Desejos 18+

Esta série de textos é sobre desejos e seu poder de promoção ou de auto-sabotagem. Neste quarto texto da série, abordamos aquele que parece ser a própria definição da palavra “desejo”, aquele que insiste em ser protagonista em nossa vida em sociedade: o desejo sexual.

“Sexo verbal não faz meu estilo.”

– Renato Russo

Vivemos a era da informação. Tudo está ali, disponível e acessível, na tela de nossos laptops, tablets e smartphones. Facebook nos aproxima das pessoas, algumas delas que não vemos há anos. WhatsApp nos mantém conectados com determinados grupos. E tem o Instagram, para colocarmos para fora nosso lado artístico-fotográfico, para mostrarmos ao mundo nosso lado poético, com toda a economia de palavras necessária para fazer nossa poesia caber naquela foto ou fundo padronizado, ou para fazermos piadas ou disseminarmos nossas mensagens por meio de memes virais. E tem o Snapchat, pr’aquele vídeo bobo com cara de bicho, ou pr’aquele nude que a gente se arrepende pro resto da vida. E o Tinder pr’aquele crush, encontros casuais na ponta dos nossos dedos e, porque não, talvez o encontro que mudará nossas vidas para sempre? E tem Amazon, tem Uber, tem Spotify, tem Netflix, tem entrega de pizza, tem sushi na porta de casa… Tudo rápido, todos os nossos desejos atendidos, na hora que a gente bem entender…

Isso tudo é prato cheio para o marketing. Velocidade de resposta, rapidez para atender nossos desejos, no momento em que vêm a nossa mente e antes que nosso super-ego seja capaz de censurá-los – isso é tudo o que o mercado mais deseja, e sexo é outro elemento poderoso para influenciar padrões de consumo.

Então, nessa mesma toada do tudo para ontem, e no que se trata de relacionamentos amorosos, nos tornamos cada vez mais imediatistas, cada vez mais voltados para o desejo e a paixão e menos interessados em saber o real significado do amor.

Li outro dia uma frase, acho que do Leandro Karnal, que era mais ou menos assim:

Desejo é o querer agora;

Paixão é o querer que espera, ansioso, pelo ter;

Amor é o querer para sempre.

Amamos aquela banda ou cantor. Amamos sorvete daquela marca importada. Amamos aquela foto daquele prato daquele restaurante, postada no Facebook. Amamos bicho mais que gente. Amamos aquele amigo virtual que nada sabemos além daquilo que está ali, visível na tela. Amamos aquela pose sexy daquela ex-BBB, acompanhada de uma frase provocante, postada no seu Instagram. Amamos beijar na boca, só pra ver quem beijou mais naquela balada. Amamos falar de sexo com estranhos, escrever sobre sexo, contar ao mundo nossas experiências reais ou fantasiosas, ter orgasmos solitários enquanto imaginamos como seria com aquele outro…

O outro? Não importa o outro. Não importa se bonito ou feio, novo ou velho, legal ou chato. Importa o que se fantasia em nossa mente, importa a situação criada em nossas fantasias. E por fim acabamos falando demais e fazendo de menos. Ou fazendo tudo de forma mecânica. Ou nunca nos satisfazendo com isso tudo, como se tudo fosse monótono e sempre houvesse alguma coisa nova a se tentar, porque a vida é curta demais para não se experimentar cada uma das posições do Kama Sutra.

O psicanalista inglês Adam Phillips, em entrevista à Revista Veja, fez o seguinte comentário sobre o interesse que o tema “sexo” traz consigo:

“Hoje todo mundo fala de sexo, mas ninguém diz nada interessante. É uma conversa estereotipada atrás da outra. Vemos exageros até com crianças, que aprendem danças sensuais e são expostas ao assunto muito cedo. Estamos cada vez mais infelizes e desesperados, com o estilo de vida que levamos.”

(texto disponível aqui)

Não estou aqui para pregar monogamia, relacionamentos monótonos e sem experimentação, sexo apenas para procriação, o fim da indústria pornográfica, censura aos livros e sites eróticos ou qualquer outra corrente supostamente puritana. Apenas lhe convido a pensar se você não dá importância demasiada ao tema. Há quem diga que “sexo é vida”; estou certo que, sem as devidas precauções, sexo pode gerar uma vida – o que é diferente de ser nossa razão de viver. Então por que insistimos em transformá-lo em assunto central em programas de TV, tópico favorito em redes sociais, tema recorrente naquele grupo do WhatsApp? É como se todos fôssemos PhDs no assunto, e aquilo que temos a dizer realmente fosse acrescentar algo à vida das pessoas.

A verdade é que transformamos sexo em tabu, e como tal, falar de sexo soa como transgressão, modernidade, afronta às barreiras que a sociedade nos impõe. Mas, ao invés de discutirmos como poderíamos ajudar a quebrar tabus, derrubar barreiras e preconceitos, preferimos o caminho mais fácil, compartilhando vídeos e fotos e textos para público adulto (ou 18+), que por diversas vezes contém os mesmo elementos estereotipados que poderíamos estar combatendo.

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Se você pediu a prisão – ou até mesmo o linchamento – daquele estuprador, mas se encantou com aquele livro ou filme em que a vítima de estupro se apaixona pelo seu algoz, e seu amor por ele o transformou no homem ideal. Se você se diz defensor dos direitos de crianças e adolescentes, mas fica buscando fotos e vídeos das “novinhas” na internet. Se você defende os direitos das mulheres, mas chama de “puta” aquela moça que saiu com seu parceiro, entendendo que foi ela quem seduziu seu homem, aquele ser eternamente apaixonado por você, mas que foi ludibriado por aquela “piranha”. Se você se cansou da liberdade sexual dos homens, e então decidiu descer ao mesmo nível, baixo, para dar-lhes o troco, para ensinar-lhes uma lição, para mostrar quem domina quem. Se você defende a causa LGBT, mas insiste em ver transsexuais como simples objetos sexuais, condenadas à prostituição por não terem espaço no mercado de trabalho. Então, caro leitor, lamento informar que você é escravo de seus desejos sexuais, não importa a máscara que decidiu colocar em sua foto de perfil nas redes sociais.

Fantasias sexuais podem ser saudáveis, imaginar situações que possam ser excitantes para você não significa que você queira transformá-las em realidade. A psicologia pode explicar isso tudo de forma mais apropriada, e nem por isso mais fácil de entender. A verdade é que nossa mente é livre para imaginar aquilo que ela quiser e que nos excite. O problema é quando nos tornamos escravos dessas fantasias. Quando não vemos a hora de poder encontrar nossos parceiros virtuais novamente. Quando deixamos de fazer algo importante porque aquele site de vídeos pornô pode ter uma nova variedade de sexo, que desafia os limites da mente e do corpo. Quando nos esquecemos que amar é o querer para sempre, ainda que um dia esse amor se acabe.

Desejo que cada um de nós seja capaz de viver a frase de abertura deste texto, reordenando-a de baixo para cima e adicionando algumas poucas palavras:

Amor é o querer para sempre;

Que acende a paixão, um querer que espera, ansioso, pelo ter;

Que alimenta o desejo, o querer agora;

E que perpetua o amor, este incompreendido, e muitas vezes negligenciado, querer para sempre.

Andre L Braga é coach profissional com certificação internacional pelo Instituto Holos, embora não exerça tal função. Atua em finanças em uma multinacional de bens de consumo. Cresceu ouvindo Legião Urbana, e do Renato Russo roubou mais este trecho de música: “Se lembra quando a gente pensou, um dia, acreditar que tudo era pra sempre, sem saber que o ‘pra sempre’ sempre acaba?” Pois que o amor dure para sempre, seja lá qual for sua duração.

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