Desejo de Liberdade

Esta série de textos é sobre desejos e seu poder de promoção ou de auto-sabotagem. Neste segundo texto, abordamos nossa incessante busca por liberdade, ainda que não saibamos ao certo o que isso realmente significa.

“O medo tocou a campainha. A coragem foi abrir a porta. E não encontrou ninguém.”

– George Koukis

Às vezes, minhas filhas devem me achar um verdadeiro mala-sem-alça, incapaz de conceder-lhes todos seus desejos. Devem achar que a mamãe é um ser incapaz de compreender seus desejos de cinco minutos a mais de televisão ou de mais uma barrinha de chocolate Bis antes de dormir. Devem desejar, nesses momentos de insatisfação, estar com vovô e vovó, porque eles, sim, dão a liberdade que elas tanto desejam. Mas a verdade é que, reclamando ou não, pergunte a elas o que sentem pela gente e não ouvirá outra resposta senão um alto e claro “Eu amo meus pais!” – exceto se a pergunta for naquele exato momento em que desligamos a TV e mandamos, pela sétima ou oitava vez, que elas subam imediatamente para o banho.

Liberdade tem limites. Você já deve ter ouvido isso diversas vezes na sua vida. Mas por quê? Qual o sentido de impor limites à nossa liberdade? Que ideia é essa de que devemos podar nosso desejo de liberdade e toda a felicidade que deveria vir junto?

O lance é que, ao permitirmos que a liberdade se torne um objeto de desejo, e associarmos nossa felicidade a sua conquista, estamos nos tornando escravos da liberdade que idealizamos. Se não definirmos quem manda em quem, se não formos capazes de mostrar que o desejo de liberdade, enquanto simples desejo, não exerce qualquer força libertadora a nosso favor, não poderemos ser plenamente felizes com essa tão almejada liberdade.

“Foi como se um lindo pássaro batesse suas asas

para dentro de nossas jaulas sombrias

e fizesse estes muros se dissolverem …

… e pelo mais breve dos momentos …

… cada um, até o último dos homens em Shawshank sentiu-se livre”

Trecho do filme “Um sonho de liberdade

Adoro escrever para este blog, um texto por semana, e compartilhar minhas ideias. Adoro garimpar artigos de outros autores, vídeos e imagens associadas ao tema que estiver abordando naquela semana. Adoro quando há interação entre material publicado e leitores. Mas não tenho nada disso como profissão. Blog, página no Facebook, Instagram, tudo isso é uma espécie de “hobby”, se quiser rotulá-lo dessa maneira, ou então uma forma de sentir-me mais próximo das pessoas e do país que deixei para trás há quase sete anos, como prefiro enxergar este espaço. Esse propósito único me dá liberdade para criar, para abordar assuntos que estejam alinhados com minhas experiências pessoais, acerca dos quais me sinta minimamente preparado para tecer comentários que estimulem auto-questionamento e debate. Isso pressupõe ausência de censuras, ausência de agendas ocultas – como disseminar uma ideologia partidária, defender uma determinada empresa ou indústria, ou tentar vender produtos e serviços.

A meu ver, liberdade criativa pressupõe que o prazer de criar vem em primeiro plano, e eventuais lucros decorrentes dessa criação – o que não é nenhum crime, diga-se de passagem – nunca devem sobrepor-se à liberdade de expressão do artista. Muitos artistas perdem o “tesão” pelo seu trabalho, o “mojo” criativo que os diferencia e os fazem únicos, por conta de censuras e direcionamentos de conteúdo impostos pela indústria, pelos empresários, pelo lucro como meta central. Estes já não são mais livres para criar, pois sua arte passa a ser guiada por fatores puramente comerciais. Liberdade criativa pressupõe alinhamento de propósitos, fazer algo que traga aquela sensação de “Uau!” a seu criador, tal qual a famosa “Parla!” de Michelângelo. E o mesmo vale para qualquer profissional, atuando em qualquer mercado.

E por falar em lucro, devemos ter em mente que a tão sonhada liberdade financeira não pode se transformar em supervalorização do dinheiro, fazendo com que ele – o dinheiro – se torne o tema central de sua vida, mas também não deve seguir em direção ao outro extremo, que é o do consumismo descontrolado. Viver unicamente para acumular riquezas, ou viver para mostrar o quanto se tem, ambas são formas de vida em que o dinheiro assumiu, de forma indevida, o papel principal.

Liberdade sexual não pode se transformar em uma interminável busca por variedade de parceiros e experiências sexuais, na qual o real prazer está não na qualidade, mas sim na quantidade e variedade. É como tentar comparar o prazer de saborear um prato delicioso, preparado do jeitinho que gostamos, ou então de forma intrigante, exótica e que envolve todos os nossos sentidos, com a quantidade e variedade de comida que podemos devorar em um típico restaurante por quilo, no qual somos capazes de misturar macarrão com feijoada, sushi, frango frito e bife à milanesa.

Por fim, existe a ilusão de liberdade do conto da formiga e da cigarra:

Enquanto a cigarra acreditava que vivia a vida em sua plenitude, desfrutando de uma liberdade que a formiga mal podia imaginar ser possível, a formiga sabia que liberdade e responsabilidade podem e devem caminhar juntas. Novamente, o segredo é que você, e não o objeto de sua tão sonhada liberdade, assuma papel central na sua vida.

Ao que tudo indica, só pode ser livre quem consegue não se tornar escravo de seu próprio desejo de liberdade. A liberdade está dentro da gente, não em alguma coisa física, em algum lugar lá fora. Então é melhor parar de procurar sua liberdade nas coisas, e descubra aquela liberdade que tanto espera ser libertada por você.

Andre L Braga é coach profissional com certificação internacional pelo Instituto Holos, embora não exerça tal função. Atua em finanças em uma multinacional de bens de consumo. Avisa, desde já, aos desavisados de plantão: a liberdade de atuação profissional tende a ser inversamente proporcional ao nível hierárquico ocupado. Em outras palavras, parafraseando o tio do Peter Parker, “Com o grande poder, vem a grande responsabilidade”.

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