Empatia (o olhar sob a ótica do outro)

“Não faça aos outros o que gostaria que eles lhe fizessem – eles podem ter gostos diferentes dos nossos.” – George Bernard Shaw

Muita gente defende que falta amor neste mundo. Não creio que falte amor. Cada vez mais, as pessoas estão aprendendo a se amar mais e mais. Famílias se despedaçam, sim, mas outras tantas se constroem, dia após dia. Os movimentos em defesa dos direitos dos animais são movidos por pessoas que amam a vida. A palavra “amor” trás 1,2 bilhão de resultados no Google, enquanto que a busca por “ódio” atinge apenas 11,7 milhões de links, ou cerca de 1% das ocorrências para o amor…

Definitivamente, o que falta neste mundo não é amor, mas empatia.

Entende-se por empatia a capacidade de se identificar com a outra pessoa, de sentir o que ela sente, de querer o que ela quer, de apreender do modo como ela apreende. Empatia é colocar-se no lugar do outro, ver o mundo desde sua perspectiva. Trata-se de algo mais profundo que fazer ao outro aquilo que você gostaria que fizessem a você; porque o outro tem sua própria vida, suas próprias preferências. Aquilo que é bom pra você, pode não ser nada bom para o outro. Ser empático é ser capaz de transportar-se ao universo do outro.

O filósofo australiano Roman Krznaric, em seu livro Empatia: Sobre a arte de viver, detalha alguns exemplos de pessoas e eventos históricos nos quais a empatia fez toda a diferença. Sua viagem sobre o tema se inicia, obviamente, com São Francisco de Assis, passando pelo experimento social realizado pelo escritor britânico George Orwell – autor de “A Revolução dos Bichos” e “1984” – e culminando na Inglaterra do final do Século XVIII e seu movimento abolicionista.

“Se você se importa mais com os outros que consigo mesmo, tem maior probabilidade de ser feliz.” – Richard Layard

Posts provocativos nas redes sociais nos questionam o por quê de nos comovermos com atentados terroristas em Paris ou em Londres, mas não apresentarmos o mesmo nível de comoção quando o atentado é na Nigéria, na Somália ou em outro país pobre da África.

Somos questionados sobre as correntes de orações pelas vítimas do atirador da escola norte-americana – Qual delas mesmo? Já foram tantas… – e o por quê de não demonstrarmos tal comoção pelas crianças mortas em uma maternidade na Síria.

Somos questionados quanto ao fato de gastarmos uma verdadeira fortuna para cuidarmos de nossos queridos pets, mas não termos o menor remorso em comermos nosso bacon, que um dia foi tão animal quanto é hoje seu bichinho de estimação.

Fazemos campanha contra o abordo e em prol da vida, mas tecemos comentários sarcásticos nas redes sociais, naquela notícia sobre a adolescente que foi fazer um aborto clandestino e acabou falecendo. “Morrer foi pouco pra ela, devia ter sobrevivido e tido sequelas do aborto pro resto da vida, pra aprender a lição!”, li outro dia nos comentários de uma matéria da Folha de São Paulo no Facebook…

“Por mais egoísta que possamos considerar o homem, há evidentemente alguns princípios em sua natureza que o levam a se interessar pela sorte dos outros, e tornam a felicidade dos outros necessária para ele, ainda que nada ganhe com ela, exceto o prazer de contemplá-la.” – Adam Smith

Por que vemos essas situações horrendas? Falta amor? Não. Ou talvez… Mas, com certeza, o que mais falta é a tal da empatia.

Por que as pessoas se sensibilizam com os atentados na Europa, e não dão a menor importância quando o atentado é na África? Porque as pessoas se identificam com a Europa. Se imaginam visitando seus países, poderiam estar por lá e ser tornarem vítimas inocentes dos terroristas, como outros tantos turistas que por ali passeavam. Mas não conseguem se ver na África. Não conseguem se imaginar por lá. Não teriam o que fazer por lá. Então, não se colocam no lugar das vítimas. Porque elas próprias não se veem como possíveis vítimas naquelas localidades, naquelas ocasiões.

Por que se sensibilizam com a escola norte-americana, mas não com o hospital da Síria? Mesmo motivo. Brasileiros idealizam o “sonho americano”. Acreditam que os Estados Unidos são o melhor lugar do mundo, exemplo de civilização, sonho de consumo.

Agora, quanto à Síria… “Sério mesmo? O que que esse pessoal ainda está fazendo por lá?” … Como se não tivessem tentado fugir da guerra… Como se tivessem encontrado países vizinhos totalmente dispostos a ajudá-los…

Quem não se sensibiliza com o porquinho que morreu para que seu bacon chegasse à mesa, é porque não enxerga o porco como um animal de estimação. Sua mente foi moldada para enxergar vacas, galinhas, porcos e afins, não como animais, mas sim como alimento!

[A língua inglesa é terrivelmente dissimulada nesse sentido! Em inglês, ninguém diz que come carne de vaca, galinha ou porco, como fazemos em português. Eles tem nomes específicos para essas carnes, distintos do nome do animal e sem qualquer referência à palavra carne. Beef, chicken, pork – o nome que se dá a carne de vaca, galinha, porco – isso é o que os ingleses comem. Eles não comem cow, hen, pig, que é o nome que se dá aos animais. Excelente forma de mascarar a realidade…]

E o mesmo vale para quem condena o aborto, o casamento gay, a liberação das drogas, a defesa dos direitos humanos. Quem defende a liberação do porte de armas, pede a volta dos militares, diz que “torturou é pouco” e que “bandido bom é bandido morto”, e assim por diante. Esses pensamentos não são apenas extremistas ou intolerantes. Não vêm apenas da falta de amor. Eles têm origem na falta de empatia.

Porque quem condena o aborto, não consegue enxergar os motivos que levaram aquela mulher a tomar tal decisão.

Quem condena o casamento gay, não consegue enxergar que existe amor entre duas pessoas, que querem viver juntas e reivindicar seus direitos como qualquer outro casal.

Quem condena a liberação das drogas e acha que defender direitos humanos é defender bandido, é porque não consegue imaginar-se condenado por algum crime que possa vir a cometer, ou por mero engano. E a empatia não é capaz de se estabelecer nessa situação, porque o indivíduo acredita que, se algo assim acontecer, poderá se defender e, como cidadão do bem que é, provará sua inocência – ou que agiu em legítima defesa – e será justamente inocentado.

E ainda vem e pleiteia a liberação do porte de armas para defesa própria, porque não consegue se colocar no lugar de todos os outros que não terão esse privilégio. E também porque acredita que, como é mais inteligente e mais bem preparado que o bandido, e porque é um cidadão de bem, protegido pelas forças divinas, terá sempre vantagem sobre o malandro pé-de-chinelo em um eventual confronto armado.

Empatia é isso. É colocar-se no lugar do outro, tentar entender seus motivos. E ao entender o motivo do outro, ao entender a realidade do outro, fica mais fácil definirmos as batalhas que queremos travar. Porque uma pessoa pode ser branca, vinda de uma família de classe média, com bom nível de escolaridade e bom emprego, morando na segurança de seu lar, e ainda assim enxergar beleza e mérito nas conquistas de minorias, lutar por justiça social e acreditar em um mundo mais humano. E isso não significa ser “de esquerda” ou “Petralha”, como dizem por aí. Isso significa ser empático.

Andre L Braga tem formação em Coaching & Mentoring pelo Instituto Holos, embora não exerça profissionalmente tal função. Atua em finanças em uma multinacional de bebidas não-alcoólicas. Agradece a dica de tema para este texto, e para os próximos que virão em março, recebida da Milena, futura mamãe do Heitor.

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