Uma vida sem desafios seria muito chata

“Pedras no caminho? Eu guardo todas. Um dia vou construir um castelo.”

– Nemo Nox

Resolvi começar meu post de hoje com um pouquinho de geografia e estatística. Sabe a Guiana? Não a Francesa, mas a ex-colônia Britânica? Estou falando daquele país que faz divisa com Roraima e Pará, tendo Suriname a sua direita. Com pouco mais de 750 mil habitantes, a Guiana lidera um dos rankings da Organização Mundial da Saúde (OMS): o de maior taxa proporcional de suicídios no mundo.

Segundo reportagem da BBC, estima-se que cerca de 44 em cada 100 mil pessoas se suicidam por lá. Como comparação, no Brasil essa taxa é de menos de 7 pessoas por 100 mil habitantes. Dentre os principais motivos estão desavenças familiares, problemas de relacionamento e violência doméstica, seguidos por pressão de colegas, preconceito contra homossexuais, pobreza, desigualdade no acesso à educação e saúde, e até mesmo a glorificação do suicídio em filmes e novelas da Índia (há muitos imigrantes indianos na Guiana).

Na sequência do ranking da OMS estão Coreia do Norte (38 por 100 mil), Coreia do Sul (29), Sri Lanka (29), Lituânia (28), Suriname (28), Moçambique (27), Tanzânia (25), Nepal (25) e Cazaquistão (24). Você pode estar pensando: “Os motivos são sempre os mesmos, as pessoas se matam por não terem perspectivas de vida, é muito duro viver num país pobre, miserável”. Mas se tudo fosse culpa do dinheiro – ou da falta dele – como explicaríamos Coreia do Sul e Lituânia nesse ranking então? Ambos apresentam renda per-capita acima da média mundial.

Renda-1

 

A renda per-capita é uma média. Não podemos assumir que o brasileiro ganha cerca de R$ 2 mil por mês. Existe desigualdade social, alguns poucos ganham muito mais que outros tantos, mas quanto menor a renda per-capita, menor a renda média dos que ganham menos. É razoável esperar que as pessoas mais pobres da Coreia do Sul e Lituânia ganhem mais que os mais pobres no Brasil, na Guiana e no Nepal.

Sabe aquele ditado popular, de que dinheiro não traz felicidade? Se dinheiro trouxesse felicidade, deveríamos esperar Nepal liderando o ranking de suicídios, não Guiana. Também não deveríamos ter Coreia do Sul e Lituânia nessa lista. Se dinheiro fosse resposta para tudo nessa vida, o ranking de suicídios deveria ser liderado pelo Sudão do Sul (menor renda per-capita do mundo, cerca de 60 centavos de dólar por dia), seguido por Burundi, República Centro-Africana, Malaui, Madagascar, Níger, Gambia, Libéria, Congo e Moçambique. Curioso, não? Apenas o 10º país com menor renda per-capita no mundo aparece no ranking de suicídios da OMC, em sétimo lugar, atrás de Coreia do Sul e Lituânia. Dinheiro definitivamente não traz felicidade.

Brincando um pouco mais com estatísticas, quais são os países europeus com maior renda per-capita? E qual a taxa de suicídios nesses mesmos países?

Renda-2

 

Sim, você está lendo isso mesmo! Nos países com população mais rica da Europa, onde a renda per-capita diária é cerca de 10 vezes maior que no Brasil, a taxa de suicídios varia entre 30% e 90% maior que os 7 suicídios por 100 habitantes registrados em terras tupiniquins! Quer uma comparação mais contundente? Esses países têm renda per-capita mais que 100 vezes, mas taxa de suicídio entre um terço e metade daquela registrada no Nepal, 9º colocado mundial em número proporcional de suicídios! E a média da União Europeia não é menos desoladora.

Um estudo de 2011 da Universidade de Warwick tenta explicar esse paradoxo. Países ricos, cujos habitantes são providos de invejável infraestrutura, nível de emprego, assistência médica, educação e tudo o mais que o dinheiro pode comprar, enfrentam níveis elevados de suicídio por conta de um problema crítico: a grama do vizinho. A felicidade alheia torna-se fator de risco para pessoas de baixa autoestima, descontentes por viver em lugares onde o resto dos indivíduos demonstra mais felicidade do que elas. Conforme explica o professor Andrew Oswald, responsável pelo estudo: “Sendo os seres humanos expostos às mudanças de humor, as comparações com os outros podem tornar mais tolerável a nossa existência num ambiente em que os outros são completamente infelizes”.

Grama-do-vizinho

 

O problema parece residir na natureza humana. Estamos sempre descontentes com aquilo que temos. E enquanto esse descontentamento pode ser o motor para a constante evolução de nossa espécie, pode também ser o motivo para alguém se suicidar!

Vejam bem, suicídio é assunto sério, um problema social a ser estudado e tratado com todo o respeito. Mas há situações em que simplesmente nos fazemos de vítima frente a problemas relativamente simples, que poderiam ser resolvidos com apoio de nossos próximos e uma boa dose de perseverança. Sei que é difícil, porque as vezes a realidade bate forte.

No fundo, tudo depende de como encaramos nosso descontentamento. Se não estamos satisfeitos com algo e lutamos pelo seu aperfeiçoamento, estamos transformando nosso descontentamento em progresso. Se ficamos parados, reclamando da vida e apenas esperando que a nossa grama fique milagrosamente mais verde que a do vizinho – ou desejando que a grama dele morra, seja devorada por gafanhotos, ou que um labrador faça mil buracos e encha aquela grama verdinha de cocô – estamos apenas alimentando nossos sentimentos mais baixos.

E isso vale para toda e qualquer coisa que se passe pela nossa cabeça. Tudo o que sentimos pode ser destrutivo ou construtivo, dependendo de como agimos frente a nossos sentimentos.

Sabe aquela raiva que vem quando vemos algo errado e que nos incomoda? O que fazemos com ela? Partimos pra briga? Fazemos revolução por trás das telas, postando toda nossa ira no Facebook ou palavras de ordem via Twitter? Ou transformamos essa raiva em combustível para mudarmos aquilo que está mal, seja conversando com aquela pessoa que faz algo errado, seja intermediando conversas com aqueles que podem intervir para que a injustiça que te incomoda chegue ao fim?

Sabe aquela indignação de pedir algo aos colegas de trabalho, e as coisas nunca saem dentro do prazo, ou com a qualidade esperada? O que você faz? Arranca seus cabelos, grita aos quatro cantos do mundo que não suporta trabalhar com gente incompetente, demite (ou pior, sempre ameaça demitir, mas nunca o faz) um ou outro empregado e refaz todo o trabalho do exato jeitinho que você queria? Ou você demonstra sua insatisfação, deixando claro o que não está bom e ajudando seus colegas a entenderem o problema, refazerem o trabalho dentro dos moldes esperados e, assim, ajudando-os a crescer e se desenvolver profissionalmente?

Sabe aquele chefe “mala”, que vive criticando seu trabalho e nunca reconhece nada de positivo naquilo que você faz? Você fica reclamando dele pra todo mundo que encontra, e se estressa só de pensar que vai ter que encontrá-lo no dia seguinte? Ou você para e reflete sobre as críticas que tem recebido constantemente, busca desenvolver um plano de melhorias e, se ainda assim, as coisas não melhorarem, você busca um emprego melhor e deixa o chefe que nunca está satisfeito para trás?

Sabe aquelas constantes discussões em casa, com seu marido ou esposa, filhos ou irmãos? Você alimenta as discussões de forma defensiva, expondo toda sua raiva e personificando os problemas como se eles fossem a outra pessoa, exclusivamente causados pela outra pessoa e não pelas suas atitudes? Ou você encara o problema de forma civilizada, discutindo quais atitudes não são do seu agrado, sem personificá-los e genuinamente escutando o outro lado, com o desejo de buscar uma solução ao invés de incitar a separação e o isolamento?

Uma vida sem desafios é uma vida chata. Não é possível imaginar uma vida tranquila, sem problemas, sem momentos difíceis. A forma com que encaramos os problemas é que faz toda a diferença. Podemos ser felizes, apesar das dificuldades. Ou podemos ser miseravelmente infelizes, apesar de todas as alegrias que a vida insiste em nos mostrar, todos os dias, nas mais simples ou nas mais desafiantes das situações. Tudo vai depender de como escolhemos lidar com as adversidades, e o quanto realmente queremos ser felizes.

Os caminhos da vida estão cheios de pedras. Você prefere tropeçar nelas e cair sempre ou removê-las e seguir adiante? Ou então, por que não as coleciona e constrói com elas seu próprio castelo?

Andre L. Braga é coach profissional com certificação internacional pelo Instituto Holos, embora não exerça profissionalmente tal função. Atua em Finanças para uma multinacional de bebidas não-alcoólicas. Aos quatro anos de idade, tentou cortar seu pulso com uma faca de mesa. Tudo isso porque sua mãe não deixou ele fazer alguma coisa sem importância que ele nem se lembra mais o que era. Obvio que não conseguiu suicidar-se com uma faca de mesa. Nunca mais tentou, e sente-se muito feliz por isso.

Imagem: patrisyu em FreeDigitalPhotos.net.

Ulfgh em http://ulfgh.blogspot.com/2011/10/grama-do-vizinho-e-sempre-mais-verde.html.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.