Por mais amor em nossas relações sociais

Esta série de artigos veio para mostrar que, ao incorporarmos simples hábitos ao nosso dia-a-dia, podemos contribuir para a construção de um mundo melhor. No texto de hoje, abordamos formas de se viver em sociedade de forma mais humana.

“Vivemos numa sociedade consumista, numa sociedade de desejos, e não de projetos existenciais. Ninguém planeja ter amigos, ninguém planeja ser tolerante, superar fobias, ter um grande amor.”

Augusto Cury

Não sei o nome do meu vizinho. Nem da sua esposa. Nem da sua filha. Sei que a esposa dele é descendente de holandeses, que a filha deles é mais nova que as minhas e que às vezes eles recebem encomendas em meu nome que não couberam na caixa de correio, ou que precisavam de assinatura para comprovar recebimento. E isso é tudo.

O dono da casa onde moro vive do outro lado da rua. Sei o seu nome porque está no contrato de aluguel. Mas nunca me lembro do nome da sua esposa. Nem do seu filho. E sei que eles tem uma filha, mas tenho que confessar que nunca a vi. E eles tem um cachorro, minhas filhas adoram fazer carinho nele, mas tampouco sabem seu nome. E isso é tudo.

Existe civilidade e respeito entre os moradores do meu quarteirão, mas não posso dizer que exista qualquer tipo de relação mais próxima. Sei quem são, meio que assim “de vista”, mas talvez passe próximo a eles no centro da cidade e não os reconheça. Talvez estejamos na mesma fila do caixa do supermercado ou do café da esquina e, sem assunto, não falemos mais do que um simples “oi”. Se estiver bastante inspirado, talvez venha a fazer algum comentário sobre o tempo, sobre como o dia está bonito e que é melhor aproveitar enquanto o sol está dando as caras.

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Isso diz muito sobre nossos tempos e como encaramos a vida em sociedade. Nos trancamos em nossos pequenos mundos, construímos muros – físicos e virtuais – que nos protegem e nos isolam dos outros que estão lá fora, e assim nos distanciamos de tudo e de todos. E quando somos obrigados a manter algum tipo de relação, com colegas de trabalho ou de escola, por exemplo, tais relações costumam ser superficiais e voláteis, facilmente substituíveis. Parafraseando os Titãs, nossos colegas acabam se tornando “nossos melhores amigos de todos os tempos da última semana”, tão descartáveis quanto aqueles copos plásticos ao lado do bebedouro.

Se agimos assim, de forma tão distante, sem criarmos relações firmes com aquelas pessoas mais próximas da gente, como podemos imaginar algo como respeito ao próximo que nem está assim tão próximo? O que dizer então daquele estranho que cruzamos na rua?

Li outro dia que sentir compaixão pelos refugiados da Síria, pelos mortos no atentado terrorista em alguma cidade da Europa, pelas vítimas do deslizamento de terra na Colombia ou pelos mortos naquele acidente aéreo, tudo isso é fácil. Difícil é amar de verdade quem está perto da gente, gente com quem a gente convive diariamente e cuja convivência trás consigo uma infinidade de alegrias e frustrações.

É muito mais fácil nos enganarmos com declarações vazias de compaixão, ou mesmo doarmos roupas e alimentos àqueles que sofrem, lá longe da gente. Doações de bens àqueles que se encontram em necessidade, sejam vítimas de tragédias, seja o mendigo pedindo esmola ou o menino que lava o pára-brisa de seu carro em troca de algumas moedas, nos faz acreditar que estamos fazendo o bem e nos sentirmos bem por conta disso. Nada disso demonstra que temos verdadeira empatia por aqueles que estão ali, ao nosso redor, bem na frente dos nossos olhos, gritando por ajuda, por uma mão amiga ou uma simples palavra de conforto.

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Por mais amor em nossas relações sociais, devemos primeiro definir o que entendemos por relações. Aquilo que mantenho com meu vizinho não é uma relação social, mas tão somente uma casualidade. Somos vizinhos, respeitamos um ao outro como tal, e nada além disso. Talvez ele tenha um ataque cardíaco, fique internado, se recupere, volte a sua casa depois de vários dias, e eu nem fique sabendo disso. Talvez ele morra, e eu só saiba disso porque a ambulância veio socorrê-lo mas acabou chegando tarde demais para salvá-lo – caso contrário poderia não me dar conta de sua ausência prolongada e não perguntar por ele à sua esposa, ao cruzar seu caminho pela calçada e educadamente desejar-lhe um bom dia.

Somente quando entendermos que, para mudar o mundo, precisamos fazê-lo um passo de cada vez, mudando nossos relacionamentos dentro de casa, depois com nossos vizinhos e colegas de trabalho (ou de classe), poderemos realmente começar a pensar em algo maior. Ninguém é capaz de resolver os problemas do mundo através de empatia fabricada ou doações materiais pontuais, seja uma pequena esmola, seja uma doação de quantias elevadas de recursos arrecadados pelos empregados da sua empresa, em uma campanha que fez todo mundo se sentir energizado e super de bem com a vida, com aquela sensação de boa ação cumprida.

Quer maior segurança na sua rua? Conheça cada um de seus vizinhos, ajude a criar uma comissão de bairro ou de quarteirão e institua um programa de vigilância comunitária.

Quer uma vida mais saudável para as crianças e adolescentes de sua comunidade? Lute por áreas públicas e participe ativamente das áreas que venham a ser criadas. Uma praça vazia logo será ocupada por vândalos e deixará de ser um local seguro. Uma praça ativamente frequentada e conservada pela comunidade tem mais chances de permanecer segura por mais tempo.

Quer ajudar aquela criança lavando pára-brisa ou aquele homem vendendo balas no semáforo? Não dê dinheiro, de atenção genuína! Entenda porque a criança está ali – quando deveria estar na escola – ou o que aquele homem fazia antes de ir parar nos semáforos, vendendo balas para ter como pagar as contas. Veja como você pode ajudar, se realmente quer ajudar. E se ninguém der dinheiro, não vai ter ninguém pedindo, e assim fica mais fácil ajudá-los a achar outros caminhos, outra saída.

Quer ajudar idosos? Que tal começar conhecendo aqueles que moram perto da sua casa, entendendo qual a carência deles e como você pode ajudar a supri-las? E que tal ser gentil e ceder lugar no banco do ônibus ou metrô, deixar um idoso passar na sua frente em uma fila de caixa – se não houver caixa preferencial – ou ajudá-lo a subir uma escada, carregar algo pesado ou qualquer que seja o problema que está ali na sua cara, pedindo por uma mãozinha?

Quer ajudar vítimas de tragédias? Entre em contato com entidades sérias, veja o que mais se necessita no momento, e se tiver disponibilidade de tempo, veja como pode ajudar “pondo a mão na massa”. Coordenar a separação de doações recebidas, por exemplo, é uma tarefa que demanda número incontável de voluntários!

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Participe da vida de sua comunidade, desenvolva interesse genuíno pelas pessoas, dê menos esmola e mais atenção e calor humano, e assim você estará criando um mundo melhor. E quanto a mim, vou começar conhecendo melhor meus vizinhos.

Andre L Braga é coach profissional com certificação internacional pelo Instituto Holos, embora não exerça tal função. Atua em finanças em uma multinacional de bens de consumo. Foi preciso no uso do pronome em primeira pessoa do singular no início do texto – ele é bastante reservado e possui um pequeno e seleto número de amigos. Já a sua esposa… essa é um animal sociável, e vive diariamente o que ele, o autor, sugere no seu texto. Se ele hoje tem consciência disso tudo, foi por observar o maravilhoso exemplo de sua bela esposa!

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