A vida que tanto buscamos está logo ali, na nossa frente.

Texto de Josiane P. Borges

Afortunados aqueles que acordam em suas camas, na maciez de suas cobertas, pois acordo já preparando o café da manhã. E quando minhas mãos finalmente começam a se ocupar com a faca, a manteiga e o leite, já estou ocupada pensando no tempo que perderei para chegar ao ponto de ônibus. A mente quer acreditar que está sempre um passo adiante, tem pressa. Pressa para se livrar o quanto antes das distrações monótonas para que assim sobre mais tempo para aproveitar as outras distrações que julga prazerosas e dignas de sua atenção.

Durante o trabalho, a mente pode até se dar conta que está ali em um momento ou outro, mas apenas para resolver problemas mais urgentes, pois está sempre na expectativa do “merecido prêmio” que está em casa ou na saideira. E assim fica por horas a fio, tentando evitar o sofrimento ali presente e ansiando o “prêmio”. Ela chega em casa, e finalmente pode se distrair da maneira “que deveria”, desfrutar sua recompensa. Mas tão logo a televisão liga, descobre que não há nada de interessante passando nos canais.

Mesmo antes de a mão apertar os botões do controle remoto, a mente há muito migrou para a internet. Quando deu por si ela já estava ali, acessando o seu perfil no Facebook. Mal olhou sua Linha do Tempo, e já entra em uma discussão acalorada em alguma postagem. Resolve então ouvir música, mas logo não vai bastar, pois vai querer fazer outra coisa, já que ainda não se divertiu o suficiente, se é que se divertiu. Olha para o relógio e vê que já é hora de dormir para o trabalho, para começar um novo dia.

O que ela entende por “novo dia” é a repetição do “ontem”. Sim, os acontecimentos mudam, mas a essência é a mesma: ter pressa para aproveitar aquelas 3 horas do fim do dia. Querer que aquelas 21 horas passem, saiam do caminho, saiam da vida dela, para que possa aproveitar a vida “de fato” nessas 3 ínfimas horas. E isso apenas quando as condições estão favoráveis, pois se a internet cai, se os amigos não querem sair, se ela fica doente, se ela não está de mau humor, se ela tem que cuidar da casa ou dos filhos, então ela não aproveitou aquelas 3 horas e precisa tentar novamente, no “novo dia”. Tentar viver a vida, é o que diz para si mesma para se convencer. Mas a mente está tão presa no “modo automático”, tão presa nesse ciclo, nessa roda invisível, que ela não percebe que vive uma vida de antecipações, de expectativas, e não a realidade de fato; antecipações essas que ainda assim dependem de certas condições para que se realizem.

Há ainda outras mentes que preferem jogar fora 11 meses para “aproveitar” 1 mês. Isso quando elas conseguem aproveitar, pois mal passam alguns dias e suas preocupações as trazem de volta das férias, mesmo que o calendário diga o contrário. Passam-se anos, e chegamos na velhice desejando a juventude pois “não soubemos aproveitá-la”. E então descobrimos que não só as distrações monótonas mas também as prazerosas eram uma forma de rejeitar a vida, e não de vivê-la. A mente inquieta e insaciável desconhece que cada hora, cada minuto, cada segundo que passa é um investimento da sua vida, e que estar consciente de cada um desses momentos é realmente viver. Mas como uma criança mimada e ansiosa, a mente encara a vida como algo monótono e, portanto, indigna de investir sua atenção e dar seu devido valor. É um paradoxo: temos pressa em viver a vida, mas a evitamos com distrações, pois não a suportamos. Não suportamos que ela não satisfaça nossos vícios e nos possibilite viver nesse ciclo da forma como desejamos. Não a suportamos por não satisfazer as nossas expectativas, ao invés de deixar que a atenção plena nos guie para a realidade como ela é de fato. E a paz interior assim se esvai, pois a mente agitada não consegue se assentar, não consegue evitar de correr na roda e parar para aproveitar o que há além dela.

Se quisermos “aproveitar nosso tempo”, se quisermos sair da roda, não devemos evitar. Os momentos “bons” ou “ruins” se baseiam em julgamentos, e não no que eles são de fato. A vida que tanto buscamos está logo ali, na nossa frente, sem lugar ou horário fixo, sem depender de quaisquer condições. Está em cada respiração, em cada inspiração e expiração. E com ela a paz de poder parar e apreciar o que está além da roda.

Josiane P. Borges

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