Uma pausa

Texto de Joelma Martucci Gonçalves.

Vocês já devem ter se deparado com aquela frase típica de quando a gente sai de viagem, fica um tempão fora, e inevitavelmente acaba dizendo “não vejo a hora de voltar pra casa!” Ela é real, eu a vivi na pele e vou contar pra vocês agora.

Sou profissional da área de finanças há quase vinte e cinco anos. Comecei em 1993 como auditora em uma Big Four (na época Big Five) e de lá pra cá sempre desenhei uma carreira de sucesso. E ainda casei e por causa de uma oportunidade de carreira pra ele, fomos morar na Cidade do México. Lá, fiz amigos que me trataram tão bem que se tornaram meus amigos pra sempre. Cinco anos depois, já divorciada, veio a oportunidade de voltar e com emprego – novamente o trabalho ditando os rumos da minha vida – e embora não estivesse nos meus planos, a volta pra casa era um pensamento que residia ali na minha mente, provavelmente em algum lugar entre o pensamento mais íntimo e atrás da orelha.

Readaptar-me não foi fácil! Meus amigos, que antes eram solteiros ou recém-casados quando eu fui, agora tinham filhos e mil afazeres inclusive de final de semana; no time for me, eu me sentia muito sozinha estando na minha própria casa. E o custo de vida? Absurdo! Até mesmo o trânsito que se no México é um  horror, aqui não andava muito simpático não. O período de readaptação demorou uns dois anos e meio pra passar. Sentia saudade de lá, me perguntava “o que foi que eu fiz da minha vida?”, chorava. Até que eu comecei a enxergar as muitas vantagens em estar de volta. Volta por cima, cheguei a emagrecer quinze quilos! Eu estava feliz. Mais feliz ainda quando meu irmão casou e duas semanas depois anunciou que seria pai.

O trabalho ia bem, foram quatro anos de muitos resultados obtidos. E quando eu menos esperava – parecia ironia do destino – eu recebi uma promoção… e uma proposta para trabalhar e morar no México com contrato de trabalho local. No, man… no way!

Eu não tinha a menor vontade de fazer as malas outra vez, abandonar todos os cursos e atividades que eu tinha começado aqui, receber em moeda estrangeira, me submeter novamente a uma política diferente de férias e descansos e pagar caríssimo numa passagem pra passar o natal com a família uma vez por ano… e principalmente deixar de ver meu sobrinho engatinhar, andar, sorrir, falar, brincar ou ficar longe dos meus pais dez anos mais velhos que da última vez que eu fui. Minha família não pode mais me esperar. Eu bem que tentei e comecei a viajar, vi e revi todos meus amigos de lá, viajei de novo pra Cancun, mas não conseguia esconder de ninguém que eu não estava mais feliz. Não havia sentido em querer reviver uma vida passada; diferente da vez anterior em que eu encarei tudo com emoção, dessa vez eu estava só cumprindo uma obrigação. E quando chegou a hora de ir de vez… eu fiquei.

Engana-se quem diz que felicidade não tem preço; tem sim. Cada dia com mais tempo pra mim e pras coisas e pessoas com as quais eu me importo são dias sem trabalho e sem remuneração. Mas quando a gente abre mão de valores essenciais pra vida, o pedágio a se pagar também é caro. Com todo respeito a quem pensa e age diferente, eventualmente com histórias e prioridades de vida distintas da minha, era hora de dar uma pausa no currículo de trabalho e escrever esse capítulo no meu currículo de vida.

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