A família feliz do comercial de margarina.

Esta série de textos semanais propõe um diálogo sobre as mentiras que rodeiam nossas vidas e suas consequências. Este texto é sobre a família Braga e outras tantas famílias de verdade, que não são representadas pelos comerciais de margarina.

“(…) era isso que eles queriam: mentiras. Mentiras maravilhosas. Era disso que precisavam.”

– Charles Bukowski

Você já viu aquela famosa cena do comercial de margarina. A família feliz, todos à mesa do café da manhã, todos sorrindo e mesmo as provocações entre irmãos vêm em clima alegre e descontraído. E todos estão impecavelmente bem vestidos. E a mesa, impecavelmente posta. E a empregada, sempre sorridente, genuinamente feliz. E a sensação de quem assiste é a de que a vida nunca será tão perfeita como nos comerciais de margarina. Mas será que é preciso tanta perfeição para se alcançar a felicidade dentro de casa?

Venho de uma família muito, mas muito grande. Somos eu, mais três irmãos e cinco irmãs, que deram aos nossos pais 24 netos e mais um número crescente de bisnetos. E, claro, não nos parecíamos nada com a família do comercial de margarina. Brigávamos como (quase) todos irmãos brigam, pelas coisas mais imbecís ou pelos temas mais contundentes. Brigávamos porque não concordávamos com a opinião – ou o comportamento – de nossos pais, por conta da intromissão de cunhados nos assuntos da família, porque os filhos de um ou de outro não se davam bem – e a culpa é sempre do filho do outro…

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Motivos para brigas nunca faltaram, e ainda hoje tem aquelas discussões completamente inúteis via WhatsApp entre os que são a favor e os contrários à liberação do porte de armas; veganos e carnívoros; crentes, ateus, agnósticos e budistas; fãs e opositores de Bolsonaros e Felicianos; direita, centro e esquerda… Mas isso não significa que não éramos, ou que hoje não sejamos, uma família feliz. De uma felicidade hermética, como aquela da família do comercial de margarina? Não, certamente não. Mas felizes de verdade, o que é muito diferente de sermos perfeitos. A felicidade de verdade está no superar conflitos. Está no gostar do outro, apesar das diferenças.

“Creio que é melhor dizer a verdade do que mentir, saber do que ignorar, ser livre do que depender.” 

– H. L. Mencken

Tenho opiniões bastante diferentes de alguns irmãos, de alguns sobrinhos. E eles sabem disso. Não minto para eles sobre meus posicionamentos, não tenho medo de ter conversas difíceis com eles sobre determinados assuntos. Mas sei que temos muito mais em comum do que diferenças. E isso vai muito além de uma mesma linhagem genética. Isso tem a ver com as profundas raízes éticas que cresceram a partir das sementes plantadas pelos meus pais. Uma árvore pode crescer mais para a direita ou para a esquerda, ter uma copa pomposa ou galhos não tão bonitos de se ver, ter outras espécies – como uma orquídea ou uma trepadeira – enxertadas ao seu tronco, ter seu formato modificado por meio de podas radicais, mas ainda assim suas raízes continuarão sendo as mesmas.

Brandon Green

 

À minha família, tenho apenas uma coisa a dizer: nunca se esqueçam de nossas raízes. São elas que nos mantém firmes. São elas que nos permitem crescer, firmes e fortes. Digam sempre a verdade, não tentem ser alguém diferente de quem realmente são, não tentem transparecer uma perfeição que, no fundo, sabemos que não é verdadeira. Deixem isso para os comerciais de margarina. Porque margarina precisa de uma história idealizada por profissionais de marketing para vender. Já as raízes de nossa família, estas não estão à venda em supermercados.

Andre L Braga tem formação em Coaching & Mentoring pelo Instituto Holos, embora não exerça profissionalmente tal função. Atua em finanças em uma multinacional de bebidas não-alcoólicas. Defende a intervenção mínima do Governo na vida das pessoas, investindo em educação e saúde pública de qualidade, segurança pública e simplificação das regras tributárias, reduzindo a burocracia. O respeito à liberdade de escolha do indivíduo, seja ela sexual, religiosa, partidária ou de qualquer outro cunho estritamente pessoal. A liberdade de expressão e de imprensa. A resolução pacífica de problemas. E outros temas que não estão alinhados com aquilo que alguns irmãos e sobrinhos defendem. E tudo bem. Porque, ainda assim, temos mais coisas em comum que essas poucas visões divergentes sobre o mundo.

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