Ten | Pearl Jam

Quer melhor forma de começar esta série sobre álbuns pra se ouvir de ponta a ponta que com aquele que é o mais vendido álbum de minha banda favorita? O primeiro álbum do Pearl Jam, “Ten”, ultrapassou a marca de 10 milhões de cópias e rendeu-lhes 13 discos de platina.

Não posso dizer que “Ten” seja meu álbum favorito, até porque a maioria dos álbuns do Pearl Jam conseguiu o feito de manter um pé nas raízes do “grunge” de Seattle, outro na experimentação de outros estilos. Tente comparar “Vitalogy” com “No Code”, ou este último com “Binaural”, e compreenderá o que estou tentando dizer.

Mas a proposta desta série é de falar sobre álbuns pra se ouvir de ponta a ponta, e “Ten” é, sem dúvida alguma, o trabalho de estúdio do Pearl Jam que merece encabeçar essa lista. Então vai lá no Spotify, ou no seu serviço de streaming favorito, e digita “Pearl Jam Ten”. Ou, se tiver o álbum em casa, como é o meu caso, melhor ainda! Põe ele pra rodar, viaja no som enquanto lê os comentários abaixo, e depois me diz se concorda (ou não) que “Ten” é o trabalho do Pearl Jam que merece ser ouvido de ponta a ponta.

(Só não falo pra dar uma olhada no encarte do CD porque este veio absolutamente pobre, contrastando com a arte rica em detalhes, característica de todos os outros álbuns deles. Por mais bizarro que possa parecer, o encarte da fita cassete é mais rico em detalhes que aquele do CD lançado no Brasil…)


1. Once

A música de abertura do álbum é, de fato, a segunda parte de uma trilogia composta por Alive, Once e Fooststeps, esta última lançada no álbum de B-Sides “Lost Dogs”. A trilogia conta a história de um garoto que descobre que seu pai biológico não era seu pai de criação (falaremos disso mais tarde); perde o controle sobre seus atos, tornando-se um serial killer (“Once”); e acaba preso, pondo a culpa no peso que carrega após descobrir a verdade sobre seu pai (“Footsteps”).

O instrumental que antecede Once retorna no final do álbum, dando um ar de abertura e encerramento ao trabalho.

O peso da música combina perfeitamente com a letra. Será que esse é o som que ecoa na mente de alguém que comete o primeiro de muitos crimes, assassinando aquela antiga paixão que vivia na rua de trás?

2. Even Flow

Seguindo o peso musical de Once, mas com uma pegada mais “grunge”, guardando semelhanças com a sonoridade do Soundgarden, por exemplo.

A letra da música fala sobre como é viver sem um teto, os pensamentos flutuando entre realidade e delírios perturbadores, que chegam como borboletas e são enxotados dali. Embora não faça parte da trilogia de Once, encaixa perfeitamente na história que o álbum quer contar. Esse sem-teto poderia muito bem ser o jovem que acabara de cometer seu primeiro crime contra a vida de outrem.

3. Alive

Considerado ponto alto do álbum para alguns dos fãs, incluíndo eu, Alive é a famosa música em quase que uma nota só, cuja letra conta a história de vida de Eddie Vedder, vocalista da banda. Tem um vídeo super bacana, no qual ele agradece aos fãs por terem ajudado-o a exorcizar os demônios que lhe rodeavam a mente por conta dessa música, que considerava ser sua maldição, mas que se transformou em uma benção.

Se você toca um instrumento musical, gosta de rock dos anos 90 e ainda não aprendeu a tocar Alive, você precisa rever os seus conceitos! Tocá-la tem o poder de trazer-lhe o atual sentido do refrão, e fazê-lo agradecer por estar vivo.

4. Why Go

A personagem vai agora do serial killer para uma garota internada pela mãe em um clínica psiquiátrica. A tensão da garota é sentida nos confusos riffs da guitarra. Eddie Vedder, com sua voz trêmula, consegue como ninguém transmitir a raiva que ela sente por estar ali, condenada ao martírio do exílio, enquanto sua mãe concorda com a decisão médica de que ali é seu lugar.

Pearl Jam parece gostar desse trânsito livre na cabeça do adolescente com transtornos de personalidade por conta de traumas inflingidos pelos seus familiares.

5. Black

Pra quem gosta de baladinha, esta é a versão sombria do Pearl Jam para o rock romântico. Black briga pelo posto de melhor música do álbum, sob o ponto de vista do público em geral. A canção atingiu o terceiro lugar na Billboard em 1993, juntamente com Even Flow, enquanto que Jeremy foi a primeira canção da banda a atingir o primeiro lugar. A energética Alive não passou da 16ª posição.

A letra fala de um homem e seu coração partido, por conta de seu amor que o abandonou. Seria novamente o serial killer, cuja primeira vítima foi a garota pela qual se apaixonou na adolescência?

6. Jeremy

Maior sucesso de Ten, a canção foi impulsionada pelo momento de violência escolar vivido nos Estados Unidos dos anos 90 – parece-me que não era apenas um momento, diga-se de passagem – e as perturbadoras imagens em seu videoclipe, exibido à exaustão pela MTV.

Bullying? Descaso parental? Violência doméstica? Crianças sem limites? Armas na mochila? Chacinas? Tem tudo isso e muito mais. Será que o alterego do rapaz de Alive se chamava Jeremy, e desde há muito tempo sonhava em sair matando todos que tentassem barrar seu caminho?

7. Oceans

Momento de reflexão do álbum, quando a violência das guitarras distorcidas e vocais raivosos são trocados pela inflexão da percussão ritmada e dos vocais melancólicos.

A letra soa como um retorno às lembranças de Black, e mostra um jovem que acredita que o amor pode voltar a florescer. Assim como as correntes marítimas mudam seu curso, o amor que se foi pode um dia retornar. Porque ele acredita que algo ficou no ar, dando-lhe esperança para sonhar com o que ainda há por vir.

8. Porch

Quando parece que a coisa toda ficou calma, hipnotizados pelas ondas do mar, vemos todo aquele momento introspectivo se desfazer na violência de Porch. A música praticamente não tem introdução sonora, o silêncio entre as faixas quase que se rompendo com um Eddie Vedder questionando a merda de mundo que é este aqui em que vivemos. Mas o que falta de introdução, sobra de trechos instrumentais sem vocais.

Sabe aqueles vídeos de apresentações ao vivo, em que Eddie Vedder escala as instalações metálicas do palco? Normalmente são durante os longos instrumentais desta música.

Porch é aquele momento em que cai a ficha. Não tem mais volta. Aquele relacionamento de Oceans, aquele para o qual ainda havia esperanças, na verdade não há. Escuta meu nome, olha bem pra mim, porque este pode ser o dia (…) que não nos tocaremos nunca mais.

9. Garden

Esta canção quebra as conexões entre as letras das oito primeiras músicas. Garden é sobre a Guerra do Golfo, quando os Estados Unidos invadiram o Kuwait em 1990.

Caminharei com minhas mãos atadas, meu rosto coberto em sangue e a sombra de minha bandeira, adentrando o Jardim de Pedras.

A letra mostra uma outra cara do Pearl Jam, que foi se fortalecendo ao longo do tempo: o ativismo político, e suas evidentes críticas ao Partido Republicano.

10. Deep

Penúltima faixa do álbum, Deep começa com fortes riffs de guitarra, que se confundem com longo e distante grito de Eddie Vedder. A insanidade está de volta como tema central, desta vez impulsionada pelas drogas.

Deep vem como um mergulho. Um mergulho da agulha nas veias. Um mergulho nas profundidades do indivíduo, aquele que não é capaz de tocar o fundo de sua própria alma, por mais que se esforce. E ele testa seus limites, e se sente superior aos outros, e já não sabe o que é realidade e o que é delírio.

E há menção a uma faca, e àquele que está “limpo” – no sentido de estar livre das drogas – naquele Natal, e a visita da virgem… Teria ele se suicidado? Mas há quem interprete o último trecho da letra como um viciado encontrando em uma prostituta a única companhia para aquela noite de Natal.

Quem pode realmente saber? Afinal, aquele rapaz estava claramente sob efeito de drogas… Então pode ser qualquer realidade que ele queira imaginar…

11. Release

O álbum fecha com um suspiro. Release é aquele último espasmo, depois de tanta energia consumida nas 10 faixas anteriores. A letra é uma carta de Eddie Vedder a seu pai biológico. É o desfecho perfeito para o jovem em conflito, que era assombrado pela maldição musicada em Alive e que idealiza uma vida no crime, recheada de conflitos amorosos e regada a drogas. Como sugere o título, trata-se da libertação do jovem Eddie de seus traumas.

Oh, meu querido pai; você pode me ver agora; sou eu mesmo; de certa forma, como você.


Por que acho que este álbum fez tamanho sucesso? Porque combina a energia da juventude e seus problemas, com uma história bem amarrada e que pode muito bem ser a história de muitos outros jovens, seja essa história real ou idealizada. Porque é natural da juventude exagerar o tamanho de seus problemas, fazer tempestade em copo d’água ou reagir de forma desproporcional a suas frustrações.

A melhor coisa que Pearl Jam fez depois de “Ten”? Não tentar fazer outro “Ten”. A banda manteve suas raízes, mas também soube se reinventar. Deixou seus fantasmas para trás, registrados na forma de um álbum histórico, e criou uma nova banda a cada novo álbum.

“Ten” é, portanto, o número 1 na minha lista de álbuns pra ouvir de ponta a ponta.

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