em seu currículo, demonstrando como suas habilidades se traduziram em ações durante sua trajetória profissional. Imagine que você é gerente de marketing, mas gostaria de atuar em planejamento financeiro. Existe uma vaga para gerente de planejamento financeiro, e a empresa adota uma política de prioridade para candidatos internos, antes que vagas sejam abertas ao mercado. Você já tem uma vantagem, mas precisa provar que é o profissional que a empresa procura. Estas são as habilidades necessárias para desempenho da função, segundo anúncio publicado pela empresa:

  • Conhecimento do mercado de atuação.
  • Experiência em planejamento de operações e vendas.
  • Atitude colaborativa com outras áreas da empresa.
  • Experiência mínima de 5 anos em planejamento financeiro.

Um bom gerente de marketing deveria conhecer o mercado de atuação da empresa, ter experiência em planejamento de operações e vendas e espera-se que tenha desenvolvido fortes conexões com áreas de vendas, produção e desenvolvimento de produtos, por exemplo. Exceto pela experiência mínima na função, as outras qualificações requeridas para o cargo estão ali, acumuladas ao longo de sua experiência profissional como gerente de marketing. Se o profissional for capaz de exemplificar como tais habilidades se converteram em valor para a empresa, for capaz de aprender novas habilidades e puder comprovar tal capacidade, e se tiver clareza de propósito acerca de sua mudança de carreira, suas chances de assumir a vaga serão grandes – maiores que as chances de um profissional cujo currículo inclua uma lista infindável de habilidades, muitas delas não relacionadas com a vaga que almejam.

A lógica que se aplica àqueles que buscam uma mudança de carreira é válida também para quem busca uma promoção ou emprego em uma nova empresa. Entender os pré-requisitos para a vaga, correlacioná-los com suas habilidades e competências e prover o contratante com exemplos que ilustrem sua capacidade para desempenhar a função são um passo à frente dos outros candidatos, rumo à vaga que você almeja. Como dizíamos na Andersen, ninguém é promovido a gerente – a pessoa já é gerente, apenas oficializamos sua posição.

Andre L. Braga é coach profissional com certificação internacional pelo Instituto Holos, embora não exerça profissionalmente tal função. Atua em Finanças para uma multinacional de bebidas não-alcoólicas. Suas mudanças profissionais nunca foram muito radicais, de auditor externo e consultor empresarial para auditor interno, e então para controller e daí para diretor financeiro. Tudo seguindo alguma lógica, algo como uma sequência natural, nada muito radical. Mas admira muito aqueles que partiram em busca de aventuras em novos territórios, como a Nivia citada neste texto, a Marcela com seu Mix Bazar, a Fabiana como professora de Yoga, o Minoru como Conselheiro de Carreiras ou o Guido com seu bar temático.

Imagem: Stuart Miles em FreeDigitalPhotos.net.

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