Ninguém precisa de título para liderar

Esta série de textos semanais, inspirada no livro “A Agenda”, de Michael Hammer, propõe formas de nos destacarmos em tudo aquilo que fazemos. Neste texto, mostramos que liderar não tem nada a ver com hierarquia.

“Para ser um líder, você tem que fazer as pessoas quererem te seguir, e ninguém quer seguir alguém que não sabe onde está indo.” 

– Joe Namath

Quando escolhi o título deste texto, logo imaginei a piada pronta que entreguei aos meus amigos:

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Deixando a piada de lado e fazendo uma reflexão sobre empresas, pense em alguém que te inspira a fazer aquele algo a mais, dar aquele passo extra, entregar aquilo que parecia impossível. Pode ser que você chame essa pessoa de chefe, mas também é possível que seja um colega do mesmo setor, um gerente de uma outra área que não a sua, ou até mesmo alguém que não trabalha contigo, mas que compartilha histórias inspiradoras. Tal reflexão ajuda a derrubar um primeiro mito: o de que liderança depende de atribuições de cargo. Não. Definitivamente não. Ninguém precisa de título para ser líder. E título nenhum pode conceder ao indivíduo o poder de liderar. Como disse Napoleão Bonaparte, “Um líder é um vendedor de esperança.”

Isso leva a um segundo ponto: ninguém precisa ser líder o tempo todo – e muito provavelmente não o será. Pense na estrutura matricial das grandes corporações. Vários setores se entrelaçam e formam aquilo que conhecemos como empresa. E diversas interações pontuais entre setores são necessárias à condução dos negócios, como em projetos de desenvolvimento de novos produtos, quando engenharia, manufatura, compras, marketing, vendas e finanças formam uma equipe multidisciplinar para endereçar todas as necessidades específicas do projeto. Nesses casos, podemos adotar duas formas distintas de interação interdepartamental: atuação por etapas ou formação de equipes virtuais.

No primeiro caso, cada departamento atua isoladamente, um por vez, e a liderança se dá por etapa. Não há um líder do projeto, ainda que haja um gerente responsável pelo todo. O que temos são áreas seguindo o comando de seus gerentes, na execução de sua parte do todo, e apenas aquela parte importa àquela área, naquele momento.

Já no segundo caso, um líder da equipe virtual irá garantir que todos compreendam a missão daquele time, o que querem alcançar com o trabalho em conjunto, e o que se espera de cada um de seus membros. Veja que o verdadeiro líder da equipe virtual pode não ser o líder que foi assim nomeado pela empresa, mas alguém que decidiu tomar a liderança, arregaçando as mangas e pondo a mão na massa, foi aceito pela equipe como tal e inspira cada membro a fazer o melhor possível para que a meta coletiva seja atingida.

Muita teoria sobre gestão de equipes? Que tal voltarmos então para o mundo dos esportes? Não, nada de “Palmeiras não tem mundial”… Vamos falar de vôlei…

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Jogos Olímpicos de Barcelona, 1992. Nomes como Mauricio, Paulão, Giovane, Marcelo Negrão e Tande – os cinco da foto aí em cima – conduziram a seleção masculina de vôlei ao ouro olímpico, vencendo a final contra a Holanda por três sets a zero. O ponto da vitória veio de um saque bombástico de Marcelo Negrão, mas a medalha foi construída por conta da versatilidade de cada um dos jogadores, que tinham Carlão como capitão da equipe.

O técnico era José Roberto Guimarães, um técnico inexperiente, substituindo o renomado Bebeto. Sua proposta de trabalho era ousada, de início cercada de descrédito, mas que se provou crucial para a vitória. Aproveitando-se da versatilidade do elenco, Zé Roberto apostou em constantes mudanças táticas. E com essa imprevisibilidade imposta aos oponentes, a seleção brasileira chegou ao primeiro lugar no pódio.

“Liderança é ação, e não posição.”

– Donald McGannon

Agora te pergunto: quem era o líder da seleção brasileira de vôlei masculino nos jogos olímpicos de Barcelona? Arriscaria dizer que depende. Depende do momento. Porque aquele era um time versátil, no qual cada jogador apoiava o outro e trazia o time de forma coesa, com foco no objetivo traçado pelo técnico. Existe grande mérito na estratégia desenhada por Zé Roberto, e em sua capacidade de trazer o elenco para sua visão. Nesse sentido, podemos dizer que ele foi um líder. Mas dentro da quadra, os líderes se revezavam, assim como as disposições físicas a cada rodízio. Em uma equipe de vôlei, não pode existir essa coisa de “este é meu papel, aquele é seu papel, aí é seu metro quadrado de quadra e você é o único responsável pelo que acontece nesse espaço”. Não, não é assim. Existem funções e espaços pré-determinados, mas cada jogador apoia ao outro, sempre com os objetivos coletivos do time sobrepondo-se ao indivíduo.

Assim deve ser nas empresas. Liderança deve ser conquistada, não imposta. Não tem nada a ver com título ou hierarquia. Não pode ser isolada em um departamento ou servir aos objetivos de um indivíduo, função ou unidade de negócios. A liderança deve visar o coletivo, que são os objetivos gerais da empresa. A liderança deve buscar o melhor para o negócio local e para a empresa como um todo. E se o elenco do Palmeiras conseguir formar líderes como os da seleção brasileira de vôlei masculino de 1992, poderá deixar para trás essa história de que “não tem mundial”.

Andre L Braga tem formação em Coaching & Mentoring pelo Instituto Holos, mas não exerce profissionalmente tal função. Atua em finanças em uma multinacional de bebidas não-alcoólicas. Poderia argumentar que o Palmeiras detém o título de campeão mundial de 1950, mas isso não faria de seu time um líder, seja no atual campeonato, seja no ranking de títulos dos times brasileiros.

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