Liberte-se de seu passado

Esta série de textos aborda nossa incessante busca de um sentido para a vida. Neste texto, mostramos por que libertar-se do passado que nos aprisiona é essencial para vivermos a vida que buscamos.

“Precisamos estar dispostos a nos livrar da vida que planejamos, para podermos viver a vida que nos espera. A pele velha tem que cair para que uma nova possa nascer.” 

– Joseph Campbell

Parece frase batida. A gente tem que se libertar do passado para viver o presente e construir o futuro. Mas é a mais pura verdade. E é por isso mesmo que tanta gente repete essa mesma frase, o tempo todo, em tantos textos postados na internet.

Quem faz (ou fez) terapia, sabe. Tem um montão de coisa perdida lá na nossa memória, e esse passado fica rodeando a gente, e se não decidirmos o que vamos fazer com essa carga toda que nos rodeia, acabamos aprisionados pelos traumas do passado. Talvez tenha a ver com recalque – não aquele da música do beijinho no ombro, mas o da psicologia – que nada mais é do que uma defesa automática e inconsciente de nossa mente, que repele do nosso consciente as ideias que são penosas ou perigosas, mas não necessariamente encontra uma solução para o problema em questão. Em outras palavras, é algo que fica lá, meio que hibernando, mas que vez ou outra faz questão de dar as caras.

beijinho-no-ombro

 

Tem tanta coisa que acontece na nossa vida e que a gente deixa pra traz, não é mesmo? Quantas vezes nos pegamos dizendo ou pensando: “Ah! Se arrependimento matasse!” – e ele mata! Quando a gente deixa, o arrependimento, a culpa, os traumas do passado vão nos matando aos poucos, minando nossas energias, sabotando nossas ações, fazendo com que a gente repita os mesmos erros, julgue os outros por conta daquilo que mais detestamos em nós mesmos, tenha medo de seguir em frente por acreditar que os resultados serão catastróficos, e assim por diante. Precisamos “passar a régua” e seguir em frente, e isso implica em desistir daquilo que nos traz conforto, mas empaca nossas vidas.

“Estamos tão envolvidos em fazer coisas para alcançar metas de valor exterior que nos esquecemos que o valor interior, o êxtase que está associado com estar vivo, é o que importa.”

– Joseph Campbell

Passei 10 anos de minha vida profissional com o sonho de me tornar sócio de uma firma de auditoria. Insanas jornadas de trabalho, pouquíssimo tempo para família e amigos, tudo por conta de um sonho. Até que a empresa quebrou, mudei de firma e esse sonho foi gradualmente murchando, até que decidi deixá-lo de vez para trás.

Nova empresa, e com ela o desafio da expatriação, que abraçamos, eu e minha família, em 2011. Logo depois, uma reestruturação organizacional , uma proposta de relocação internacional que não se enquadrava nos nossos planos, e a busca por um novo emprego, em um novo país.

Menos de dois anos mais tarde, a volta a empresa anterior…

Uma vida em constante mudança. Fisicamente falando, mas também no tocante ao fator pessoal. Crescemos e evoluímos. Criamos e recriamos versões melhoradas de nós mesmos. Eu 2.0. E depois 3.0. Já estou na versão 4.4, mas não sei quantas versões intermediárias foram oficialmente lançadas nesse tempo todo.

Poderia me perguntar: “Se não tivesse trocado minha vida de auditor por finanças corporativas, hoje seria sócio de uma Big 4, que foi meu sonho por mais de uma década?” Ou então: “E se tivesse ido para Cingapura? E se não tivesse ido para Genebra? E se não tivesse voltado para a Inglaterra? E se…?” – e nada disso adiantaria para nada, porque não foram esses caminhos do “e se” que decidi seguir. Se o “e se” insiste em rodear minha mente, é porque ainda estou preso na ilusão daquele passado que simplesmente não volta mais.

Dois monges caminhavam por uma estrada, sob forte chuva, quando viram uma mulher tentando atravessá-la, sem poder fazê-lo, por conta da forte enxurrada. O monge mais velho então a tomou nos braços e levou-a de um lado ao outro da estrada. Chegando ao templo, o jovem monge perguntou ao mestre: “Como pôde carregar aquela mulher nos braços? Nós, monges, não podemos ter contato físico com mulheres!” – e foi então que seu mestre respondeu: “Eu a tomei nos braços e deixei-a do outro lado da estrada; por que você ainda a está carregando?”

Cada um desses momentos foram antecedidos de uma dura decisão que tive que tomar, ou de uma realidade que tive que aceitar. Foram momentos em que tive que decidir deixar minha pele velha cair, para então permitir que uma nova pele pudesse nascer.

Libertar-se do passado pode ser algo tão complexo como deixar para trás tudo aquilo que te machuca, tudo aquilo que te magoa, tudo aquilo que não faz bem, assim como sair de sua zona de conforto, abandonar o comodismo e ter a coragem de encarar o novo, se aquele novo é capaz de te dizer, bem lá no fundo de sua alma, que sua nova versão de si mesmo estará mais alinhada com aquilo que você acredita ser a mais perfeita tradução de “estar vivo”.

Andre L Braga é coach profissional com certificação internacional pelo Instituto Holos, embora não exerça tal função. Atua em finanças em uma multinacional de bens de consumo. Tem um passado mal resolvido em sua trajetória: “banda de rock”. Ainda não aconteceu, mas vai. E enquanto isso não acontece, seguimos com nossas cantorias de finais de semana, e aquele repertório no qual “Camila, Camila” e “I Will Survive” não podem faltar.

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