Lobo em pele de cordeiro

Esta série de textos semanais propõe um diálogo sobre as mentiras que rodeiam nossas vidas e suas consequências. Neste texto, falamos sobre o mais perigoso de todos os mentirosos: o dissimulado.

“A verdadeira mentira é, pois, com todo rigor e justeza da expressão, a ignorância que afeta a alma do que foi enganado.” 

– Sócrates

Toda empresa, toda vizinhança, toda família, todo círculo de amizades tem alguém assim. Super legal, super descolado, super “da galera”, super acessível, super preocupado com tudo e com todos, ou então o super coitadinho, que levou uma vida sofrida e que conquista a todos por meio da comoção coletiva. Não importa onde e como se destaca, esse sujeito sempre dá um jeito de mostrar-se de forma vantajosa – para ele próprio. É aquele alguém sempre disposto a ajudar ao próximo, alguém em quem você pode confiar, com quem você pode sempre contar. Seja como o bonzinho ou o coitadinho, esse sujeito sempre se apresentará como um cordeirinho. Mas sua mente pode esconder um lobo, esperando o momento exato para atacar sua presa. Esse é o falso, o dissimulado, o manipulador. O pior e mais perigoso tipo de mentiroso.

O lobo em pele de cordeiro não sabe viver de outra forma. Ele não tem conteúdo. Não tem valores. Não tem nada a oferecer, nem mesmo amor ou compaixão. Porque ele só pensa em si mesmo, e como buscar vantagens pessoais em cada contato social, em cada relação. Não existe o “nós”, apenas o “eu” e os outros (“trouxas”). A vida do dissimulado é uma grande mentira, e de mentira em mentira o dissimulado cria seu próprio avatar, ou uma coleção de avatares para diferentes ocasiões, círculos sociais e eventos, e utiliza tais personagens para conquistar aquilo que deseja. Ele usa as pessoas a seu favor. E o que oferece em troca não passa de falsas promessas. O dissimulado é, talvez, uma forma torta de psicopatia ou sociopatia que, por total falta de inteligência ou esforço pessoal, não foi capaz de sair da sofrível condição de manipulador barato. O dissimulado não vive, apenas luta para sobreviver às custas de suas presas.

“Para mentir, apenas duas coisas são necessárias: alguém que minta e alguém que escute a mentira.”

– Homer Simpson

O dissimulado é como aquele vizinho que se aproxima por conta daquilo que enxerga por cima do muro, não por conta de quem você é. Em seu discurso, enaltece a sua pessoa, como você é um cara legal, como sua família é legal, como ser seu amigo é legal. E assim conquista seu espaço, abrindo devagarinho suas asas e tomando, aos poucos, tudo aquilo que for de seu interesse. E enquanto essa relação de sanguessuga for sustentável, o dissimulado estará por perto. E quando deixar de ser sustentável, se mostrará aos outros como o pobre coitado, aquele que foi de alguma forma traído por um falso amigo, que aprontou algo inconcebível e inaceitável e que, por isso, acabaram rompendo a amizade. E irá postar algumas indiretas indecifráveis sobre o tema no Facebook, aqueles desabafos em forma de enigma da esfinge, e nunca será claro o suficiente para explicar o que realmente (nunca) aconteceu. O dissimulado não pode inventar uma mentira que não possa ser sustentada, então cria uma nuvem de fumaça para mostrar-se como a parte fraca, a parte injustiçada, o coitadinho da história toda.

Mas o que fazer nesses casos? Como se proteger do dissimulado? A primeira coisa a fazer é cair na conversa dele. Isso mesmo. E não uma única vez, mas algumas vezes. Porque o dissimulado é tão bom naquilo que faz, que você sempre vai lhe dar uma segunda chance, sempre vai achar que não houve má intenção, que tudo não passou de um mal entendido. Lembre-se, o dissimulado dedica sua vida para aperfeiçoar suas técnicas de manipulação. Mas depois de alguns tropeços, você não terá mais dúvidas e saberá que o dissimulado é o que é, que a culpa não é sua, que não houve mal entendido algum e que não há mais nada a ser feito, além de blindar-se contra suas investidas. Cortar relações, mas de uma forma não drástica – afinal de contas, você não quer ser a desculpa perfeita para mais um desabafo indecifrável no Facebook, não é mesmo? Deixar o lobo em pele de cordeiro de lado. Usar desculpas esfarrapadas e mal contadas para evitar sua presença. De certa forma, imitar algumas das técnicas de dissimulação tão frequentemente utilizadas pelo manipulador. E assim ver o lobo se afastar, em busca de outra presa mais fácil para atacar.

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Lembra da história da Chapeuzinho Vermelho? O lobo mal podia tê-la atacado ali, no meio da floresta. Chapeuzinho estava totalmente indefesa. Mas não. Ele preferiu se apresentar como o anjo da floresta, assim poderia comer não só a menininha, mas também sua vovozinha e a cesta de guloseimas. Esse é o dissimulado de quem estamos falando. É esse o tipo de mentiroso que você mais deve temer.

Andre L Braga tem formação em Coaching & Mentoring pelo Instituto Holos, embora não exerça profissionalmente tal função. Atua em finanças em uma multinacional de bebidas não-alcoólicas. Já se deparou com vários lobos em sua vida, e de certa forma aprendeu a identificá-los. Mas sabe como é… manipuladores passam toda uma vida treinando, e esses tipos estão ficando cada vez melhores! Pode até ser capaz de identificar alguns, mas invariavelmente acabará caindo no papo de pelo menos mais um par deles. Os disfarces dos lobos estão ficando cada vez mais sofisticados, eles estão cada vez mais parecidos com cordeiros de verdade.

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