O dia que Nancy Hauers escreveu por minha mãe

Foi uma espera sofrida. Sofrida, sim, mas recompensadora. Não poderia partir sem antes ser apresentada à filha do seu filho caçula.

Lara nasceu em dezembro. E ela, hospitalizada, a saúde fragilizada. Mas voltou pra casa, tudo pra poder ver sua neta mais nova. Era a sensação de dever cumprido. Passado pouco mais de um mês, ela se foi.

Na foto colorida, o mais próximo da lembrança que uma criança, nos seus primeiros meses de vida, a vista embaçada, ainda aprendendo como usar seus olhos, poderia ter de sua avó. Se bem que, acredito, suas lembranças se baseiam mais em fotos que em fatos. Ela, Lara, não deve ter lembranças daqueles breves encontros entre dezembro e janeiro.

Na foto em preto-e-branco, uma criança em seu colo. Alguma de minhas irmãs, talvez a mais velha. Mas sendo a genética nada menos que a mágica de se transferir um pouco da gente para o futuro, arriscaria dizer que aquela menina carrega um pouco da Lara em si. Lara que viria ao mundo décadas depois, de pais que sequer existiam quando registrou-se aquele momento.

Aquela foto em preto-e-branco estava em uma das muitas caixas de sapato, no guarda-roupas velho, de madeira de lei, que adornava aquele quarto, o último deles, ao final do corredor. Aquela casa não era das mais velhas, mas apresentava evidentes sinais de desgaste. Tinha sua estrutura sustentada por amarras metálicas, depois que encanamentos se romperam e cavaram um enorme buraco em seu alicerce.

A casa, o guarda-roupas e ela. Os três apresentavam sinais de desgaste. Os três, sobreviventes de anos de sofrimentos e testemunhas de anos de felicidades. Até que pra ela não deu mais. Tal qual a casa, com seus encanamentos rompidos, ela também suportou inúmeros acidentes vasculares cerebrais. Inúmeros. Mais de um num mesmo dia, diziam os médicos. Mas as fortes amarras do amor entre os dois a mantinha firme, fosse qual fosse a forma que pudéssemos definir tal palavra. Não era mais firme de corpo. Mas seguia firme em sua vontade de viver. Pelo menos até sentir sua missão cumprida nesta vida.

E ela se foi, deixando como herança sua força, sua perseverança, e umas caixas de sapato, recheadas de fotos antigas. E, no meio das fotos, um recorte de jornal. “Por toda eternidade”, se lia no topo daquele recorte, assinado por Nancy Hauers.

Impossível ler aquele texto e não dar-se conta que aquela era a carta que Nancy escreveu por ela. Isso mesmo, por ela. Não para ela. A carta era dela, minha mãe, para meu pai. Nancy tão somente a escreveu. Como se fosse um favor a uma amiga que nunca chegou a conhecer.

Minha mãe teve um mínimo de alfabetização. Quase iletrada. Mas Nancy não. Ela faz escrever. E ali, naquele recorte de jornal, traduziu tudo que minha mãe escreveria a meu pai, caso soubesse fazê-lo.

Este é o poema da Nancy, o poema que escreveu por minha mãe, ainda que não faça a menor ideia de tê-lo feito.

 

Porque poetas são assim mesmo. Escrevem aquilo que sentimos, mas não temos tamanha sensibilidade para traduzir em palavras. Poetas são como médiuns dos vivos, psicografando nossos sentimentos mais profundos.

Seis anos mais tarde, e foi a vez de meu pai. Ele, tal qual minha mãe, esperou pela neta mais nova – minha mãe não podia esperar o incerto, a gente sempre dizia que Lara ia ser filha única. Esperou, curtiu um pouco, e depois se foi. Em uma tarde de dezembro. Muito perto do Natal. Dezembro pode até parecer um mês amaldiçoado para muitos. Mas pense bem. Quer forma mais sutil de celebrar o Natal, que enviando alguns anjos a mais para os céus?

 

E quando ele se foi, não tinha mais caixa de sapatos. Não tinha poema escondido. Mas tinha um caderninho de anotações. E tinha suas economias. Ao que tudo indica, guardava dinheiro para visitar sua neta mais nova na Holanda. Mas sua esposa pediu que fosse juntar-se a ela nos céus, que já não aguentava mais esperar. E ele então se foi.

Porque assim dizia o poema de Nancy Hauers: “Deixa que eu me vá antes, porque, dependo tanto de ti, logo virás ao meu encontro.”

Pois ele se foi. E hoje estão juntos novamente. Por todo o sempre.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.