O poder do diálogo

“As opiniões não são verdades, pois não resistem ao diálogo crítico.” – Sócrates

Queria, um dia, poder bater um papo com Mark Zuckerberg. Ele mesmo. O criador do Facebook. Queria poder dizer-lhe que sua mídia social não é de toda culpada pela falta crônica de diálogo que vivemos nos tempos modernos. Não fosse o Facebook, seria a televisão. Ou o jornal. Ou o rádio. Nunca nos faltou uma desculpa para nos trancarmos em nossos mundos, cortarmos o diálogo com a pessoa ao lado, limitarmos nossas ideias ao que nos é familiar e tacharmos de feio, ridículo ou imbecil, tudo aquilo que não está alinhado com nossas crenças. Como dizia Caetano, “porque Narciso acha feio o que não é espelho.”

Queria, um dia, poder tomar café com Silas Malafaia e Marco Feliciano. Perguntar-lhes por que a religião condena. Por que a religião aprisiona. Por que a religião segrega. Perguntar-lhes por que a leitura da Bíblia é seletiva, por que se explora aquilo que lhes é favorável e se ignora a base do cristianismo, que está resumida em nada além de 10 mandamentos? Talvez porque o décimo mandamento, não cobiçar as coisas alheias, não combine muito com a venda, a preço elevado, de um pedacinho do céu depois da morte?

Queria, um dia, poder jantar com Donald Trump. E com Kim Jong-un, da Coreia do Norte. E com Abu Bakr al-Baghdadi, do Estado Islâmico. Todos juntos, ao mesmo tempo, sentados à mesma mesa. Queria entender a quem eles servem. E se o fazem de forma consciente, ou apenas alimentam os barões da indústria de armamento por realmente acreditarem em suas causas. Porque mesmo o ditador norte-coreano não é auto-suficiente, em termos tecnológicos, para desenvolver seus brinquedos atômicos sem ajuda internacional.

Queria fazer tudo isso, e um pouco mais. Mas sei que não dá. Não porque não tenha os contatos certos para poder me reunir com eles – o que também é verdade – mas porque o mundo não está aberto ao diálogo. Como diz o Tears for Fears naquela canção, “todo mundo quer mandar no mundo”. E para mandar no mundo, a gente tem que se impor, não é mesmo?

“É impossível estabelecer um diálogo racional com alguém a respeito de crenças e conceitos que não foram adquiridos por meio da razão.” – Carlos Ruiz Zafón

Já cansei de comentar em posts no Facebook. Nunca sai do jeito certo. Você tenta estabelecer um diálogo, e logo vem uma patada. Você tenta expor seu ponto de vista, e logo vem um rótulo qualquer. Você tenta falar de ciência, e logo vem a crença que cega. E assim rasgamos o Evolucionismo. E assim organizamos congressos para debater a terra plana. E assim nos acomodamos e aceitamos a vida como ela é, porque foi assim que Deus quis que fosse. Porque você tem o livre arbítrio pra fazer o que bem entender, mas tudo isso não importa, porque Ele tem um plano e está tudo escrito pra você. Contraditório, né?

“O diálogo se dá entre iguais e diferentes, nunca entre antagônicos.” – Moacir Gadotti

Já fui a congresso do PC do B e votei no Roberto Freire, depois me tornei legionário do PSDB e hoje me encontro em uma posição política que classificaria como social-libertária. Já curti punk e metal, passei pelo rock progressivo e hoje estou mais pro indie-pop britânico. Cresci em uma família católica, experimentei o espiritismo e hoje sou praticante do budismo. Queria ter uma arma de fogo aos 16 e hoje sou contrário ao armamento da população. Já fui geek, programei em linguagens pré-históricas e rodei Linux no meu PC, e hoje uso a tecnologia em meu favor, ao invés de viver em função dela.

E como foi que tudo isso se transformou, como foi que mudei tanto de opinião? Está me achando a pessoa mais volátil do mundo, né? Mas não é nada disso. Mudei por conta do diálogo. Por estar aberto ao diálogo. Aberto à opinião do outro. Por escutar os argumentos de quem sabe e quer dialogar, ao invés de impor sua visão e tachar todos que se posicionam contrariamente de burros, ignorantes ou outros adjetivos mais pejorativos.

Até que um dia a gente acaba perdendo a paciência e fecha a porta ao diálogo com quem não sabe dialogar. O que é uma pena. Porque acredito no poder do diálogo, mas às vezes acabo cortando o papo no meio pra não desgastar mais a relação. Porque, como já disse Leandro Karnal, “não bata tambor pra maluco dançar”

Andre L Braga tem formação em Coaching & Mentoring pelo Instituto Holos, embora não exerça profissionalmente tal função. Atua em finanças em uma multinacional de bebidas não-alcoólicas. Adora uma boa conversa sobre ideias e fatos. Mas gosta mesmo é daqueles que sabem defender seus pontos de vista de forma consistente, que conectam fatos e crenças, ciência e valores. Defender pontos de vista de forma seletiva, como dizer-se cristão mas defender a pena de morte, não é algo que valoriza em seus interlocutores.

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