Ok Computer | Radiohead

Antes de escrever este segundo texto da série, estava em dúvida se seguia minha preferência, enquanto fã da banda, ou se ficava com a visão do público em geral. Qual foi o álbum do Radiohead que se consagrou como seu maior sucesso, e que merece estar aqui nesta lista? Fiquei entre Ok Computer e The Bends, ainda que, como fã, prefira In Rainbows a qualquer outro.

O álbum de 1995 tinha a música do Carlinhos – lembra desse comercial? E tinha High and Dry. E tinha Street Spirit (Fade Out). The Bends foi um álbum ducarái! E a crítica aclamava todas aquelas baladinhas melancólicas, e esse estilo deu o tom pra tantas outras bandas que beberam da mesma água, como Coldplay, Keane e Snow Patrol.

Mas o Radiohead se cansou disso tudo. Como de praxe, jogou fora a segurança do sucesso garantido, da fórmula conhecida, e partiu pro novo. Não deu outra: Ok Computer superou The Bends em vendas e suas três canções mais aclamadas superaram as três baladinhas de sucesso de seu antecessor!

É, os números não mentem. Ok Computer superou, e muito, o álbum anterior, e é por isso que ele entra aqui no No. 2 dos álbuns pra se ouvir de ponta a ponta!

Mas antes de começar a falar das músicas, que tal dar uma viajada no encarte? Diferentemente de Ten, do Pearl Jam, este álbum vem com um encarte muito bacana, cheio de detalhes a serem descobertos.


O encarte

Colagens de imagens e textos de Stanley Donwood se tornaram presença quase que obrigatória nos trabalhos do Radiohead. Dá uma olhada no site dele, e depois visita o Dead Air Space, site oficial da banda. Alguma similaridade? Talvez não logo de cara, porque a página atual não mostra muita coisa; mas clica no “W” estilizado no canto superior direito, e depois em Shop. “Agora sim!” – você deve estar pensando. Ou então, “Onde diabos está esse ‘W’ estilizado?”… Vou te ajudar e te dar o link pra lojinha dos caras então…

O site Encarte Pop trás o encarte na íntegra, caso você não tenha o CD em casa. Aqui vai uma palhinha, e daí então solta o som e segue pros comentários sobre cada uma das faixas deste álbum pra se ouvir de ponta a ponta!


1. Airbag

Tão óbvio quanto o título, a música fala sobre um acidente de carro, e como o airbag salvou a vida do personagem da história. Mas não se trata de qualquer pessoa, mas do próprio vocalista da banda, Tom Yorke, que se envolveu em um grave acidente de carro em 1987 e saiu ileso. Sua namorada não teve a mesma sorte, tendo sofrido uma lesão cervical.

A letra é sobre a sensação de nascer de novo de quem sobrevive a um acidente. É aquela sensação de que o sobrevivente poderia fazer de tudo na vida, já que escapou da morte uma vez.

A música é das primeiras experimentações da banda no campo eletrônico, e as batidas foram fortemente influenciadas pelo trabalho do DJ Shadow.

2. Paranoid Android

A segunda faixa de Ok Computer é, também, o segundo maior sucesso da banda, ficando atrás apenas do mega hit Creep.

[Um parêntesis sobre Creep. A música é tão única que, a primeira vez que a ouvi, foi em um Cinema em São Luís do Maranhão. Cheguei pro Tuti, ex-Maguerbes e atual integrante das bandas Medulla e Violet Soda, e disse algo como: “Ouvi um som, começa lento, só uma guitarra dedilhada e uma batera suave, depois vem um tada-tada e a coisa toda cresce…” – e ele logo de cara disse “Creep, do Radiohead”! E teve versão pro rádio, trocando o f*cking por very. E teve um monte de banda fazendo suas versões da música, essa aí do link é do Korn.]

Os mais céticos podem dizer que Paranoid Android foi um tiro no escuro que, por sorte, acertou o alvo. Como fã, prefiro acreditar que a banda sabia muito bem o que estava fazendo. Porque, convenhamos, mesmo a mais alternativa das bandas pensaria duas centenas de vezes antes de lançar uma música de sonoridade nada convencional para os moldes comerciais, com mais de seis minutos de duração, como faixa de trabalho de seu novo álbum!

Como surgiu? Segundo a própria banda, estavam ouvindo Bohemian Rhapsody do Queen e decidiram compor algo na mesma linha. Acho que conseguiram, não?

Sobre o clip da música, presença obrigatória na MTV na segunda metade dos anos 90, vê-se clara influência gráfica de Beaves & Butt-Head, clássico daquela emissora na época.

Insanidade, violência gratuita, política e capitalismo são alguns dos temas presentes nesta e em outras faixas do álbum. Algumas passagens da letra remetem a uma noite em um bar em Los Angeles, onde Tom Yorke sentiu-se acuado por conta do número de pessoas “noiadas” de cocaína ao seu redor. Você consegue achá-las no videoclipe oficial?

3. Subterranean Homesick Alien

Há quem diga que Radiohead é aquilo que Pink Floyd seria, caso não tivesse sucumbido em brigas internas. Certo ou errado, ficam evidentes as semelhanças desta faixa com os trabalhos mais antigos da banda de Waters, Guilmour, Wright e Mason.

O título foi inspirado não no Pink Floyd, mas em Bob Dylan e sua Subterranean Homesick Blues. E você aí achando que essa coisa de videoclipe com frases escritas em folha de papel era novidade…

4. Exit Music (for a film)

Esta faixa é exatamente o que o título sugere: uma canção pra fechar um filme triste! Mais precisamente, a versão modernex de 1995 de Romeu + Julieta.

Mais tarde, uma versão instrumental apareceu no encerramento de Westland.

5. Let Down

Então. Lembra que disse que eles decidiram parar de fazer baladinhas? Pois bem, ainda não totalmente, ainda não neste álbum… Acho que menti pra vocês…

“Seria legal um encontro entre o Andre que, em um parágrafo, diz que a banda parou de fazer baladinhas, com o Andre que, minutos depois, diz que não é bem assim…”

E o que vem a ser Let Down? Essa é a verdadeira canção “anti-mimimi”! Quando se sentir down, escute esta música no volume máximo e siga em frente! Olha só o que Tom Yorke, vocalista da banda, disse sobre esta canção:

“Sentimentalismo é ser emotivo só pelo fato de sê-lo. (…) Sentir cada emoção que nos rodeia é ser falso.”

Sabe A Metamorfose, de Franz Kafka? A letra é como se o homem que se vê transformando-se em uma barata, por força da opressão dos sentimentos que a sociedade lhe impõe, sentindo-se esmagado e pisoteado, resolvesse se rebelar contra aquilo, seguindo ao próximo estágio da transformação, quando voaria livre sobre as cidades. Seria uma borboleta, ou seria um suicida?

6. Karma Police

Chegamos àquela que se tornou uma espécie de hino da banda: Karma Police. Hino porque esteve entre as mais tocadas, ao longo de oito semanas, no ano de 1997. Foi a quarta música da banda melhor colocada na lista da Billboard, atrás de Creep, Paranoid Android e No Surprises (chegaremos nela daqui a pouco). E hino também por conta da letra, que trata novamente da intolerância e do mimimi. Segue aquela linha do “se não me agrada, merece ser preso, humilhado, levado pra bem longe de mim”. Parece que a banda já previa o que seria do mundo, duas décadas mais tarde…

Polícia do karma, prenda esse cara, ele fala de coisas complexas; prenda essa moça, esse cabelo de Hitler dela me incomoda; é isso que você ganha quando mexe com a gente!

O legal é o uso da palavra karma, que é o velho conceito budista de que toda ação tem reação, e que tudo que vai, volta, ou coisa assim. Aquilo que te incomoda nos outros, é aquilo que você repugna ou reprime em si mesmo… Enfim…

No fim, o protagonista se justifica, dizendo que “perdeu a razão por um momento”; não é assim mesmo quando um sujeito faz besteira em nome de valores éticos?

7. Electioneering

Momento revolta da banda, com o peso que a letra merece, e em ótima hora!

Não vou parar por nada. Direi aquilo que você quer ouvir, quando em campanha eleitoral. Sei que posso contar com seu voto.

Electioneering vem logo após Karma Police, e isso encaixa super-bem nos dias atuais! Criamos uma sociedade intolerante, fazendo-a crer que são superiores aos demais, e então políticos desenvolvem suas campanhas com base no discurso de ódio que lhes levarão ao poder.

Enquanto eu avanço, vocês retrocedem.

8. Climbing up the walls

Aqui temos uma mostra do que viria nos próximos álbuns da banda. A sonoridade sombria, com toques eletrônicos e efeitos de distorção, lembram muito Hail to the Thief.

A letra fala sobre alguém perturbado mentalmente e se sentindo pressionado a fazer coisas que, sob a luz do dia – e da consciência – acabaria não fazendo.

Leve as crianças pra um lugar seguro; fica melhor com as luzes apagadas; estou ali dentro da sua cabeça; e você subindo pelas paredes.

9. No Surprises

Chegamos nela. O terceiro maior sucesso da banda. A baladinha estilo Fake Plastic Tree – você não falou que eles tinham parado com isso? E um videoclipe impressionante, aterrorizante, revelador.

No Surprises é sobre tudo aquilo que te sufoca, te atormenta, tudo aquilo para o qual você precisa ou sucumbir, ou se libertar.

Um coração cheio feito depósito de lixo; um trabalho que te mata pouco a pouco; feridas que não vão sarar; você aparenta estar cansado, infeliz; derrubem esse governo, ele não nos representa; vou viver minha vida em silêncio…

E o final do clipe? Como você o interpreta? Ele se libertou de forma consciente, ou o alívio vem da interrupção da própria vida? Nesse sentido, No Surprises e Let Down parecem ser uma história conectada à outra.

10. Lucky

Faixa com traços de trilha sonora de filme de cowboy – quem aí se lembra do Lucky Luke? – misturado com um toque épico.

Há clara conexão com a faixa de abertura do álbum, Airbag, mas aqui o sentimento de indestrutibilidade é posto em cheque pelo protagonista, que já não sabe se pode sobreviver a todas as intempérie deste mundo.

Sinto que minha sorte pode mudar; então tire-me daquele acidente aéreo, tire-me de dentro do lago, pois sou seu super-herói, e chegamos ao limite.

11. The Tourist

Fechamento mais que perfeito para o álbum, The Tourist combina a frieza da melodia com a melancolia da letra. É aquela voz interior, dizendo pra gente parar de querer viver tão apressados, diminuir o ritmo e curtir a vida. Não somos turistas neste mundo, temos que vivenciar cada momento, ao invés de andarmos perto da velocidade da luz.

Mas há alguns detalhes nessa história toda…

Primeiro, a frase inicial, “não late pra ninguém mais, apenas pra mim”, faz referência a Farenheint 451, livro no qual um dos personagens compreende a ameaça à vida que a tecnologia pode representar. Vivemos apressados e a tecnologia influencia essa dinâmica.

E tem o lance da conexão da história toda que o disco tenta contar, se fechando muito bem nesta faixa! Você sobrevive a um acidente e se sente imbatível. Logo depois vem o mundo e te mostra a real, que a vida quotidiana é feita de violências gratuitas, e a vida em sociedade tem o poder esmagador de lhe fazer sentir-se como um alienígena em sua própria cidade. Mesmo um simples caso de amor pode ser letal, caso nos deixemos influenciar pelo que nossas famílias e a sociedade em geral têm a dizer a respeito. Nos sentimos mal com nós mesmos, e então descontamos nossas frustrações nos outros. Políticos e empresas se utilizam desses sentimentos fortes que nos rodeiam para trilharem seus caminhos, tentando nos convencer que o fazem em favor dos nossos interesses. Essa pressão psicológica nos leva à loucura, às vezes ao extremo de pensamentos suicidas. Sobrevivendo a tudo isso, vem aquela sensação de fragilidade, de que não somos tão indestrutíveis quanto pensávamos, quando escapamos ilesos daquele grave acidente de carro. E isso nos faz refletir sobre a vida que levamos, a velocidade que nos impomos a nós mesmos, e se queremos seguir sendo turistas ou usufruir de nossas vidas.

Não é fantástico?

O vocalista da banda, Tom Yorke, certa vez afirmou que Ok Computer é o roteiro de um filme. Acho que a história é mais ou menos conforme descrita acima.


Por que este é um álbum pra se ouvir de ponta a ponta? Porque é o menos convencional dos primeiros três trabalhos de estúdio do Radiohead, mas ainda assim mais palatável que qualquer outro trabalho posterior – exceção feita a In Rainbows – pra quem ainda não é fã da banda. Começar a ouví-los a partir dos mais recentes álbuns seria um desafio e tanto para o público em geral, então não recomendo tamanho radicalismo! 😁

Ainda que você não goste, de início, de uma ou outra música, aposto que, ao compreender as conexões e as mensagens, você passará a curtir mais e mais. E não se esqueça do encarte! Tem mais um monte de coisa legal escondida por lá!

Radiohead é isso. É descobrir e surpreender-se. Mas já vou avisando que não me responsabilizo pelos danos causados à suas amizades, quando você tentar explicar que é fã da banda, e todos começarem a te chamar de nerd. Culpe a Fox News pelo bullying

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