Por que o Brasil não vai virar Venezuela

( pelo menos não tão cedo )

Dentre as ameaças mais batidas destas eleições, está aquela que afirma que, se não tirarmos a esquerda do poder, o Brasil vai virar uma Venezuela. Porque esse é o plano do Fôro de São Paulo: transformar os países da América Latina em um grande bloco comunista.

Não quero discutir aqui a clara necessidade de se extirpar a corrupção endêmica que devasta nosso país, a qual, infelizmente, não vem de um único espectro ideológico ou partido. Verdade seja dita, o Partido dos Trabalhadores se especializou nesse quesito, mas nunca agiram sozinhos, muito menos foram eles quem criaram esse mal. Se especializaram, dando ares megalomaníacos à coisa toda, mas não são os únicos com as mãos sujas. Infelizmente. Senão a solução para o problema seria muito mais simples.

O que quero salientar é que essa coisa do Brasil virar Venezuela é tão lenda urbana quanto aquela história da loira do banheiro, ou então da gangue especializada em roubar órgãos, deixando as vítimas em banheiras cheias de gelo.

Tive contato próximo à Venezuela, ao longo de quase uma década, por conta de meu trabalho. Vi a deterioração econômica do país, ano após ano, entre 2008 e 2017. E, embora não seja especialista em política internacional, posso contar-lhes o que vivi, assistindo um negócio próspero e lucrativo se tornar nada além de um prédio, maquinaria e instalações abandonados, além de um número significativo de gente desempregada. O resto, vocês podem ver nos jornais, ou em vídeos apocalípticos compartilhados no Facebook.

A primeira coisa a se ter em mente: Hugo Chavez chegou ao poder com apoio dos militares. Foi golpe frustrado de início, daí foi preso, saiu da prisão dois anos mais tarde, fundou seu partido e foi eleito presidente. E depois, levou o Congresso a mudar a Constituição, com o apoio dos militares, permitindo-lhe reeleição ad-eternum. Não se comete tamanhas atrocidades à democracia sem apoio das forças armadas. Simplesmente não.

Depois, vale lembrar que a força econômica de Chavez residia no petróleo, na figura da estatal Pedevesa. Nossa Petrobras passa longe de ser uma Pedevesa. Não somos dependentes do petróleo como única fonte de renda para o país. O Brasil tem outras riquezas. A Venezuela tinha apenas o petróleo. Ou melhor, decidiu abandonar outras riquezas para depender exclusivamente do petróleo. Isso quando o barril estava na casa dos US$ 120, e o custo de produção girava em torno de US$ 80. Esse era o motivo de Chavez fazer chacota dos americanos. Ele, Chavez, tinha dinheiro. Apenas desprezou o fato de que a cotação internacional do petróleo não é determinada única e exclusivamente pela produção da Pedevesa. E, quando o barril do petróleo caiu para cerca de US$ 40, o castelo de Chavez começou a desmoronar. Brasil tem sua Petrobras. O PT fez uso indevido dessa empresa de capital aberto, cujo acionista controlador é o governo brasileiro, a ponto de quase levá-la à falência. Ainda assim, a quase falência da Petrobras não transformou o Brasil em uma Venezuela. Piorou a situação geral, não há como negar. Mas não nos fez Venezuela. Porque nossa economia é muito mais que a Petrobras.

Naquela época de vacas gordas, Chavez criou uma espécie de Bolsa-Família, muito mais rica que a nossa, e distribuída “em mãos” pelo próprio Chavez. Chamavam de “misiones”. Chavez seguia em comitiva pelo país e entregava o dinheiro do Bolsa-Família deles às novas famílias integradas ao programa. Assim, aumentava sua popularidade, e fazia crescer o apoio a seu nome. E isso acontecia sempre perto de momentos críticos à política do país. Seria, tipo assim, o Lula indo entregar o primeiro pagamento do Bolsa-Família a novos beneficiários, aos montes, semanas antes das eleições para prefeito naquelas localidades em que o partido dele estivesse em desvantagem e precisasse de um apoio extra. Era assim que o esquema funcionava. Nosso Bolsa-Família, ainda que cheio de falhas, não chegou a tal requinte.

Outro detalhe era o valor do benefício. Lembro-me que era muito, mas muito difícil contratar operadores de empilhadeira para o armazém da empresa, pois o salário que se pagava era de 1.200 Bolívares, enquanto que o benefício social era de, no mínimo, 900 Bolívares. No Brasil, o salário mínimo é dez vezes maior que o benefício social. Na Venezuela, o benefício era quase que equivalente ao salário que se pagava a um operário. Se há quem diga, injustamente, que Bolsa-Família é fábrica de preguiçosos, imagina como classificariam os beneficiários do programa dos venezuelanos? O cenário social, nesse sentido, é muito diferente entre o Brasil atual e a Venezuela em seus tempos áureos.

Quando a situação ficou desfavorável, por conta da queda vertiginosa do preço internacional do barril do petróleo, o governo chavista começou a manipular as taxas de câmbio. Enquanto que o câmbio comercial era algo ao redor de dois bolívares por dólar, e o banco central impunha restrições de remessas de recursos ao exterior, havia um mecanismo paralelo, porém legal, para pagar fornecedores de produtos importados. Empresas podiam comprar Títulos do Governo, ao preço de sete ou oito bolívares, e trocá-los por dólares. Assim, era esperar pela liberação de câmbio a taxa oficial, e consequentemente perder negócios, ou pagar um ágio de mais de duzentos por cento, que ia direto para as mãos do governo. E, com o passar do tempo, os Títulos do Governo passaram dos sete, oito bolívares, para astronômicos vinte, trinta bolívares. E o resto é previsível. Negócios com fornecedores internacionais se tornaram insustentáveis, o comércio local amargando prejuízos imensos, pressões inflacionárias como apenas os nascidos no Brasil dos anos 70 ou antes puderam vivenciar. E aí chegamos aos vídeos apocalípticos compartilhados neste período de campanha eleitoral.

Não vamos virar Venezuela. Parem de fazer alarde. Mas precisamos, sim, romper com esse ciclo de corrupção e medidas equivocadas. Precisamos de políticos sérios no comando na nação. E não políticos que se assemelhem ao Hugo Chavez da Venezuela. E os dois que aparecem a frente nas pesquisas tem tudo que Hugo Chavez teve. Então, ao que parece, os eleitores estão se matando apenas para ver quem vai eleger o Presidente que vai conseguir o impensável: fazer o Brasil virar uma Venezuela, apesar de todas as diferenças de contexto.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.