O papel da escola na construção de um mundo melhor

Esta série de artigos veio para mostrar que, ao incorporarmos simples hábitos ao nosso dia-a-dia, podemos contribuir para a construção de um mundo melhor. No texto de hoje, abordamos o papel da escola na construção de um mundo melhor.

“Uma criança, um professor, uma caneta e um livro podem mudar o mundo.”

Malala Yousafzai

Como você escolhe a escola de seus filhos? Pela proximidade da sua casa ou trabalho? Pela disponibilidade de vagas? Através da indicação de amigos e parentes? Pelo ranking do ENEM? Pela tradição do nome que a escola carrega? Pelo método de ensino oferecido?

Se você faz parte da maior parcela da população, cujos filhos atendem ao ensino público e vão a escola do bairro, ou aquela que tiver vaga, ou quaisquer que sejam os critérios impostos pela prefeitura da sua cidade, você deve estar pensando que sou um coxinha que acha que todo mundo tem dinheiro para bancar colégio particular. Não seja injusto comigo, sei que colégio particular é coisa para poucos, muito poucos…

Pagar para estudar só fez parte da minha realidade quando fui para a faculdade, pois frequentei escolas públicas no ensino fundamental e médio. E sabe o quê? Foram todas ótimas escolas, com excelentes professores e qualidade de ensino, que me possibilitaram entrar na faculdade sem ter passado um ano preparatório nos famosos “cursinhos pré-vestibular” da vida. Isso foi muito antes do ENEM, lógico. E vai ter gente que vai dizer que a escola era boa porque era na época dos governos militares, e eu vou rebater tais argumentos com um direto, porém educado, “vai estudar um pouco de história antes de falar sobre o que não sabe ou fez questão de se esquecer”… Governos militares acabaram no meio dos anos 80, e eu entrei na faculdade em 1991, então basta fazer as contas para ver que metade de minha vida escolar antes da faculdade se passou nos governos pós-militarismo.

Mas uma coisa é certa: a qualidade do ensino público caiu, e muito, desde meus anos de lápis e papel e giz e quadro negro. E como isso foi acontecer? Tem muito professor de escola pública e cientista político mais gabaritado que eu para explicar essa dinâmica toda. Isso vai passar por falta de investimentos, super-lotação das salas de aula, arrochos salariais, falta de incentivo à educação continuada dos professores, a municipalização do ensino público, a falta de planos de longo prazo, a instabilidade na definição de conteúdo pedagógico, e por aí vai. Isso para não falar do domínio das áreas escolares pelo tráfico, a apologia ao crime e a ostentação como formas de ser admirado pelos colegas de escola, como forma de ser visto como “o cara” ou “a mina”, e como isso diminuiu ainda mais a importância percebida e o respeito pela figura do professor. Em certas escolas, ser professor é mais arriscado que ser bombeiro ou policial ou soldado em campo de batalha!

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Nesse cenário todo, será que dá mesmo para esperar que a escola ajude a construir um futuro melhor para nossos filhos? Desculpe-me, mas não consigo ser tão otimista assim. Porém – e ainda bem que sempre tem um porém – ninguém disse que não podemos mudar isso tudo que está por aí!

Quantas vezes nos emocionamos com histórias que vemos no Facebook, com aquele vídeo falando daquele professor que conseguiu mudar o comportamento inaceitável da pior turma da escola? Ou do diretor que foi capaz de mudar, pra melhor, uma escola inteira? E quantos não se emocionaram com filmes que tratam desse tema, muitos deles inspirados em histórias reais? Então, existe uma saída…

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“Mas peraí! Todas essas histórias dependem de um professor carismático, um diretor corajoso que enfrentou traficantes de droga e gangues que dominavam a escola, uma estudante de Santa Catarina que fez um blog para dizer o que não estava bem em sua escola pública…”

E quem não se lembra dela? Isadora Faber, a estudante catarinense que fez um blog para chamar atenção para os problemas de sua escola? Ela era apenas mais uma estudante de escola pública, mas não aceitou ser mais uma… Ela foi e fez a diferença! E sempre que tivermos uma única pessoa, que esteja realmente disposta em fazer a diferença, as coisas irão acontecer!

Não está contente com a escola de seus filhos? Você já foi falar com a diretoria da escola? Com professores e outros que ali trabalham? Você sabe quem eles são? Quais desafios enfrentam, dia após dia, na tentativa de prover seus filhos com algum conteúdo pedagógico? Você sabe se seus filhos são da turma que está lá para aprender, ou da turma que está lá para gravar vídeos dançando ou desafiando os professores ou brigando na saída da escola? Se eles são da turma que está lá para “dominar” o ambiente, o que você vai fazer a respeito? Deixar rolar? Ou tomar uma atitude? E se eles são da turma que quer aprender, mas não conseguem estudar porque a turma da desordem domina a escola, o que você e outros pais de crianças que realmente querem estudar vão fazer a respeito? Como vão apoiar professores e diretoria na resolução de tais problemas?

“Mas o Estatuto da Criança e do Adolescente…”, vão dizer alguns. Se não me engano, esse mesmo estatuto determina que seus filhos têm direito à educação, e se outras crianças e adolescentes estão tirando esse direito que foi garantido a seus filhos, você tem o direito, sim, de pleitear que a diretoria da escola faça alguma coisa. “Mas a diretoria é inacessível e não vai fazer nada mesmo…” – então proteste, vá até a prefeitura, reivindique seus direitos! Aliás, o direito de seus filhos! Pode ter certeza que os profissionais sérios, que querem trabalhar e não encontram condições para fazê-lo, irão agradecer, e muito, ao seu apoio na luta que também é deles.

A escola tem um papel importantíssimo na construção de um futuro mais humano. Mas se não ajudarmos essa mesma escola, hoje, de forma prática e efetiva, a cumprir seu papel mais nobre, continuaremos em linha declinante, direto ao fundo do poço. O problema é que, talvez, nós já estaremos mortos quando finalmente atingirmos o fundo do poço, e restará aos nossos filhos sofrerem por lá, afogando-se em uma morte lenta e agonizante.

O que você quer para seus filhos? Um futuro brilhante ou uma vida sem sentido? E como você vai ajudá-los nessa busca? Mais uma vez, a verdade é que tudo isso cabe unicamente a você e às atitudes que está disposto a tomar, hoje, neste exato momento, incessantemente, até que as coisas estejam como você gostaria que estivessem.

Andre L Braga é coach profissional com certificação internacional pelo Instituto Holos, embora não exerça tal função. Atua em finanças em uma multinacional de bens de consumo. Em todas as escolas públicas pelas quais passou, sempre houve forte presença de movimentos estudantis, engajados não apenas em discussões partidárias, mas também em negociações com a diretoria daquelas escolas para implementação de melhorias, elaboração do “jornalzinho” – o melhor foi o do T.A.G. – e organizando eventos para estudantes e seus familiares. E tudo isso em escolas públicas, a última delas em bairro de periferia. Sei que tudo isso é possível, simplesmente porque experimentei essa fórmula na prática.

Por que não aproveita que chegou até aqui e assiste ao trailer deste filme?

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