Líderes não temem a verdade.

“Se você está descrevendo a verdade, deixe a elegância para o alfaiate.”

Albert Einstein

Será que um líder deve sempre dizer a verdade? Dizer meias verdades é pior que mentir descaradamente? E enfeitar a verdade, pode?

Existem vários textos dizendo que um líder deve dizer sempre a verdade a seus liderados, e eu pessoalmente concordo com isso. Acontece que esses textos são por vezes mal interpretados, e acabamos achando que um líder deve ser tão direto ao ponto de ser grosso ou inconveniente, ou que um líder deve ter a língua solta e sair dizendo ao mundo o que pensa e divulgando detalhes sobre a estratégia da empresa. Não é bem por aí…

Existem certas restrições de acesso a informação que devem ser observadas, e nem tudo o que se passa nas empresas pode ser abertamente divulgado pela alta gerência a seus empregados. Empresas de capital aberto, por exemplo, devem seguir certas regras sobre compartilhamento de informações. Nenhuma parte interessada pode ter acesso a informações privilegiadas, que possam dar-lhes vantagem sobre os outros. Isso faz parte da dinâmica do mercado de capitais, e tais regras devem ser claramente comunicadas e frequentemente lembradas pela empresa a todos seus colaboradores. Neste caso, um líder de verdade não deve mentir ou usar meias verdades; ao contrário, deve ser transparente com seus empregados, explicando que existem regras a serem observadas e que certos assuntos não podem ser abertamente discutidos, sob o risco de informações privilegiadas vazarem, beneficiando alguns agentes de mercado, o que seria uma infração grave.

Existem certas informações, principalmente no que tange a projetos em andamento, que não precisam (nem devem) ser comunicadas, pois não trariam qualquer benefício aos empregados. Imagine que a empresa iniciou estudos sobre possível encerramento das atividades de um de seus escritórios de vendas. Enquanto estudo, não há nada que os empregados daquele escritório possam fazer a respeito, não há nenhuma decisão que impacte seus empregos e tampouco existe uma lista de quem seria demitido e a quem seria oferecida transferência para outros escritórios. Ao divulgar tal informação, o líder não estaria sendo transparente ou verdadeiro; estaria apenas alimentando ansiedades e fofocas. Comunicar tais situações é tão efetivo quanto ler o horóscopo para saber o que acontecerá no seu dia.

Mesmo em tais situações, um líder de verdade não precisa mentir. Ao contrário, deve ser transparente e dizer que não pode comentar sobre temas que possam ser classificados como informação privilegiada, ou sobre estudos não conclusivos acerca dos quais decisões não foram tomadas, e que irá compartilhar informações tão logo possa fazê-lo. E para garantir sua credibilidade, devem cumprir o prometido e compartilhar informações assim que seja legalmente permitido, ou assim que decisões tenham sido tomadas.

E quais são as atitudes que fazem com que empregados não confiem em seus gerentes? Agir apenas em causa própria, não cumprir o prometido, não assumir uma posição frente a conflitos, não dar a cara ao tapa, esquivar-se em situação de crise, não assumir culpa frente a erros, tomar crédito pelo trabalho dos outros. Essas são algumas das mentiras que más gestores contam a seus empregados e que fazem com que exista uma crise generalizada de confiança nas empresas – e o mesmo se aplica a governos.

Se você quer ser “promovido” de chefe a líder, se você quer ganhar respeito e confiança de seus liderados, se você quer que as pessoas acreditem em você, pratique as seguintes ações diariamente:

  1. Direcione suas ações para o bem da empresa. Ao fazer o que é certo para a empresa, você estará também beneficiando a si mesmo e aos seus liderados. Alguns gestores agem apenas em causa própria, e passam por cima de tudo e de todos para atingir seus objetivos. Não seja você mais um deles.
  2. Cumpra o prometido. Se não pode cumprir, não prometa. Seja direto e objetivo e diga que não pode fazê-lo. Ponto. Melhor encarar a frustração causada pelo “não” que fazer com que os outros se sintam enganados por você. Não seja como políticos que prometem maravilhas durante a campanha eleitoral, e fazem tudo diferente após eleitos. Não seja como chefes que prometem promoção a todos seus empregados, mas que depois não promovem ninguém, e finalmente põem a culpa na crise ou na nova política de Recursos Humanos da empresa.
  3. Tome decisões e expresse-as claramente. Muitos ficarão insatisfeitos, mas melhor demonstrar seus pensamentos e opiniões do que ficar em cima do muro e deixar as coisas acontecerem sem sua intervenção. Ou pior, tomar decisões nos bastidores e depois dizer que não sabia de nada, que não foi consultado, mas que agora é tarde demais para intervir.
  4. Assuma culpa pelos seus erros e dê os devidos créditos a quem de direito pelo sucesso alcançado. Muitos fazem exatamente o oposto.

Trabalho há anos com um excelente gestor – e um exemplo de líder – que diz que “a credibilidade é o maior dos ativos de um profissional”. Acredito piamente nessa frase e busco desenvolver meu trabalho tomando esse conceito como norte. E posso afirmar que, pelo menos no tocante a minha experiência pessoal, não existe melhor forma de desenvolver-se profissionalmente. Deixar jogos políticos de lado, falar claramente o que pensa, não disseminar informações incorretas – em outras palavras, não alimentar fofocas e não dar palpite sobre o que não sabe. Ser assertivo, criticar construtivamente e não embelezar a verdade, por mais dura que seja. Seguir seus valores pessoais e agir em função dos objetivos da empresa, nunca em causa própria ou protegendo silos ou grupos específicos. Tudo isso contribui para fortalecer sua imagem, a imagem de sua empresa e o comprometimento de sua equipe para atingir objetivos comuns.

Seja você também um líder de verdade! Não tenha medo da verdade, encare-a de frente e contribua para a construção de uma empresa melhor. E se todos fizerem o mesmo, construiremos juntos um ambiente de trabalho melhor para as novas gerações.

“Meias verdades são mentiras inteiras.”

Bibh Rossini

Andre L. Braga é coach profissional com certificação internacional pelo Instituto Holos, embora não exerça profissionalmente tal função. Atua em Finanças para uma multinacional de bebidas não-alcoólicas. Nos últimos dois meses, dedicou-se a escrever artigos sobre liderança. O que começou com um artigo publicado no LinkedIn em novembro de 2015, intitulado “O que é preciso para ser um líder?“, acabou se transformando em uma série de sete artigos semanais:

  • Um conto de fadas chamado liderança” foi o primeiro da série, contrapondo-se ao texto de novembro e questionando se realmente existe uma fórmula para liderança.
  • Existe uma constante comparação entre chefes e líderes. Os dois textos seguintes exploraram extremos no mundo das más chefias – os chefes tiranos e os chefes bonzinhos.
  • Acreditando que todos temos potencial para liderança, desde que explorado de maneira correta, o quarto texto da série traz dicas para quem quer mudar de carreira – que se aplicam também àqueles que buscam crescer em suas carreiras atuais. Este texto complementa outro post mais antigo, de outubro de 2015, intitulado “Cultura Empresarial e a Pedra da Vida“.
  • Para ser líder, é preciso explorar o potencial de cada indivíduo. É preciso não conformar-se com o status quo. E compreender que o mundo tal qual o conhecemos não é perfeito, e que mudanças são requeridas. Dentre elas, a mudança de perfil das demandas das empresas com respeito aos trabalhos de cunho administrativo. Temos que nos adaptar aos novos tempos que hão de vir – quiçá devamos provocar tais mudanças e assim demonstrar nosso papel de liderança?
  • O penúltimo texto da série explorou “O Papel do Líder na Gestão de Crises“. É nos momentos de crise que diferenciamos os verdadeiros líderes daqueles que apenas tiveram sorte de estar no lugar certo, na hora certa. Liderar na crise é atestado de competência para gestores.
  • E hoje encerra esta série, ressaltando a credibilidade como a maior das virtudes de um profissional de sucesso.

Caso queira conhecer um pouco mais sobre o que um coach pode fazer por você e sua carreira, entre em contato! Terei o maior prazer em dirimir suas dúvidas e indicar bons profissionais atuando no Brasil.

Com respeito aos post semanais contendo textos originais do autor, adoraria receber sugestoes de algum amigo ou leitor para uma nova série, cobrindo um determinado tema. Entre em contato!

Imagem cortesia de winnod em http://www.freedigitalphotos.net.

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