Desejo, o que é desejo?

Esta série de textos é sobre desejos e seu poder de promoção ou de auto-sabotagem. Neste primeiro texto da série, abordamos a ingrata tarefa de tentar definir “desejo”, um sentimento tão complexo quanto nossa própria existência.

“É erro vulgar confundir o desejar com o querer. O desejo mede os obstáculos; a vontade vence-os.”

Alexandre Herculano

Segundo o budismo de Nichiren Daishonin, cada indivíduo carrega consigo dez estados de vida, conhecidos como “Os Dez Mundos”. Esses mundos são todos inerentes à vida e, de forma bastante simplificada, podemos dizer que um mesmo indivíduo pode vivenciar um estado de vida de sofrimento e, posteriormente, vivenciar uma condição de plena felicidade. O segundo dos dez mundos é o “mundo dos espíritos famintos”, uma condição de vida caracterizada pela obsessão de realizar os desejos e pela incapacidade de satisfazê-los.

Desejos possuem duas faces, uma do bem e outra do mal. Um indivíduo não poderia sobreviver se não houvesse o desejo por alimentação. Espécies estariam extintas não fosse o desejo sexual. Há diversas situações em que o desejo promove o progresso e o desenvolvimento das pessoas. Mas se um indivíduo nunca se sente saciado, se não consegue direcionar seus desejos rumo ao próprio desenvolvimento, acaba se tornando escravo desses mesmos desejos, causando sofrimento a si mesmo.

Saindo do budismo para algo mais científico, o psicólogo Murillo Rodrigues define o desejo como uma força “moldada segundo as necessidades reais e fabricadas pelas condições sociais e culturais”.

“O desejo é insaciável, ele nunca se farta após alcançar o seu objetivo. Ele não é uma coisa em si, ou uma substância, mas uma força que movimenta o homem. Tão mais ele deseja, mais ele quer desejar. Logo, a finalidade do desejo não é o objeto, mas sim o próprio ato de desejar, pois quanto mais cheio de vontades, mais incontrolável será o homem. E esta falta de controle é o que o homem, nos seus mais íntimos instintos, busca: a liberdade. Mas esta que, quando sem responsabilidades, se converte em libertinagem e aprisiona o homem em um ciclo de decepções e desilusões.”

(texto disponível em Minuto Psicologia)

Séculos separam Nichiren de Freud, Lorenz, Vigotski e Murillo Rodrigues, mas todos parecem concordar em algo: desejos podem ter consequências positivas ou negativas, dependendo das vontades que o indivíduo busca satisfazer, e como tais desejos se relacionam com suas reais necessidades e bem estar. O equilíbrio entre desejo e necessidade é o que diferencia um ser humano movido pela vontade de atingir um objetivo, ou pela ganância que faz com que desejos nunca sejam plenamente saciados.

“Desejo, necessidade, vontade.”

(Comida – Titãs)

A questão toda parece residir no intuito – o que está por trás de nossos desejos – e na força de vontade para buscar aquilo que se deseja.

Você quer muito aquele emprego? O que está fazendo para merecê-lo? Sim, merecê-lo, porque se sua ações não são saudáveis, você é mero escravo do seu desejo.

Você deseja muito aquela pessoa? Mesmo? E por quê? Se seu desejo é do tipo insaciável, logo se cansará daquele parceiro e buscará outro, e mais outro, em uma interminável sequência de encontros, conquistas e separações.

Você, assim como eu, escreve um blog? Pra quê? Pra quem? Profissionalmente ou de forma amadora? Busca uma “massagem de ego” através de likes e shares e comments, ou tem algum objetivo menos focado em seu insaciável “eu”?

Percebe? Tudo depende do quanto você quer algo (desejo), pra que você quer aquilo (motivação) e o que você faz para obtê-lo (ação). E como diz o poema de Victor Hugo, com uma pequena adaptação:

“Desejo, outrossim, que você tenha [aquilo que deseja]

E que pelo menos uma vez por ano

Coloque [seus objetos de desejo]

Na sua frente e diga ‘Isso é meu’,

Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.”

E assim deve ser com todos os seus desejos: que você seja capaz de dizer, sempre, em alto e bom tom, quem é o dono de quem.

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