Guerra à liberdade de expressão

( inspirado na edição de março de 2018 da revista Prospect )

Tem um monte de gente comemorando o filme “Pantera Negra”, inspirado no personagem homônimo da Marvel. Isso por conta do elenco, majoritariamente composto por atrizes e atores negros, algo impensável até então. Bandeiras foram levantadas, e com razão, em celebração a esta grande vitória.

Mas sempre tem aqueles que argumentam que os personagens da Marvel já eram negros, então o filme apenas reproduziu fielmente a história em quadrinhos…

Talvez a própria criação de um herói negro pela Marvel tenha sido, no passado, uma obra político-social muito bem planejada. Talvez um contraponto ao Capitão América, representação maior do patriotismo branco norte-americano. E, ironicamente, o Pantera Negra apareceu antes, na grande tela, como personagem de um dos filmes do Capitão América…

Em reação instantânea às diversas manifestações em favor do filme, alguns vieram e rotularam isso de “mimimi”, perguntando-se sobre o por quê desse auê todo e tachando essa celebração de racismo. É aquele argumento do racismo reverso. Do negro contra o branco. Da divisão do mundo, promovida pelo PT (?) e pelas “fake news”…

Enquanto isso, do lado daqueles que celebravam, veio a polêmica : “Os dubladores não são negros!!!”

É aquela velha insatisfação do ser humano. Ao invés de celebrarmos nossas vitórias, exaltamos aquilo que não está funcionando como gostaríamos, e toda a energia positiva rapidamente se transforma em combustível para reclamações. E é nesse momento que aqueles que chamavam tudo isso de “mimimi” voltam a crescer em seus discursos inflamados sobre racismo invertido…

Esse cenário vale também para outras tantas discussões nada produtivas, normalmente embasadas em crenças pessoais e ideias preconcebidas sobre “o outro lado”. É aquela discussão sobre política que rapidamente se converte em generalizações sobre esquerda e direita. Ou então sobre liberdade de escolha e a defesa da moral e dos bons costumes. Religião e ateísmo. E assim por diante. E assim segue o jogo.

E como foi que chegamos até aqui? Foi através da ideia crescente de que “não se pode argumentar sobre aquilo que as pessoas sentem”. Essa é a ideia central por trás da guerra contra o bullying, por exemplo. Tem um monte de gente que diz que bullying é “mimimi”, porque na época deles todo mundo tinha apelidos e ninguém ficava traumatizado com isso. Mas são essas as mesmas pessoas que, nos dias de hoje, se sentem profundamente ofendidas quando contrariadas! Ou seja, as coisas só são “mimimi” quando atingem os outros, mas críticas contra as ideias delas próprias são inaceitáveis, uma profunda falta de respeito!

Nesta época de mídias sociais, que deram vozes a tudo e a todos, a ideia de que “não se pode argumentar sobre aquilo que as pessoas sentem” se converteu em algo como “não se pode argumentar sobre aquilo que as pessoas pensam”. Então, se “penso, logo existo”, e se toda palavra contrária àquilo que penso é tida como ofensa… acabamos nesta guerra da intolerância contra a liberdade de expressão!

E sabe o pior disso tudo? Nesta guerra de “achismos”, não há vencedores. Todos perdemos. Porque a liberdade de expressão é a base do debate construtivo acerca de ideias. É o livre debate sobre diferentes pontos de vista que permite-nos crescer e desenvolver novas ideais, novos conceitos, novos padrões comportamentais, novos valores. A evolução constante da sociedade depende do livre debate de ideias.

Ao censurarmos a liberdade de expressão, ao acreditarmos que apenas aquilo que pensamos é o que está certo, ao não aceitarmos que o outro também tem direito à voz, ao tomarmos opiniões contrárias às nossas como profundas ofensas e rotularmos discursos contrários aos nossos como “facistas”, “reacionários” ou “mimimi”, estamos condenando a morte toda e qualquer possibilidade de mantermos qualquer tipo de debate intelectual que nos leve a algum lugar diferente daquele no qual nos encontramos neste exato momento. Porque conversas com quem pensa exatamente como a gente não é diálogo, mas monólogo.

Se tudo o que você precisa é de uma reafirmação de grupo, de que aquilo que você pensa está certo e todas as outras vertentes de pensamento estão equivocadas… Parabéns! Você está vivendo na época certa! Faça bom proveito de suas amizades de iguais nas redes sociais e seja feliz em sua bolha de curtidas e comentários de apoio!

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