Uma montanha-russa de sentimentos

“Meus sentimentos são tão confusos que nem ouso mais dizer o que sinto, com medo de errar, novamente!” – Beatriz Shibuya

Sabe aquela velha piada sem-graça sobre TPM e mudanças de humor? Dizem que é por conta dos hormônios. Se isso é mesmo verdade, com respaldo científicos e tal, então deveria ter sido estudado no auge de minha instabilidade emocional. Sou um homem que sofre de TPM – pelo menos no que tange às mudanças súbitas de humor. E se hoje estou melhor, isso é apenas uma condição passageira, que requer auto-controle e uma boa dose de auto-conhecimento, e tudo isso suportado por doses de terapia.

Só quem passa por mudanças frequentes de humor, sabe o quanto isso é prejudicial. A gente sofre por não saber separar nossos problemas de nossa existência. Sabe aquela famosa frase, “penso, logo existo”? Para quem tem humor oscilante, a frase deveria ser “tenho problemas, logo existo”. Em estágios mais avançados, a frase pode se converter em “existo, logo sou um problema”. Não é fácil viver assim, com toda essa cobrança, essa insegurança, esse pensamento obsessivo que nos faz crer que todos os problemas do mundo são nossa culpa, e que nada acontece por outro motivo, senão por nossa causa. É uma mistura explosiva de arrogância extrema e baixa auto-estima. É como se o mundo todo girasse ao nosso redor, e tudo de errado a nossa volta fosse por conta de nossa incapacidade de manter as coisas sob controle. É como se fôssemos deuses frustrados por não podermos controlar o universo que criamos. Arrogância e culpa.

“Não sei se fico ou sumo, se insisto ou desisto, se espero ou supero. O sentimento não poderia ser mais bonito, mas a confusão tem minha cara.” – Heitor Levinski

Mas a coisa toda muda ao aprendermos que não temos o menor controle sobre absolutamente nada nesta vida. É a velha história da impermanência de todas as coisas, o conceito que todo mundo já escutou em alguma conversa de botequim que partiu para o lado do budismo – e sempre acaba rolando algum papo-cabeça em conversas de botequim. Nada é permanente, tudo passa, e a gente precisa aprender que a vida é assim. Seu sucesso no trabalho depende de você, mas não apenas de você. Seu sucesso no trabalho é uma combinação de esforço pessoal, a ação certa no momento certo, alguém que foi com a sua cara, a cor da roupa que você usava no dia em que foi observado por aqueles que te promoveram, a comida que serviram no refeitório no dia em que foi entrevistado pelo seu novo empregador, o sol maravilhoso que saiu naquele dia de inverno. Enfim, sua influência para seu sucesso pode parecer imensa aos seus olhos, mas foi apenas uma pequena variável em um universo de variáveis sobre as quais você não tem o menor controle ou sequer a mínima influência. A vida é impermanente, acostume-se com isso e viva feliz.

Uma vez que a ilusão do controle é removida, cabe a você pensar que a vida acontece no presente, e que o tempo presente é apenas uma pequena fração em relação a toda a sua vida até então. Digo “até então” porque nossas próprias vidas, assim como tudo no universo, são impermanentes e podem deixar de existir como tal em uma questão de segundos.

E é quando colocamos nossa existência em uma linha do tempo que vemos que podemos resumir cada ano de nossas vidas em um único grande evento, e praticamente todo o resto se torna menor, quase que insignificante. Ainda que, quando aqueles eventos de menor importância aconteceram, nossas reações possam ter sido exacerbadas, indo do inferno ao paraíso e ao inferno de novo, em intermináveis ciclos de altos e baixos.

É como aquela velha retrospectiva de fim de ano na TV. Muita coisa aconteceu ao longo do ano, mas apenas alguns poucos acontecimentos marcantes são destacados, condensados em uma hora de programa. E depois de algum tempo, a gente vai se lembrar apenas de um ou outro acontecimento.

Assim é a vida. Idas e vindas ao céu e ao inferno. Mas, no fim, pouco nos lembraremos das viagens rápidas, das pequenas passagens a passeio, e apenas ficará aquilo que realmente nos marcou. Um acontecimento por ano. Porque todo o resto se torna pequeno frente aos grandes eventos que marcaram nossas vidas. E mesmo aqueles eventos, os que realmente nos marcaram, eles já ficaram em algum lugar do passado – e de nossas mentes. O que vale, afinal, nesta vida de impermanências, é o que acontece neste exato momento.

Porque o que sentimos no passado, por lá ficou. E o que sentiremos daqui a um segundo, ainda não sabemos. E tampouco poderemos controlar.

Andre L Braga tem formação em Coaching & Mentoring pelo Instituto Holos, embora não exerça profissionalmente tal função. Atua em finanças em uma multinacional de bebidas não-alcoólicas. Estava feliz ao escrever este texto, tomando uma taça de vinho, enquanto sua esposa assistia “Crossing Lines” no Amazon Prime Vídeo.

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