Pra tudo o que for conselho, dê de ombros.

Porque conselho só é bom quando avaliza as decisões que já tomamos, não é mesmo?

 

Diz a lenda que um jovem ‘lifestyle coach’ caminhava pelos campos áridos da região de Nazca, no Peru, quando avistou um velho senhor, tido como sábio pelos moradores do vilarejo de Pisco.

Ali estava ele, joelhos no chão, cavando um buraco com as mãos. Levava consigo um saco com mudas de árvores.

“Boa tarde, senhor!” – saudou-lhe o jovem. “Vejo que planta mudas de árvores nestes campos áridos, cavando pequenas covas com as próprias mãos, sob forte sol da tarde, e sequer trouxe consigo um pouco d’água, seja para si próprio, seja para regar as mudas após o plantio.”

O senhor seguiu trabalhando, como se o rapaz não estivesse ali falando com ele.

“Por que perde seu tempo, plantando mudas que não vingarão, e ainda o faz sem qualquer instrumento que o auxilie nessa tarefa infrutífera?”

O senhor parou o que estava fazendo, olhou para o rapaz e lhe disse, com toda a segurança que somente anos de vida podem trazer ao homem:

“A terra é minha, as mudas são minhas, assim como as mãos. O tempo também é todo meu, e minha é a decisão acerca do que fazer com ele. Então cuida da sua vida, que eu cuido da minha.”

 

Às vezes somos o jovem coach, outras vezes somos o velho sábio.

Quantas vezes damos conselho aos outros, e quantas vezes mais bradamos aos quatro ventos que “pagar nossas contas, ninguém quer pagar”? Ou ainda que “vou cuidar da minha saúde, porque da minha vida já tem um monte de intrometido querendo cuidar”?

Parece que a coisa é sempre assim. Temos as melhores sugestões para resolver tanto os problemas dos outros, quanto os nossos próprios. Oferecemos conselhos, muitas vezes gratuitamente, enquanto alguns cobram por suas horas de consultoria. Mas aceitar conselho, isso normalmente temos grande resistência em fazê-lo. Exceto quando buscamos um conselho que ratifique a escolha que, consciente ou inconscientemente, já tomamos antes mesmo de termos aquele bate-papo com nosso ombro amigo.

Quantas vezes já ouvimos que não devemos beber e dirigir? Levamos a sério ou damos de ombro? O mesmo vale pra’s tantas vezes que nos disseram pra não usar o celular ao volante, muito menos pra ler ou mandar texto.

Quantos foram os conselhos pra que não briguemos por coisa à toa? Faltou alguém definir o que à toa vem a ser, exatamente.

Quanta gente já disse o que fazer pra ter sucesso na vida? A gente lê, acha super bacana, pensa em fazer o mesmo, e esquece dali dois ou três dias.

E aquela dieta que sempre começa, de novo, toda segunda-feira?

E aquela cerveja a menos, ou aquele quilômetro a mais de corrida, ou aquele minuto a menos por quilômetro?

E a leitura seletiva da Bíblia ou de qualquer outro texto sagrado que se aplique a nossa religião?

Não adianta. A gente agradece os conselhos que nos fazem sentir bem com a gente mesmo, que suportam aquilo que pensamos e queremos fazer de nossas vidas. Mas a gente finge que não é com a gente quando o conselho conflita com nossos desejos.

Somos animais movidos pelos desejos, isso é o que somos.

E somente seremos capazes de apreciar o valor de um bom conselho quando pararmos de ceder à tentação de ficar dando conselhos aos outros.

(Então desculpa aí. Não tenho mais nada a lhe dizer.)

 

Andre L Braga tem formação em Coaching & Mentoring pelo Instituto Holos, embora não exerça profissionalmente tal função. Atua em finanças em uma multinacional de bebidas não-alcoólicas. Seguindo conselhos, acabou separando os textos que publica aqui no blog daqueles que publica no Medium. A segmentação seria com base no teor dos textos. Mas como não sabe seguir conselhos à risca, resolveu copiar este texto do Medium aqui no Currículo de Vida. Dessa forma, prova a si mesmo que sua visão acerca de conselhos estava certa – afinal, conselho bom é conselho alinhado com aquilo que acreditamos…

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