Quando o desejo se torna patológico

Esta série de textos é sobre desejos e seu poder de promoção ou de auto-sabotagem. Neste texto, mostramos que desejos tem o poder de dominar nossas vidas – basta permitir que a busca por satisfazê-los seja obsessiva.

“Cuidado com aquilo que deseja. Você pode consegui-lo.”

– Dito Popular

Obsessão. Vício. Impulsos incontroláveis. Prazeres insaciáveis. Assim são os desejos, quando permitimos que cresçam descontroladamente dentro da gente, tomando espaço demais nas nossas vidas e governando nossas ações.

Quem não conhece alguém que perdeu a vida para jogos de azar? Ou para o álcool e outras drogas? Ou que perdeu o emprego por conta de um romance com alguém do trabalho? Ou que perdeu horas de sono em jogos online? Ou que deixou de estudar para aquela prova ou que não entregou aquele trabalho de pesquisa no prazo porque passou a madrugada pulando do Facebook para o Instagram e para o Snapchat e para o WhatsApp e para o Twitter e para o YouTube e para o Google para descobrir o significado daquela letra daquela música e dali de volta para o Facebook para postar o vídeo com comentários inteligentes sobre a letra, numa interminável maratona de likes e comments e shares?

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A medicina e a psicologia podem contestar a parte sobre álcool e drogas, ou até mesmo outros vícios como jogos de azar e o vício em redes sociais, dizendo que tais comportamentos são muito mais complexos que um simples desejo que saiu fora do controle. E que existem inúmeros fatores químico-biológicos e certos traumas que levam o indivíduo a tais condições clínicas, e que um tratamento adequado vai muito além de simples conselhos em um texto na internet, escrito por alguém que é leigo no assunto. E eu concordo plenamente.

Mas pare e reflita. Ninguém nasce alcoólatra. Ninguém nasce viciado em jogos de azar. Ninguém nasce viciado em internet – se bem que estamos contribuindo para que isso aconteça, ao deixar nossas crianças à mercê das babás eletrônicas conhecidas como smartphones e tablets. Ainda que existam pré-disposições para que certas pessoas sejam mais suscetíveis que outras a determinados vícios, a concretização do fato somente ocorre se houver exposição continuada ao agente viciante. Em outras palavras, para se tornar um dependente químico, é preciso o primeiro gole, o primeiro trago, o primeiro tiro. Para a dependência tecnológica, é preciso a primeira conta no Facebook, uma frustração ou outra na vida que possa ser aliviada através de vídeos fofinhos de filhotes de gatinhos ou de vídeos proibidos naquele blog do Tumblr.

Um homem sofreu ataque cardíaco aos 40 anos.

Conversando com seu médico, foi recomendado que parasse de beber, de fumar, de consumir alimentos gordurosos.

Que praticasse, diariamente, exercícios físicos de intensidade moderada.

Que não andasse mais de moto, por conta de fatores estressantes inerentes ao ato.

E que se abstivesse de atividades sexuais até que sua capacidade cardiorrespiratória atingisse um determinado nível mínimo de segurança.

E que assim viveria outros 40 anos, pelo menos.

E foi então que o paciente indagou a seu médico: “Mas para quê?”

Ninguém precisa deixar de viver para não cair nas sedutoras garras dos vícios. Ninguém precisa se abster de nada contra a própria vontade. Mas temos que deixar bem claro aos nossos objetos de desejo que a vontade, ela é nossa, e não deles. Que somos nós quem temos desejos e somos nós quem controlamos nossas vidas, e não o contrário. Não vivemos para satisfazer as vontades de nossos objetos de desejo. Quem manda nas nossas vidas somos nós, e não esses desejos incontroláveis que insistem em tomar as rédeas de nossa existência.

Deixe bem claro, sempre, quem manda em quem. Mas não caia na ilusão de que você tem o controle, pois demora a perceber quando a coisa não é bem assim. Não se iluda, meu caro. E se, por um acaso, um processo dolorido de desintoxicação seja necessário, procure ajuda qualificada. Não em textos e vídeos na internet, mas de profissionais especializados. Procure um médico. Procure um psicólogo. Um grupo de apoio, como AA ou NA ou qualquer que seja sua obsessão. Cuide-se, pois só quem vive uma relação abusiva entre indivíduo e seu próprio desejo é que sabe o quanto isso dói na alma. Do indivíduo e daqueles ao seu redor. Até o ponto que a dor seja insuportável, e aqueles que amamos desistam da gente, e aí então restará apenas o objeto de desejo e aquele pobre indivíduo que um dia teve controle sobre sua própria vida.

Andre L Braga é coach profissional com certificação internacional pelo Instituto Holos, embora não exerça tal função. Atua em finanças em uma multinacional de bens de consumo. Admira algumas pessoas muito, mas muito próximas, que enfrentaram seus demônios, na forma de desejos patológicos, e foram capazes de vencer a batalha, embora a guerra nunca se dê totalmente por vencida. Não menciona nomes aqui, mas sabe que cada um deles irá se identificar e que este texto de encerramento é em sua homenagem. Parabéns, força sempre, e que possam continuar firmes em suas batalhas diárias, um dia de cada vez.

Imagem: Chronicle News Network.

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