Ética e a Lei de Gerson

“ A justiça não é da ética, nem da moral, mas é do capital. ”

– Juahrez Alves

Semana passada, a Polícia Federal deflagrou a Operação Carne Fraca, objetivando “desmantelar esquema de venda de carne ilegal e fraude na fiscalização sanitária”, conforme matéria publicada pela Veja:

“Considerada a maior operação da história da Polícia Federal, a Carne Fraca (…) desmantelou um esquema de pagamento de propina envolvendo funcionários do Ministério da Agricultura e empresários do ramo alimentício para relaxar a fiscalização e conseguir a liberação de licenças (…). Diante das informações de que produtos estragados estavam sendo liberados ao consumo, o governo precisou se mobilizar para tranquilizar a população e avisar que ‘não há razão para pânico’, pois nem todos os frigoríficos do país estavam envolvidos nos casos investigados.”

Ainda há muito a ser investigado. E há muita desinformação e notícias claramente sensacionalistas a respeito. A reportagem cita interdição de 33 fábricas, o que é um número bastante pequeno, comparado ao total de unidades processadoras de carnes em todo o Brasil. Mas o fato de ser um pequeno número frente a um imenso parque industrial não diminui a gravidade das acusações de corrupção de órgãos fiscalizadores para garantir “vista grossa” em processos de produção de alimentos que deveriam ser extremamente rigorosos. Temos que nos indignar com aquilo que não está certo, não há atribuição de valor econômico para aquilo que deveria ser medido por valores éticos.

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Enquanto a Operação Carne Fraca lidera as manchetes no Brasil, a BBC conta a história de um deputado sueco acusado de usar milhas do cartão de crédito corporativo em benefício próprio, em valor equivalente a pouco menos de quatro mil reais. Isso mesmo, quatro mil reais. Não foram milhões ou bilhões, foram quatro mil reais. E não foi em espécie, mas em milhas do cartão de crédito corporativo! Acontece que o Manual de Viagens dos Parlamentares suecos não permite o uso de milhas em benefício próprio – tais milhas devem ser utilizadas para comprar passagens para uso em serviço, afinal, as milhas foram acumuladas com recursos públicos, e assim devem ser utilizadas para fins unicamente públicos.

Não estou aqui para dizer que bom mesmo é viver na Suécia, ou que essa coisa de carne estragada misturada com papelão e elementos cancerígenos só podia ser mesmo no Brasil! Isso eu deixo para os sites de jornalismo de opinião – e muitos dos que assim se intitulam nada mais são do que revoltados querendo conquistar a verdade no grito. Mas vamos deixar bem claro: não podemos seguir aceitando o errado, pois enquanto aceitamos as coisas como “normais”, ou assumimos que “só podia ser no Brasil mesmo”, as coisas não vão mudar. Não podemos aceitar o que está errado. Não podemos deixar as janelas quebradas.

“Considere um edifício com algumas janelas quebradas. Se as janelas não forem reparadas, a tendência é que vândalos quebrem mais janelas. Após algum tempo, poderão entrar no edifício e, se ele estiver desocupado, torna-se uma ‘ocupação’ ou incendeiam o edifício. Considere uma calçada ou passeio no qual algum lixo está acumulado. Ao longo do tempo, mais lixo é acumulado. No final das contas, as pessoas começam a deixar lá seus sacos de lixo.”

Com ou sem papelão, se ácido ascórbico é ou não é cancerígeno – espero que não seja, pois tomei muito Cebion na minha vida – ou se foram 33 ou 33.000 fábricas interditadas, nada disso realmente importa. O que realmente importa é que não podemos aceitar que empresas e governos nos enganem. E não podemos deixar que nos enganem. E não podemos achar que, porque os outros nos passam para trás o tempo todo, devemos fazer o mesmo, pois isto aqui é uma selva de pedra, cada um por si, e viva a Lei de Gerson!

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Você já sabe o discurso, não? “Foram fatos isolados, em apenas algumas de nossas unidades produtoras, o que lamentamos profundamente. Os responsáveis pelas ações identificadas na Operação Carne Fraca foram desligados da empresa e todas as medidas cabíveis foram tomadas. Nenhuma das ações eram de conhecimento da administração de nossa empresa e estamos indignados com as atitudes irresponsáveis tomadas por esses poucos indivíduos que agiram de forma isolada e sem o conhecimento da empresa. Estamos cooperando com a Polícia Federal, para que os fatos sejam investigados e esclarecimentos sejam apresentados a população. A carne produzida no Brasil é de qualidade superior, e disso devemos nos orgulhar. Não podemos deixar que fatos isolados denigram a imagem e tradição construídas anos a fio. Temos orgulho de nosso produto e assumimos publicamente nosso compromisso continuado de trazer a mesa do brasileiro a melhor carne do mundo. Nisso você pode confiar.”

Por que nos deixamos seduzir por discursos inflamados? Por que aceitamos que empresas e governos escondam ou maquiem a verdade e sigam adiante? Existe uma enorme diferença entre ética e Lei de Gerson, e esses dois sujeitos simplesmente não podem andar de mãos dadas. São completamente diferentes. Não combinam. Não dá namoro. E quando aplicamos a Lei de Gerson para parecermos éticos, é aí então que a coisa toda fica feia, mas muito feia.

Enquanto aceitarmos que aquele político “rouba mas faz”; que aquela empresa “sonega mas gera empregos”; que aquela banca no centro “vende CD pirata, mas é mais barato”; que aquela carteirinha “é falsa, sim, mas a inteira é muito cara”; que aquele gato na TV a Cabo “funciona bem, e o cara que instala tá ganhando a vida honestamente”; enquanto continuarmos alimentando esse romance proibido entre a ética e a Lei de Gerson, enquanto continuarmos achando desculpas para o comportamento antiético, continuaremos a comer linguiça com papelão, leite com aditivos químicos, pão com bromato de potássio. Enquanto a Lei de Gerson for cultuada entre nós, não teremos deputados afastados de suas funções por desvios de R$ 4 mil em milhas do cartão de crédito corporativo.

O poder econômico de empresas e governos somente prevalece porque aceitamos que dinheiro é poder. Quando todos entendermos que devemos medir as coisas pelos seus valores éticos ao invés de valores monetários, estaremos criando condições para que o Brasil mude para melhor. Enquanto isso não ocorre, brindemos a Lei de Gerson com nossa cerveja de milho!

Andre L. Braga é coach profissional com certificação internacional pelo Instituto Holos, embora não exerça profissionalmente tal função. Atua em Finanças para uma multinacional de bebidas não-alcoólicas. Entende que governos e empresas devem ter seus Códigos de Ética, e um sistema rigoroso de verificação deve existir, para que nenhum dirigente possa jamais dizer que não sabia o que estava acontecendo, que foi um fato isolado, ou coisas do tipo. Seu código de ética pessoal resume-se a uma frase: “Que nenhuma de minhas ações resulte, de forma intencional, em danos a outras pessoas, e que não aceite passivamente que outros ajam contra mim e meus próximos de forma a causar-nos danos”.

Imagem:        hin255 em FreeDigitalPhotos.net.

#carneforte em linkedin.com.

Leve Mais Vantagem em http://metaambulante.blogspot.com/2011/01/abaixo-lei-de-gerson.html.

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