Confie em si mesmo

“Se você quiser alguém em quem confiar, confie em si mesmo.” – Renato Russo

Conheci um sujeito, há muitos anos. Ele vinha de uma grande família. Era o mais novo, a “raspa do tacho”, o “caçula”. Criancinha bem feia, magricela, sem a mínima coordenação motora. Tagarela, mas muito tímido. Falava muito sobre tudo que achava que sabia, mas não tinha palavras pra expressar seus sentimentos. Pra deixar de sofrer em silêncio. Pra “chegar junto” daquela garota linda que estudava na classe ao lado. Nem daquela outra mais velha, do último ano do colegial. E que passava horas ao telefone com a garota dos seus sonhos, mas que nunca tomava coragem para sair da condição de “melhor amigo e confidente” para algo mais íntimo. E que sempre aceitou as coisas como eram, porque simplesmente não podia imaginar ouvindo um “não”. E por tanto temer o “não”, seguia evitando as oportunidades que a vida lhe trazia, e vivia rodeado por “nãos” que escolhera para si mesmo.

Mas esse mesmo garoto medroso, que se apavorava só de imaginar ser rejeitado pelos outros, e assim construía muros que o separavam das pessoas, era também o garoto corajoso, que ia em frente e abraçava oportunidades que lhe fizessem brilhar os olhos, que lhe permitissem mostrar suas idéias para o mundo.

Garoto complicado era esse aí. De um lado, um ser apavorado, que não sabia como lidar com a simples ideia de ouvir um não. Do outro lado, o ser mais extrovertido do mundo, que podia subir num palco para tocar com sua banda, ou no palanque improvisado para discursar em frente aos alunos da escola, ou começar “do zero” o jornal da escola e coordenar cada detalhe, desde a pauta das matérias até desenhar para a seção de quadrinhos, e depois passar tudo para o mimeógrafo – desculpa se isso não é do seu tempo – e rodar a edição no porão da escola, ao cheiro de álcool e as mãos sujas de tinta azul-carbono.

Esse era o paradoxo do garoto que conheci na minha infância em Marília, interior de São Paulo. De um lado, o ser retraído, introspectivo, medroso até. Do outro, alguém esbanjando confiança, querendo liderar o mundo, tentando mostrar e provar pra quê veio.

E esse garoto cresceu, e continuou repetindo sua história. Sempre mais do mesmo. Introspecção e orgulho exacerbado. Modéstia e um incômodo ar de superioridade. Submissão e arrogância. Silêncio e o falar mais do que devia.

E sabe o quê? Essa combinação nada positiva trazia avanços impensáveis, seguidos de tombos e frustrações. Era mais ou menos como Ronaldo na Copa de 1998, quando a promessa de título acaba “broxando” na última partida do campeonato, na hora do “vamo vê”. Pura auto-sabotagem. Falhar por medo de falhar.

“Enquanto você não for capaz de confiar em si mesmo, não adianta esperar pelo sucesso.” – Phineas Taylor Barnum

E porque ninguém é uma ilha, esse garoto conheceu pessoas que mudaram sua percepção, sua forma de encarar a vida, e fizeram com que ele acreditasse mais em si mesmo. E ao confiar em si mesmo, esse garoto descobriu que podia fazer muito, mas muito mais pelas coisas que acreditava. E deixou de lado a arrogância. E a dúvida sobre suas capacidades. E a necessidade constante de aprovação e de comparar-se aos outros. E passou a seguir seus instintos. E hoje ele quase não lembra mais aquele garoto que conheci em Marília nos anos 80. Exceto pelas pronunciadas orelhas que adornam seu rosto.

Costumo chamar esse garoto de “eu”.

Andre L Braga tem formação em Coaching & Mentoring pelo Instituto Holos, embora não exerça profissionalmente tal função. Atua em finanças em uma multinacional de bebidas não-alcoólicas. Dedica este texto aqueles que confiaram naquele garoto e o transformaram em alguém de sucesso, qualquer que seja sua interpretação dessa expressão.

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