Ela não significa nada para mim…

Esta série de textos semanais propõe um diálogo sobre as mentiras que rodeiam nossas vidas e suas consequências. Neste texto, abordamos aquela velha mentira que, mais cedo ou mais tarde, sempre acaba sendo descoberta.

“Ousa dizer a verdade: nunca vale a pena mentir.

Um erro que precise de uma mentira, acaba por precisar de duas.” 

– George Herbert

É quase sempre mais ou menos assim. Começa com uma conversa despretensiosa, avança para aquele silêncio incômodo, os batimentos cardíacos acelerados, a respiração ofegante, um beijo como se fosse o último, o agir sem pensar, um sorriso seguido de outro silêncio incômodo, o não saber o que fazer no dia seguinte.

Ou então pode ter sido tudo cuidadosamente planejado. O sabor da conquista. O desejo a flor da pele, incontrolável, que não pode esperar mais nem um segundo. A melhor primeira foda de muitas outras por vir. O realizar fantasias que seriam inconcebíveis na vida oficial. O olhar com fome do outro. O contar os minutos até o próximo encontro. O planejar cuidadosamente cada movimento seguinte.

Não interessa se a coisa toda começou por acidente, ou se foi algo acidentalmente planejado, esperado, provocado. A verdade é que, numa relação entre amantes, na qual um ou ambos seguem uma vida “oficial” em paralelo, mais cedo ou mais tarde chegará o dia da cobrança. Chegará aquele dia fatídico, no qual a pergunta sobre o ou a “oficial” será posta à mesa. O dia em que você irá dizer que já não aguenta mais sua vida oficial, que quer largar, mas que antes precisa resolver algumas pendências. Que se fossem só os dois, acabaria tudo no dia seguinte, mas tem as crianças. Ou tem a questão da partilha de bens. Ou que “oficial” está passando por um momento difícil, e seria melhor esperar os problemas se resolverem. Sempre haverá um motivo para protelar, para continuar tudo como está.

E tem a situação oposta. Quanto o ou a “oficial” descobre a existência do ou da “amante”. E aí então, quando não há mais como negar o óbvio, sempre vem aquela mesma história de que ele ou ela não significa nada para você, que aquilo tudo foi apenas um grande erro, um momento de fraqueza de sua parte, que você se arrepende profundamente. E que implora perdão. E que fará de tudo para que tudo volte ao normal, porque amor verdadeiro existe apenas no relacionamento “oficial”.

Não importa se você se encontra na primeira ou na segunda situação, a verdade é que, invariavelmente, nenhuma ação será tomada de imediato. Nada será realmente resolvido. E a situação toda poderá se arrastar por anos, com você tentando ser mais cauteloso, ou encontrando melhores desculpas, evitando ao máximo ser pego novamente, ou posto uma vez mais contra a parede.

“O indivíduo infiel é tão perigoso como o mentiroso. Ambos são fracos, ingratos e constroem castelos sem fundações.”

– Textos Judaicos

Pergunte-se a si mesmo, para quem você está mentindo de fato? Para o relacionamento “oficial”, para o ou a “amante”, ou para você mesmo, para que sua consciência possa suportar suas eternas mentiras?

Quem busca um caso extra-conjugal não declarado, seja uma aventura de uma só noite ou uma vida afetiva em paralelo, além de mentiroso, também é um medroso. É alguém com medo de perder aquilo que necessita para sustentar alguma mentira que contou para si mesmo. Trata-se de acreditar ser um homem ou mulher de família, de valores, um pai ou mãe exemplar e que tem um nome a zelar. Ou então precisar daquela vida oculta para provar a si mesmo de que ainda é capaz de seduzir, de provocar interesse, de ser interessante, de ser “o macho alfa” ou “a loba”. Trata-se de tornar-se aquela pessoa que idealizou, ainda que saiba que isso tudo não passa de uma grande mentira. Trata-se de sustentar as diversas mentiras que conta, diariamente, a si mesmo.

Sweet Ice Cream Photography

 

Mas o que fazer então? Suprimir suas vontades e desejos, anular-se, tornar-se um ser infeliz em toda a caretice de uma vida monogâmica? Não, definitivamente não! Ser monogâmico não precisa ser sinônimo de infelicidade, basta escolher bem a pessoal com quem você irá compartilhar sua vida. Existe felicidade na vida à dois. Mas se isso não é o que você busca, então pare de mentir! Não tenha medo. Jogue limpo. Deixe muito claro quem você é, o que você busca e como quer levar sua vida íntima com seu parceiro ou parceira. Ponha as cartas na mesa. Mostre-se como você realmente é. E se a outra pessoa não aceitar seu jeito e suas preferências, então não era pra ser mesmo! Ficar ao lado de alguém que não compartilha de seu estilo de vida é aceitar que, mais cedo ou mais tarde, seu relacionamento se deparará com a mentira. Nesse caso, você já sabe: “Ela não significa nada para mim…” será uma frase muito útil, então melhor começar a treinar seu teatro na frente do espelho.

Andre L Braga tem formação em Coaching & Mentoring pelo Instituto Holos, embora não exerça profissionalmente tal função. Atua em finanças em uma multinacional de bebidas não-alcoólicas. Acredita que muitos dos nossos erros se devem a estereótipos que alimentamos em nossa convivência social. Por temer a reação do outro, partimos para a primeira mentira. E depois para uma segunda. E uma terceira. Até que um dia não dá mais. Então melhor começar de cara limpa e não precisar de máscaras com aquela pessoa que escolhemos para compartilhar nossas vidas.

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