Seu Legado Para O Mundo

Há alguns meses, ajudava um colega de trabalho na preparação de uma apresentação para um treinamento sobre liderança. Ele teria 40 minutos para contar uma situação na qual impactou positivamente os negócios, e escolheu falar sobre um projeto que liderou quando trabalhava no Japão. A última página de sua apresentação mencionava aquilo que ficou para trás quando ele deixou o Japão, o que era um grande equívoco: ele não havia deixado nada para trás, nem sequer havia “deixado” o Japão – ele havia, sim, plantado uma semente que germinou e gerou frutos! Ele continuava impactando os negócios no Japão por meio de seu legado!

Existe um ditado popular que afirma que as pessoas somente se realizam plenamente após plantarem uma árvore, terem um filho e escreverem um livro. Se tentarmos interpretar a parte poética deste ditado, voltaremos à questão do legado. Podemos levá-lo ao pé da letra e, ainda assim, não nos sentirmos realizados. Se nosso legado não for positivo, não podemos afirmar que atingimos nossa plenitude. Existe uma grande diferença entre ter filhos e criá-los para serem cidadãos “do bem”. Empresas plantam milhares de árvores todos os anos, mas nem todas o fazem com o simples propósito de fomentar um futuro melhor. E você sabia que até mesmo Hitler escreveu um livro? A meu ver, a leitura mais adequada desse ditado seria algo como: “Para sentir-se plenamente realizado, descubra qual legado você quer deixar para gerações futuras, e trabalhe para que isso se torne real.”

Posso não ter plantado uma árvore,
Nem escrito um livro,
Nem gerado um filho.
Mas plantei sementes,
Inspirei histórias,
E dei a luz a mim mesma.

Marcela Albuquerque, Escritora.

Minhas filhas passam por (mais) uma fase de disputa por atenção. A mais velha sabe que tem o fator força a seu favor, enquanto que a mais nova explora o fator “caçula”. Escrever é mais fácil que fazer, mas o que minha esposa e eu tentamos fazer é quebrar esses comportamentos destrutivos e incentivar a cooperação entre irmãs e a resolução dos conflitos – que vão surgir, isso é parte inerente de serem irmãs – de forma civilizada. Elas não vão concordar sempre uma com a outra, mas precisam entender que o “concordar em discordar” se faz necessário para uma boa convivência.

O mesmo vale entre amigos e, no âmbito profissional, entre colegas de trabalho e na relação com seu chefe. Precisamos aprender a “concordar em discordar”, ou então, usando um termo mais atual, precisamos aprender a conviver com a diversidade. E conviver com a diversidade vai muito além de “aceitar” ou “tolerar”; precisamos aprender a “concordar em discordar”. Mas… o que vem a ser essa coisa de “concordar em discordar”, e o que isso tem a ver com legado?

“Concordar em discordar” é entender que os outros têm o direito de pensar diferente de você, que a sua verdade não é a única verdade, que seus interesses não são o motor do mundo e que os outros podem ter agendas completamente diferentes da sua. Isso não significa que sua agenda, suas ideias, seus objetivos não são relevantes, que sua ideia deva sempre prevalecer sobre as outras ou que você deva anular-se para que os outros tenham seu espaço. “Concordar em discordar” é entender que minha orientação sexual não interfere na sua, que o fato de ser hetero não faz de mim inimigo dos homossexuais, nem eles deveriam me ver como ameaça à sua liberdade de escolha. “Concordar em discordar” é aceitar que minha crença religiosa não precisa afetar a sua, que judeus e muçulmanos podem ser amigos, que crentes e espíritas podem conversar sem ofensas e, porque não, podem até falar de religião enquanto tomam um café no balcão da padaria! “Concordar em discordar” é uma mulher dizer “não” naquela hora, e um homem entender que “não é não” e que tudo bem, hora de parar, e não precisa brigar – muito menos “forçar a barra” por conta disso. “Concordar em discordar” é não distorcer os fatos, não usar o “fator minoria” – como minha filha mais nova usa seu “fator caçula”, manipulando os fatos para defender privilégios ao invés de pleitear por igualdade de direitos e deveres.

No ambiente de trabalho, “concordar em discordar” significa expor suas ideias, ainda que contrárias àquilo que seu chefe gostaria de ouvir, e saber que essa ideia poderá não ser aceita, mas que é certo defender o que lhe pareça melhor para a empresa. E se você acredita que sua ideia é realmente o melhor para a empresa, não se intimidar e seguir adiante, batalhando de forma civilizada para que sua ideia seja ouvida e eventualmente aceita – o que pode nunca acontecer, mas você não deve desistir após o primeiro, o segundo ou mesmo o vigésimo “não”, independentemente de onde ou quem ele venha. Isso se chama “perseverança”.

Quando aprendemos a “concordar em discordar”, aprendemos também que todos têm o direito de se expressar e de defender suas ideias, e que ideias com um propósito positivo são dignas de serem defendidas. Se defender o veganismo vai trazer um futuro menos cruel para os animais; se defender direitos iguais para homossexuais vai ajudar na construção de uma sociedade mais justa; se lutar por quotas raciais ou de gênero irá contribuir para a redução de injustiças sociais históricas; se aquele projeto vai fazer a empresa crescer e gerar empregos; ou se irmãos forem capazes de (re) aprender a conviver em harmonia, a causa é você quem escolhe. Contanto que sua causa traga algo de positivo para o mundo, e que você entenda que ninguém é obrigado a defendê-la ou apoiá-la ou mesmo ser simpático a ela, saiba que essa causa é como sua árvore, seu filho e seu livro – esse é seu legado para o mundo, então busque-a e siga em frente.

E então, qual será seu legado para o mundo?

Andre L. Braga é coach profissional com certificação internacional pelo Instituto Holos, embora não exerça profissionalmente tal função. Trabalha em Finanças para uma multinacional de bebidas não-alcoólicas. Teve o privilégio de trabalhar em diferentes projetos, em diversos países e com profissionais das mais variadas nacionalidades e bagagem cultural, e sente-se extremamente recompensado quando consegue compartilhar um pouco dessa experiência com jovens profissionais e estudantes, incluindo uma futura cuidadora de cavalos e uma futura veterinária.

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