Liberdade sexual no discurso, puro preconceito na prática.

Esta série de textos semanais propõe um diálogo sobre as mentiras que rodeiam nossas vidas e suas consequências. Este texto é pra você, que “até tem amigo gay”, que acha que “ela é bonita, nem parece sapatão”, ou que apoia a causa GBLT nas redes sociais, e depois faz piada daquele cara que “podia pegar qualquer mulher, mas foi justo sair com traveco”.

“Não viva de aparências, elas mudam. Não viva de mentiras, elas são descobertas. Não viva pelos outros, viva por você.”

– Autor desconhecido

Tivemos recentemente uma exposição de arte cancelada por conta da repercussão negativa que ela causou. Queermuseu foi uma exposição patrocinada pelo Santander Cultural, e o nome da mostra já dizia muito sobre o que o visitante encontraria por lá. Pra quem não sabe, queer significa estranho, esquisito. O termo, que já foi usado de forma pejorativa contra gays, acabou sendo abraçado pela causa como uma forma de auto-afirmação. É meio aquela coisa do “pode me xingar, isso não me afeta”. Demonstração clara de auto-afirmação, auto-estima, saber das suas escolhas e ter orgulho delas. Se parece difícil entender essa coisa toda, vamos para o mundo do futebol: o Palmeiras adotou o “porco”, que outrora foi provocação da torcida adversária, como auto-denominação e grito de guerra.

Você pode me dizer que o Santander Cultural não advertiu o público sobre o conteúdo da mostra. Não sei, não posso julgar. Mas você realmente vai a mostras culturais sem se informar sobre o conteúdo? Tipo assim, estava passando ali na frente, era gratuito, então entrou – porque de graça, até injeção na testa! “Ah, mas tinha criança na exposição…” e aqui volto ao Santander Cultural – se informou o conteúdo da mostra e declarou ser desaconselhável para menores de determinada idade, por exemplo. Mas também aos pais, que vão entrando em qualquer mostra cultural, sem saber o que vão encontrar lá dentro, e de quebra levam seus filhos juntos.

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E aquele pai que se indignou com o fato de crianças terem visitado a mostra cultural, será que ele segue critérios rigorosos de aprovação do que seus filhos veem na TV e na internet? Porque aquele vídeo da Katy Perry com a Gretchen ou alguns vídeos da Anitta, por exemplo, podem ter maior influência na visão da criança frente ao sensual, ao sexual, ao que se espera da mulher, do que algumas pinturas na parede. Até mesmo séries da TV, como a inocente Carrossel ou Malhação, podem ter influência muito mais profunda sobre os conceitos que nossas crianças constroem acerca de sua futura vida sexual, do que uma rápida visita ao museu seria capaz de fazer.

“Alguém dentro de mim mente para me proteger.” 

– Fabrício Carpinejar

Meu ponto aqui é muito simples: ninguém é obrigado a seguir a orientação sexual do outro. Ninguém deve ser forçado a nada. Se sou heterossexual e isso é o que decidi ser, e meu relacionamento com minha esposa é consensual, ela é adulta, consciente de seus atos e dona de suas decisões, então ambos estamos bem. E é nesse ponto de ser adulto, consciente de seus atos e dono suas decisões que toda a questão deve se pautar. A ilegalidade de crimes como estupro, pedofilia ou zoofilia reside no fato da vítima ser forçada ao sexo, não tendo consciência ou poder de decisão sobre o que está acontecendo com o corpo dela.

Da mesma forma que na heterossexualidade, a escolha do homossexual só diz respeito a ele próprio e a seu parceiro. Mas se sou casado e, sem que minha esposa saiba, saio com outro homem, isso não é “viadagem”, como dizem por aí. Isso é traição! Sair com outro alguém, enganando seu parceiro, é traição e pronto.

Se um casal mantém um relacionamento aberto, que permite outros encontros, uma terceira, quarta, quinta pessoa nas suas vidas, não tem problema nenhum e isso só diz respeito ao casal e àqueles que compartilham de seus momentos íntimos. Desde que combinado, sem nada contra a vontade de ninguém, sem envolver atos ilegais ou que possam representar riscos a um dos envolvidos, tudo é permitido e ninguém, absolutamente ninguém, têm o direito de opinar ou interferir naquilo que se passa entre quatro paredes. A vida sexual dos outros é dos outros, e você não tem nada a ver com isso.

Andrew Robles

 

Da próxima vez que se deparar com dilemas relacionados a orientação sexual, pense se a questão em pauta se trata de suas próprias escolhas, ou das preferências de terceiros. Se o problema é seu, se você está inseguro sobre aquilo que te faz feliz, converse com seu parceiro, reflita sobre sua vida e aquilo que te dá prazer, fale com seu melhor amigo ou procure um psicólogo. Você tem todo o direito de falar sobre sua própria sexualidade, suas dúvidas, suas escolhas. Agora, se a questão são os outros, e esses outros não interferem na sua vida sexual, então pare de se preocupar com a vida alheia e vá procurar algo mais útil pra fazer, ok?

Andre L Braga tem formação em Coaching & Mentoring pelo Instituto Holos, embora não exerça profissionalmente tal função. Atua em finanças em uma multinacional de bebidas não-alcoólicas. Entende que qualquer pessoa importunando uma outra, forçando a barra, chegando muito perto e abraçando e mexendo no cabelo, isso tudo é assédio, não importa se um é um homem importunando uma mulher, uma mulher importunando um homem, um homem importunando outro homem, uma mulher importunando outra mulher. Assédio é assedio, não importa seu gênero ou orientação sexual. E defender-se de assédio não é ato discriminatório. Porque sexo só é bom quando consensual, envolvendo parceiros com idade e discernimento para decidir o que querem ou não.

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