Por um mundo virtual com mais amor

Esta série de artigos veio para mostrar que, ao incorporarmos simples hábitos ao nosso dia-a-dia, podemos contribuir para a construção de um mundo melhor. Neste ultimo texto da série, mostramos que podemos criar relações verdadeiramente construtivas no mundo virtual.

“Se o que queres contar-me não é verdadeiro, nem bom, nem necessário, então é melhor que o guardes apenas para ti.”

As três Peneiras: Verdade, Bondade e Necessidade (texto atribuído ao filósofo Sócrates)

Início dos anos 80. Tinha uns 10 anos de idade e morava em um bairro de periferia, na jovem cidade de Marilia, interior de São Paulo. Poucas eram as casas que tinham campainha naquela época – a gente batia palmas ou chamava o nome dos amigos, gritando ali do portão: “Ô TI-AAA-GÔÔÔ!!!“. Mas tinha uma ou outra casa com campainha. E um velho ranzinza ou uma senhora muito brava lá dentro. E um bando de moleques que, como eu, adorava apertá-la e sair correndo. Era nossa versão pré-internet da trolagem. E a zoeira não tinha limites…

Até que um dia este troll mirim, junto com outros dois colegas da 6a série, mataram aula, compraram uma bomba triângulo – alguém aí se lembra dessas “belezinhas”? – e decidiram partir pra trolagem pra valer! E ali se foram alguns picolés, e meus pais foram chamados para uma agradável conversa com o diretor da escola, e fui convidado a mudar-me da E.E.P.G. Gabriel Monteiro da Silva, de volta ao T.A.G., onde estudei na 4a série.

Mas sabe o quê? Tinha apenas 12 anos, fiz mer** e entendi muito bem a gravidade daquilo que tinha feito. Ninguém se machucou, mas poderia. Meu pai tinha condições financeiras de bancar o prejuízo do vendedor de picolés, mas nem por isso fiz pouco-caso da situação. Entendi que aquilo estava errado, mas muito errado mesmo, e para isso não foi preciso nenhuma “chinelada” ou “cintada” ou qualquer outra forma de correção física. Meu pai tinha uma força no olhar, daquelas de deixar claro que algo não estava certo e que não deveria se repetir. E aquele olhar bastou para entender que não deveria fazê-lo de novo. Simples assim.

Trinta anos mais tarde, e o que vemos é uma internet dominada por trolls, de todas as espécies, passando os dias a apertar a campainha da casa do velho ranzinza, da senhora muito brava, da menina gorda, do menino frutinha, da vegana evangelizadora, das crentes de fundilhos aquecidos, daquele que “tinha que ser preto mesmo”, daquela que “é uma puta mesmo”, daqueles vídeos da travesti sendo espancada no meio da rua e as pessoas filmando pra postar no Facebook, daquela novinha sendo estuprada e a galera filmando pra mandar no “Zap”

A internet virou zona de ninguém, onde tudo é liberado – sob falso discurso de liberdade de expressão e aquela estúpida certeza de impunidade que o anonimato nos trás – e todos escancaram seus instintos mais animalescos, seja de cara limpa, seja por trás de pseudônimos e perfis falsos do Instagram.

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“Mas peraí, eu vejo e compartilho o que eu quiser, vê quem quer e ninguém tem nada a ver com isso!” – desde que o que você vê não tenha sido produzido a partir do sofrimento de alguém, ou que não denigra a imagem de ninguém, ou que não incite violência ou alimente preconceitos. Difícil isso, né?

Vídeos proibidos ou de conteúdo inapropriado só se proliferam na internet porque existe público para eles. Somos os consumidores do vídeo dos garotos que dão uma surra gratuita em outro qualquer que passava pela rua, só pelo prazer do prank e dos likes e dos compartilhamentos, que mostram a popularidade que aquele ato covarde rende aos agressores. Somos repassadores daquele vídeo proibido da garota estuprada por cinco ou seis, enquanto estava “chapada”, que recebemos de um conhecido no WhatsApp. Somos os que participamos do jogo da baleia azul, ou que não nos damos conta que nossos filhos entraram nessa roleta russa. Somos os que compartilham notícias claramente falsas, mas que suportam nossos pontos-de-vista e assim merecem ser repassadas. Somos os que defendem o medicamento milagroso que não passou pelos protocolos de validação científica. Somos os que transmitem ao vivo a ação corajosa de libertação de pobres animais usados em pesquisa científica, ainda que tais animais fossem a resposta para a cura de certas doenças. Somos aqueles que declaramos ódio aos humanos que não são tão apaixonamos como somos pelos animais, que gostamos mais de bicho que de gente. Somos os que entram no site sobre veganismo e postamos uma foto de um bacon. Somos os que entram no post com a receita de um hambúrguer de picanha e compartilhamos a foto de um bezerro sendo abatido e um discurso inflamado de proteção aos animais. Somos os que entram na página da Parada Gay e destilamos nosso ódio aos homossexuais. Somos os que entram na página do Ministério da Saúde, no link de esclarecimento e orientação sobre Zika e microencefalia, e mandamos um “fora Dilma, fora PT, prisão ao molusco” – nos esquecendo que quem entrou ali foi para se orientar sobre o problema, não para caçar e executar (supostos) culpados.

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Difícil ler essas frases começando com “somos”, não é mesmo? Principalmente quando a gente lê e pensa que já fez uma ou outra coisa parecida. E sabemos que isso não foi legal. E sabemos que podemos mudar, basta querer. Ninguém precisa se anular, deixar de pensar que é melhor para si mesmo ser ateu ou crente, vegano ou carnívoro, homo ou hetero, desta ou daquela etnia, deste ou daquele partido político, deste ou daquele time de futebol. Basta não cair na tentação de provocar ao outro, sob a proteção da zoeira que não tem limites. Ela tem limites sim. Sua liberdade acaba quando invade o espaço alheio. Quando sua diversão resulta ou advém da ofensa ou agressão aos outros. Quando sua diversão só é divertida para você e seus iguais, e para mais ninguém. Quando sua diversão poderia ser classificada como patológica por algum psicólogo – ou um leigo com um pouco mais de bom-senso que você. Quando sua zoeira, na verdade, é crime.

Da próxima vez que pensar que a zoeira não tem limites, pense se aquilo que lhe parece engraçado passaria pelas peneiras da verdade, da bondade e da necessidade. Se não passaria, é porque está na hora de crescer, deixar a trolagem de lado e ir tomar um sorvete no parque, sem nenhuma bomba triângulo para soltar, sem nenhuma campainha para apertar. E sem sair correndo, se escondendo atrás daquele perfil falso – que, por sinal, você poderia fazer um favor a si mesmo e a humanidade em geral e apagá-lo, que tal?

Andre L Braga é coach profissional com certificação internacional pelo Instituto Holos, embora não exerça tal função. Atua em finanças em uma multinacional de bens de consumo. Come carne, é heterossexual, vem de família católica, é branco, de classe média, e votou no Fernando Henrique. Nem por isso acha – ou sequer teria o direito de achar – que ser vegano não é normal, que homossexualidade é doença, que ateus arderão no fogo do inferno, que quotas raciais e Bolsa Família são o câncer da sociedade, e que petista é bandido. Espera, da mesma forma, não ser tratado como branco-elitista-reacionário-careta-coxinha-câncer-da-sociedade-trabalhadora, porque isso seria apenas mais uma forma ignorante de trolagem.

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