Um propósito para a vida

Esta nova série de textos aborda nossa incessante busca de um sentido para a vida. Neste primeiro texto, descrevemos o trabalho de Joseph Campbell, um antropólogo norte-americano que dedicou sua vida para entender por que estamos sempre em busca de um propósito para a nossa.

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“Dizem que o que procuramos é um sentido para a vida. Penso que o que procuramos são experiências que nos façam sentir que estamos vivos.” 

Joseph Campbell

Junho é um mês especial para mim. Meu aniversário cai em junho. O plano financeiro da empresa para a qual trabalho tem início em junho. O ano escolar aqui na Inglaterra termina em junho, muitas despedidas, muita gente se mudando para outros países, e essa história se repete todo ano na vida dos filhos de expatriados como eu. É a metade do ano que se foi, é quando paramos para avaliar o que conseguimos cumprir de nossas metas de ano-novo, o que ainda falta fazer e como transformar tais metas em realidade nos seis meses restantes.

Foi nesse mesmo mês de junho que assisti, quase que por acidente, ao documentário Finding Joe, que aborda o trabalho do antropólogo norte-americano Joseph John Campbell. Sua principal obra, a Jornada do Herói, é de tamanha profundidade e sabedoria que me inspirou a escrever esta nova série de textos, sobre a busca de um sentido para nossa existência.

“Pronto. Ouviu muito Raul Seixas e Legião Urbana, assistiu um documentário hipponga sobre mitologia, leu sobre o ET de Varginha, tomou um chazinho e agora quer convencer a gente de que vivemos num mundo virtual controlado por seres superiores.” – Calma, não é nada disso! A proposta aqui é muito mais pé-no-chão.

E se eu te disser que a humanidade sempre esteve em busca de um sentido para a vida? Que todos queremos encontrar um propósito para nossa existência? E que todas as histórias que contamos seguem exatamente a mesma narrativa do herói que se depara com um desafio gigante, enfrenta seus medos e embarca em uma odisséia recheada de batalhas mortais? E que, se for forte o bastante para sobreviver a tais batalhas, retornará às suas origens e compartilhará seus feitos com seu povo? E que é exatamente essa a dinâmica da história de vida que buscamos para nós mesmos?

Pense em um livro ou filme que lhe agrada. O Senhor dos Anéis? Harry Potter? Crepúsculo? Cinquenta Tons de Cinza? Star Wars? Matrix? O Novo Testamento? O que todos esses livros, alguns deles tão diferentes quanto Cinquenta Tons de Cinza e Star Wars, têm em comum? Todos seguem a mesma dinâmica, a mesma forma de contar histórias, ainda que abordando personagens e transmitindo mensagens completamente diferentes umas das outras. Todas seguem a mesma jornada do herói, descrita por Campbell. Porque todas são a mesma história da humanidade em busca de um sentido para sua existência. São as histórias de cada um de nós.

Não acredita? Acha ridículo comparar as aventuras sexuais de Cinquenta Tons com a saga de Star Wars, por exemplo? Claro que a mensagem e o contexto são totalmente distintos, mas o desenvolvimento dessas duas histórias é exatamente o mesmo.

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Cinquenta Tons: Ana é uma mulher bonita, inteligente e inexperiente no tocante ao amor. Christian é um jovem bem-sucedido, sedutor e com estranhas preferências sexuais. Embarcam em um intenso e sensual caso de amor, com uma boa carga de abusos por parte de Christian. Ana descobre sua sexualidade e alguns segredos do passado sombrio de Christian. Ela mostra que pode haver amor em uma relação, ele se apaixona verdadeiramente e aceita viver o amor sob a ótica de Ana, libertando-se do sadomasoquismo.

Star Wars: Anakin é descoberto e treinado pelos Jedis, acreditando-se ser o escolhido para trazer equilíbrio à Força e destruir os Sith. Deixa para trás sua mãe e segue seu destino. O medo é seu principal inimigo. Mais tarde, retorna à casa e descobre que sua mãe foi assassinada. Casa-se secretamente com Padmé, a qual se tornará mãe de seu filho. Por temer que Padmé venha a falecer durante o parto, acaba sucumbindo ao lado negro da força. Muda de nome, agora Darth Vader. Por fim, morre nos braços de seu filho, Luke, que então é oficialmente nomeado Jedi.

São contextos totalmente diferentes, mas a dinâmica da narrativa é exatamente a mesma!

Existe um chamado, algo que tira o personagem principal de sua zona de conforto. Ana é seduzida por Christian, chamada a abandonar sua inexperiência sexual. Anakin é chamado pela Força para desenvolver-se como Jedi.

Depois vem o medo. Ana se depara com a violência sadomasoquista de Christian. Anakin enfrenta a morte da mãe e teme a morte de Padmé durante o parto.

Cinquenta Tons encontra sua apoteose quando Ana descobre sua sexualidade e alguns detalhes sombrios sobre o passado de Christian, libertando-se então do ciclo de abusos cometidos por ele. Star Wars tem seu ponto máximo quando Anakin morre nos braços de seu filho, Luke, e confirma a profecia do “escolhido”.

Tanto Ana quanto Luke retornam às suas origens. Ana, uma mulher que acredita no amor e traz Christian para sua forma de viver uma relação sem abusos. Luke, um Jedi que venceu o lado negro da força, personificado na figura de seu próprio pai.

O chamado. O medo. O enfrentar do medo que nos leva ao ponto alto da história. A vitória e o voltar às origens para compartilhar nossas aventuras e aprendizados com nossos próximos. Não seria essa nossa luta diária? Não seria essa nossa própria história? Não é isso que dá sentido às nossas vidas?

“A vida não tem sentido. Cada um de nós tem um sentido e o trazemos à vida. É um desperdício fazer a pergunta quando você é a resposta.”

– Joseph Campbell

Atender a um chamado. Encarar nossos medos de frente. Vencer nossos desafios e voltar às nossas origens, trazendo algo de volta a nossos entes queridos, a nossa comunidade, a toda humanidade. Isso é o que está em todas histórias que contamos. Isso é o que está em nossas histórias de vida. É aí que está o verdadeiro sentido de nossa existência.

Já se somam 45 junhos em minha vida. Nesses anos todos, foram inúmeras odisséias, inúmeros chamados atendidos e medos confrontados e vitórias obtidas. E mais um número imenso de batalhas perdidas, nem por isso menos importantes. Tudo se soma a história de minha vida. Tudo é parte de minha aventura aqui na terra. E é isso que dá sentido à minha existência.

Andre L Braga é coach profissional com certificação internacional pelo Instituto Holos, embora não exerça tal função. Atua em finanças em uma multinacional de bens de consumo. Esta série de textos foi inspirada na obra “Jornada do Herói”, do antropólogo norte-americano Joseph John Campbell, e no documentário “Finding Joe”, produzido e dirigido por Patrick Sakaya Salomon.

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