Somos vítimas de nós mesmos

“Muitas vezes me vi mentindo, pra fugir de algo que me atormentava
e pra ter paz inventei um mundo de fantasias e com isso cai na ilusão.”

– Suellen Lopes

Desde que me conheço como gente, sou amante incondicional do rock, desde o mais tolo Brit Pop Rock até as mais pesadas bandas de Metal. E nesse meio estão, claro, as bandas de rock nacional dos anos 80 e início dos anos 90. E entre discos da Legião Urbana, Capital Inicial, Titãs e Engenheiros do Hawaii, estava a rebelde, mas não menos boba, banda Ultraje a Rigor:

“Meus dois pais me tratam muito bem (o que é que você tem que não fala com ninguém?)
Meus dois pais me dão muito carinho (então porque você se sente sempre tão sozinho?)
Meus dois pais me compreendem totalmente (como é que cê se sente, desabafa aqui com a gente!)
Meus dois pais me dão apoio moral (não dá pra ser legal, só pode ficar mal!)”

Roger deveria receber o Prêmio Kluge de Sociologia por conta da letra de “Rebelde Sem Causa”! Não poderia haver previsão mais acertada sobre como boa parte da juventude dos anos 80 se comportaria na fase adulta. Apesar de conhecida como a “década perdida”, vivíamos nos anos 80 uma liberdade sem precedentes. Saíamos de austeros anos de ditadura rumo a um processo de redemocratização do país, com menor rigor e censura, a juventude tinha acesso facilitado a cigarros, bebidas, drogas ilícitas e pornografia, e pais tentavam prover aos filhos tudo aquilo que o dinheiro pudesse comprar, como se isso pudesse compensar as incessantes jornadas de trabalho às quais eles, os baby-boomers, se submetiam. De lá para cá, parece que as coisas só pioraram, e as novas gerações tendem a ser cada vez mais mimadas por pais com mais presentes que presença para oferecer, mas isso fica para outro post. Estou aqui para falar da minha geração, aquela que viveu parte substancial de sua adolescência nos anos 80.

Experimentamos nos anos 80 a fórmula do “vai dar mal”, para não dizer “vai dar m***”. Pais mimando seus filhos, aceitando todos seus pedidos, dando-lhes tudo o que pleiteavam. Nesse cenário, a diferença entre seguir o caminho certo ou errado era algo quase que mágico. Não sei explicar o que fez jovens partirem exatamente de um mesmo ponto, mas acabarem trilhando caminhos totalmente diferentes. Poderia dizer que foram as escolhas feitas no passado, e ainda assim teria dificuldade em explicar porque diferentes pessoas tomam diferentes escolhas, mesmo tendo exatamente os mesmos elementos e informações em mãos. E é provavelmente nessa questão que reside o segredo mais bem guardado de psicólogos e psiquiatras. E, sinceramente, não me sinto gabaritado para aprofundar-me em discussões filosóficas sobre esse tema, então…

O fato é que, independentemente das escolhas que fizemos no passado, há sempre chances de mudarmos. Algumas mudanças são mais fáceis que outras, e não estou aqui dizendo que todos podem se tornar milionários se trabalharem duro. Tampouco estou falando de meritocracia, de que “quem planta, colhe” ou coisas do tipo. Guardem suas retóricas ideológicas para outro fórum. O que quero dizer é que nunca é tarde demais para sermos pessoas melhores. E que isso é plenamente possível. E que isso vale a pena e traz retorno: talvez não financeiro, mas certamente no tocante a satisfação pessoal. Tudo depende do quão corajosos somos para enfrentar nossos maiores demônios: a soberba, a arrogância, a ganância, a indiferença, o egoísmo. E a dificuldade de enfrentar tais demônios reside justamente na forma que fomos criados!

“Meus dois pais me tratam muito bem / Meus dois pais me dão muito carinho”. Se tudo isso foi mal dosado, carregamos conosco a certeza de que merecemos tudo deste mundo, que somos melhores que todos, mais espertos que os outros, e que o mundo nos deve montanhas de dinheiro, elogios, liberdades. Queremos ser donos do nosso próprio nariz e, ao mesmo tempo, queremos que o mundo nos traga lenços de papel para assoá-los sempre que necessário. Nos tornamos adultos irresponsáveis, eternas crianças em busca de uma realidade que não condiz com o mundo em que vivemos, tentando encontrar culpados para o fato de não termos alcançado tudo aquilo que merecemos (desejamos).

E quando a coisa pega, quando dói pra valer, quando se torna insustentável, o que fazemos? Explodimos, expondo ao mundo nossa frustração, #pronto_falei, ao invés de encararmos os problemas de frente e resolvê-los com a outra parte. Fugimos da confrontação direta, partimos para a postagem indireta e impessoal.

Falhei

 

Precisamos aprender a lidar com nossas frustrações diárias. Não é nada fácil, ainda mais se crescemos acreditando que tudo podemos, que somos pessoas especiais e que temos o direito de ser felizes, e que somos donos de nossas próprias vidas e que não precisamos mudar em nada nosso jeito de ser. Existem milhares (talvez milhões) de revistas, livros, sites, blogs e páginas de auto-ajuda no Facebook e Instagram. Essas mídias nos bombardeiam com mensagens positivas, daquelas de levantar nosso ego e nos fazer acreditar, cada vez mais, que somos especiais e devemos ser respeitados como tal, e que temos o direito de seguir vivendo da maneira que quisermos. Desculpe-me, meu caro amigo, mas a vida não funciona assim. Você não precisa se enquadrar nos modelos impostos pela sociedade. Você pode se rebelar contra o status-quo e acho isso até bastante saudável. Mas ninguém é uma ilha, somos interdependentes e nossas atitudes tem a enorme capacidade de trazer alegria ao dia dos outros, ou então magoá-los profundamente, às vezes de forma irreversível.

E então, qual tipo de energia você gostaria de distribuir mundo afora?

Andre L. Braga é coach profissional com certificação internacional pelo Instituto Holos, embora não exerça profissionalmente tal função. Atua em Finanças para uma multinacional de bebidas não-alcoólicas. Este texto não é uma indireta para absolutamente ninguém. O autor aprendeu com sua companheira (no belíssimo sentido da palavra, conforme ensinado pelo amigo Celso Davanzo) que problemas devem ser resolvidos face-a-face. Espera sinceramente que este texto possa ajudar leitores a refletir sobre seus atos e aprender a lidar melhor com suas frustrações diárias. Ele – o autor – também se frustra, assim como qualquer pessoa normal. Não acredite em autores que se dizem totalmente felizes e plenamente realizados. Isso só pode ser propaganda para vender livros ou acumular seguidores.

Imagens: nenetus em FreeDigitalPhotos.net.

Arzirio Cardoso em http://formigalhas.blogspot.com.

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