Um convite à verdade

Esta série de textos semanais propõe um diálogo sobre as mentiras que rodeiam nossas vidas e suas consequências. Neste último texto da série, e último texto do ano, convidamos você, leitor, a viver a vida sem mentiras.

“Tenho visto pessoas demais, falado demais, dito mentiras, tenho sido muito gentil.” 

– Clarice Lispector

Assumo publicamente: sou um mentiroso. Todos somos, ainda que em diferentes graus de intensidade e frequência. A convivência social nos ensina que algumas mentiras são necessárias para que possamos evitar conflitos desnecessários, evitar magoar os outros com nossas opiniões, evitar exposição de certos temas que não queremos tornar públicos.

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Não tem jeito. A gente sempre acaba contando uma mentira, aqui ou ali, com o intuito de manter o convívio social mais, digamos assim, sociável. Basta lembrar daquele amigo que se acha sincero, mas vive ouvindo os outros chamá-lo de grosso. E o pior é que esse tipo gosta de assumir-se como tal… “Sou sincero, melhor se acostumar porque sou assim mesmo e não vou mudar.”

Mas e se te disser que podemos eliminar algumas dessas “mentirinhas do bem”, sem que para isso nos tornemos uns grossos ou acabemos falando mais do que queremos ou precisamos? A coisa toda pode ser definida em alguns poucos adjetivos: sinceridade, educação, objetividade, clareza, empatia.

“Descobri coisas deliciosas a meu respeito, como por exemplo, uma pessoa superficial e de mentira jamais aguentaria ficar perto de mim.”

– Caio Fernando Abreu

Um colega de trabalho te pergunta alguma coisa sobre um projeto confidencial no qual você está trabalhando? Ao invés de mentir, dizendo que não sabe nada a respeito, ou então inventar alguma história sem o menor sentido, melhor dizer algo como “desculpa, mas não estou autorizado a compartilhar nada sobre isso neste momento”. Vai ficar uma dúvida no ar? Com certeza. Mas você nem quebrou a sua cláusula de confidencialidade, nem precisou mentir para fugir da saia-justa.

Um amigo te pergunta se você vai sair com ele no final de semana, mas você não está à fim, e prefere ficar em casa sozinho, ou então fazer alguma outra coisa ou sair com outras pessoas? Você não precisa mentir, soltando o tradicional “vou ver se dá” ou algo como “legal, acho que vou sim”. Melhor dizer a verdade, como “acho que não, tô querendo ficar sozinho este fim-de-semana” ou “não vai dar, já combinei uma outra coisa com fulano”. Mentimos para amigos por medo da cobrança que pode vir ao dizermos “não” – mas verdadeiros amigos sabem que ninguém vive grudado em ninguém, não é mesmo?

Aquele crush solta um “te amo” e fica aquele silêncio, a espera de um “também te amo” da sua parte. Mas você ainda não sabe se aquilo que sente é intenso o suficiente para tal declaração. Então pra que dizer aquilo que ainda não está seguro se sente ou não? Melhor o silêncio incômodo, isso já servirá como resposta. E se houver a insistência, melhor abrir o jogo e dizer que ainda é muito cedo para você, e que acha melhor curtir o momento a dois e ver para onde a coisa toda vai. Sem pressa. No seu tempo. E pode ser que o outro não esteja disposto a esperar, e que essa conversa difícil leve ao fim do relacionamento que mal começou. Mas quer saber? Melhor assim! Se o crush não respeita seu tempo agora, no começo do relacionamento, imagina só o grude que vai virar mais pra frente…

Alguém te pergunta algo que, para você, é muito pessoal e você não quer falar a respeito. Se você está saindo com alguém, o que acha do seu novo chefe, o que pensa sobre a vizinha da frente, quanto você ganha, ou qualquer outro tema que você prefere não falar a respeito. Você pode mentir, inventar qualquer coisa, dar a resposta que você imagina ser aquela que a outra pessoa gostaria de ouvir. Ou você pode dizer que “prefere não falar sobre isso” ou então perguntar “por que você quer saber?” – assim você devolve a pressão da pergunta embaraçosa a quem começou a conversa que você não quer ter.

Veja bem! Assumindo que sejamos pessoas que não vivem de grandes mentiras, que são verdadeiras e transparentes, ainda assim podemos estar nos metendo, dia após dia, em uma quantidade enorme de pequenas mentiras, as tais “mentiras do bem”. Mas agora sabemos que podemos evitar uma grande parte dessas mentirinhas também. Isso vai fazer com que nossas vidas sejam mais leves, sem a pressão de saber que estamos mentindo para fugir de situações complicadas ou embaraçosas.

Tente, vale à pena! Aproveite que estamos às vésperas de 2018 e coloque esse compromisso na sua Resolução de Ano Novo. E não deixe que tal resolução seja apenas mais uma mentirinha para você mesmo.

Andre L Braga tem formação em Coaching & Mentoring pelo Instituto Holos, embora não exerça profissionalmente tal função. Atua em finanças em uma multinacional de bebidas não-alcoólicas. Aceita sugestões, nos comentários aí embaixo, sobre o que dizer àquela amiga que mudou o penteado – para pior – e veio perguntar: “E aí?!? Gostou?!?”

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