Por que Bolsonaro não é de direita

( mas apenas mais um político populista )

Não sou de direita. Fui esquerda na minha adolescência, e hoje me considero mais para o centro. Compactuo com ideias liberais, mas vejo diversas falhas no capitalismo, tal qual o conhecemos. O modelo atual não é sustentável sem reformas que visem melhor distribuição de riqueza, e a acumulação de riquezas através da exploração de outros seres humanos, ou da exploração desmedida de recursos naturais, não irá levar-nos a nenhum futuro promissor.

Minha primeira afirmação – não sou de direita – também vale para Bolsonaro. Longe de ser um político de direita, o “mito” não passa de mais um populista nesse circo que se tornou o cenário político brasileiro.

Por mais difícil e controverso que possa ser, deixe-me tentar definir direita e esquerda. Em linhas gerais, a direita é conservadora, enquanto que a esquerda é liberal, no que tange aos valores morais. Em aspectos econômicos, a direita é liberal, pró-mercado e em defesa da iniciativa privada, enquanto que a esquerda é socialista, defendendo o trabalhador e dando ao Estado o poder de regular e interferir nas relações de mercado e de trabalho. Mas não tome esta definição como verdade suprema. Até mesmo porque não existe essa coisa de verdade suprema.

E quem é Bolsonaro, aclamado como único representante da direita política brasileira a pleitear o cargo de Presidente do Brasil nas eleições de 2018?

Deputado Federal há 26 anos, teve apenas dois de seus 171 projetos de lei aprovados em toda sua carreira política. O primeiro, aprovado na segunda metade da década de 90, estendeu até 2003 a isenção de IPI sobre bens de informática, nas áreas incentivadas da SUDAM, SUDENE e Região Centro-Oeste; e o segundo, aprovado em 2016, autorizou o uso da chamada “pílula do câncer”.

Convenhamos. Duas vitórias em 171 tentativas não é lá nenhum grande feito. Ou as propostas apresentadas pelo parlamentar eram irrelevantes, ou não foram apresentadas de forma convincente.

Se um parlamentar com a experiência de Bolsonaro não foi capaz de convencer seus “colegas de trabalho” quanto à relevância de seus outros 169 projetos rejeitados, e ainda que suas derrotas tenham ocorrido pelo suposto fato do deputado ser “incorruptível”, como podemos esperar que seja capaz de influenciar a Casa na eventual condição de Presidente da República? Sem retórica e sem foco no que é importante, o apoio da Casa talvez dependa exclusivamente da corrupção sistêmica e endêmica que opera no centro político da nação.

Talvez por conta dessa frágil capacidade de liderança, Bolsonaro necessite reafirmar-se constantemente, através de contundentes declarações à mídia, apresentando-se como oposição à sujeira que se instalou em Brasília. Talvez tenha se tornado “mito” porque isso é o máximo que seja capaz de fazer.

De volta aos seus dois projetos de lei que foram aprovados…

O primeiro trata de reserva de mercado e protecionismo a indústria nacional, custeado por recursos públicos destinados às agências de fomento econômico. Esse é o tipo de atividade que poderíamos esperar de um político de esquerda, jamais de alguém se que diz de direita.

Sobre o segundo projeto, a aprovação de um medicamento sem que todos os protocolos científicos tenham sido validados, atendendo aos anseios da população, foi uma forma fácil e inconsequente que Bolsonaro encontrou para ganhar apoio popular. Um político verdadeiramente de direita não daria ouvidos aos anseios populares, respeitaria protocolos científicos e firmaria acordos de cooperação entre universidade e iniciativa privada. Com o nível correto de recursos e lobby, sua validação e aprovação poderiam ser aceleradas. Mas não foi isso que fez Bolsonaro. Buscou o caminho heróico, da aprovação apesar da falta de testes. Tipicamente populista.

Fãs do Bolsonaro, desculpem-me decepcioná-los. Vocês não apoiam um político de direita. Vocês não apoiam alguém com comprovada capacidade de liderança. Vocês não apoiam alguém com preparo para assumir o cargo mais alto da política brasileira. Vocês apoiam um populista, que precisa da mídia e de suas “mitadas”, para ganhar popularidade e lançar-se à Presidência.

Se ainda não está convencido, aqui vai meu último argumento. Em uma analogia puramente capitalista, e por definição de direita, imagine-se você como o presidente de uma grande multinacional. Dentre os diretores que compõem o Conselho de Administração, está Bolsonaro. Na empresa há 26 anos, e com apenas dois de seus 171 projetos implementados ao longo de sua carreira, faz comentários descabidos durante as reuniões do Conselho e chegou a ofender verbalmente outros diretores em certas ocasiões. Falta-lhe inteligência emocional. Apesar disso tudo, você o manteve no cargo ao longo de todos esses anos. Agora chegou a sua vez de deixar a empresa e indicar um novo presidente, um sucessor para seu cargo, e os acionistas confiam em sua indicação. Você indicaria o Bolsonaro para substituí-lo, sabendo que isso poderia impactar a sua reputação no futuro?

Se sua resposta à pergunta acima foi um grande “sim”, desculpe-me, mas não tenho realmente mais nada a lhe dizer. Siga em frente, confiante no Brasil, e aposte todas suas fichas no “mito” para Presidente. E sustente seu voto, quando a anarquia se instalar em meio à “ingovernabilidade” do país.


Publicado originalmente no Facebook, Currículo de Vida, 29/10/2017.


Todos os dados apresentados estão disponíveis no site da Câmara dos Deputados.

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