(What’s the Story) Morning Glory? | Oasis

Tem certas bandas que dá medo incluir na minha lista de álbuns pra se ouvir de ponta a ponta. Oasis é uma delas. Não porque não mereçam estar aqui, muito pelo contrário! Oasis foi a super-banda de Manchester que veio pra copiar (ooops!), digo, desafiar a hegemonia dos Beatles, aqueles quatro garotos da cidade vizinha, Liverpool.

O problema de falar sobre Morning Glory? reside na reação dos fãs. “Como assim, Morning Glory? Óbvio que não entende nada de Oasis! Definitely Maybe é, de certo, o melhor álbum do Oasis!”. Ou algo como: “Se Wonderwall é hino, Supersonic é o que então?”. E certamente tem aquele que vai dizer que “todos os trabalhos do Oasis foram feitos pra se ouvir de ponta a ponta”

Vale lembrar. Esta lista de álbuns pra se ouvir de ponta a ponta leva em conta o reconhecimento do público, traduzido em números como álbuns vendidos e faixas no topo das paradas. Nesses quesitos, nenhum álbum supera Morning Glory. Foram quase 350 mil cópias vendidas logo na primeira semana, sustentando-se como álbum mais vendido na Inglaterra ao longo de dez semanas, atingindo a quarta posição nos Estados Unidos, e canções como Some Might Say, Don’t Look Back in Anger, Champagne Supernova e Wonderwall atingiram o topo das paradas ao redor do mundo. Morning Glory atingiu a impressionante marca de 22 milhões de cópias vendidas.

Oasis está entre as mais influentes bandas britânicas de todos os tempos. Em tempos em que o rock brigava por espaço com a música pop, quando as paradas de sucesso eram encabeças por nomes como Britney Spears, Alejandro Sanz, Natalie Imbruglia, Madonna, Celine Dion, Shakira, Ricky Martin, Jennifer Lopez, Michael Jackson, Whitney Houston e afins, despontava uma banda britânica briguenta, marrenta e que se achava melhor que os Beatles. Uma banda na qual dois integrantes, os irmãos Gallagher, viviam (e ainda vivem) em constante pé-de-guerra. Uma banda que vivia arrumando encrenca com Blur, banda britânica que vinha com um rock mais “inteligente” (é o que dizem os críticos), mas muito menos apreciada pelo público em geral. De fato, Blur acabou fazendo mais sucesso com seu projeto paralelo, Gorillaz, que com a banda oficial. Enquanto Parklife vendeu pouco mais de dois milhões de cópias, o álbum de estreia do Gorillaz atingiu a marca dos sete milhões.

A banda de Manchester soube, como nenhuma outra, entender os tempos modernos, onde sucesso se constrói por meio de uma mistura entre competência, simplicidade e uma boa dose de polêmicas na mídia.


O encarte

Reforçando a visão de banda independente – apesar de, no discurso, assumirem o papel de maior banda de rock de todos os tempos – a capa do álbum é uma foto da Berwick Street, no Soho, em Londres. Essa rua é famosa pelo número de lojas especializadas em bandas independentes. Na foto da capa, o diretor de arte Brian Cannon (de costas) e o DJ Sean Rowley (de frente para a câmera). Lá no fundo, à esquerda, está o produtor do álbum, Owen Morris.

As fotos internas tentam passar a atmosfera geral do álbum, cujas letras refletem os conflitos existenciais da juventude britânica, especialmente os filhos da classe operária. A última foto, que faz fundo à letra de Champagne Supernova, é provavelmente a mais intrigante e, ainda assim, a mais simples de ser decifrada, no contexto geral do álbum. Imagine-se no lugar do boneco, trancafiado no pote de açúcar, os pés se afundando, sem forças para abrir a tampa e libertar-se, mas que ainda assim continua lutando. É esse o tema central do álbum.

O encarte se encerra com um texto do jornalista especializado em música, Paulo Hewitt. O texto faz referências aos Beatles e às letras do Oasis, de forma poética e em pura sincronia com o álbum. Minha parte favorita?

“(…) as pessoas sabem. Elas sempre souberam a verdade. Acreditam. Creem. Além. De sua glória matinal.”


1. Hello

A faixa de abertura do álbum começa com um trecho de Wonderwall. Mas não pense que isso quer dizer que aquela é a grande música do álbum, na concepção da banda, porque esse definitivamente não é o caso. Até nisso os irmãos Gallagher divergiam: enquanto Noel ama a faixa, Liam simplesmente a detesta. Enquanto o primeiro diz que “ouvir o público pedir pela música é melhor que drogas”, o segundo diz que “nem rock’n’roll é”, e que rock bom mesmo é Live Forever.

O fato de começar Hello com um trecho de Wonderwall é nada além de uma constante no álbum. Tem outros trechos de outras músicas em outros momentos do álbum – a gente chega lá.

A letra da música não poderia falar mais alto ao coração dos britânicos. Trata-se da velha comparação entre o tempo – que tende a ser pior em Manchester que em Londres – e a vida das pessoas que dão duro para sobreviver.

Dias longos, mas o sol não brilha. Ninguém nunca diz que o tempo pode mudar seu dia, nem se lembra que a vida é um jogo. Vivemos nas sombras, tivemos nossa chance e a jogamos fora. Os anos caem como a chuva e nada mais será como antes, até que a vida que um dia conheci venha bater à minha porta e dizer “olá”.

2. Roll With It

Faixa com uma super pegada Beatles, representa aquele momento “mensagem motivacional” da banda – melhor dizendo, um daqueles… Por mais controversial que possa parecer, Oasis usaram e abusaram de frases motivacionais nas letras deste álbum. Justo os irmãos briguentos!

Sabe aqueles memes motivacionais no Instagram, contendo citações de Osho, O Segredo e tantos outros? Pois bem, não seriam levados muito a sério se as mensagens fossem assinadas por Noel Gallagher…

Mas, no melhor estilo #fake_news, criamos nosso meme assinado pelo Paulo Coelho, mesmo sabendo que é um trecho de Roll With It

Não é super fofinho? Coraçõezinhos aos irmãos Gallagher! 💞

3. Wonderwall

E é aqui que a essência do álbum dá as caras! Canção obrigatória nos barzinhos com música ao vivo ao redor do mundo. Cover obrigatório pra quem quer soar descolado. Letra que dá vontade de cantar bem alto, pra exorcizar demônios. E no título, uma palavra que nem existe no dicionário! Wonderwall é, segundo a banda, tudo de bom que o mundo pode trazer pra você. Liam explica que é, tipo assim, quando o fiscal do trem vem pedir o bilhete, você acha que o perdeu, bate o desespero e, bem lá no fundo bolso, lá está ele, o bilhete, esse Wonderwall! Seria a versão Gallagher do “seu fofo” brasuca!

[Foi ao som de Wonderwall que conheci minha esposa, Verena, e por isso inclui a palavra em uma tattoo. Mas sabe o quê? Ela simplesmente odeia a música!]

Wonderwall é sobre tudo que a sociedade joga em cima da gente, e como tem gente que nos apoia nessa constante luta entre nossos interesses e os interesses do resto do mundo.

Because maybe you’re gonna be the one that saves me?

And after all, you’re my wonderwall.

4. Don’t Look Back in Anger

Entre minhas faixas favoritas, assim como de um monte de gente por aí, está Don’t Look Back in Anger. O single, primeira faixa de trabalho com vocais de Noel, rendeu-lhes um disco de platina. Muito provavelmente, foi essa a faixa que iniciou a briga entre os dois irmãos. Pra resumir a história toda, a briga sempre foi bem coisa de irmãos com ciúmes um do outro. Os vocais deveriam ser de Liam, e Noel poderia até cantar, mas em B-Sides. Esse era o acordo, mas que acabou sendo quebrado já neste segundo álbum da banda, e daí pra frente a coisa só piorou.

[Faltou a Dona Cida (minha mãe!) pra dar umas chineladas na bunda desses dois marmanjos e, assim, manter a banda ativa até os dias de hoje!]

A música foi tocada pela primeira vez pela banda em uma versão acústica, em abril de 1995. Ainda sem um título, e com letra incompleta, Noel resolveu apresentá-la ao público, em clara demonstração de sua excitação frente àquela que prometia se tornar marca registrada da banda, o que de fato aconteceu. É praticamente impossível imaginar um show do Oasis sem que esta canção apareça no setlist.

E quem é Sally? Segundo o próprio Noel, ninguém em especial. Apenas sentia que tinha que por um nome ali, e Sally encaixou bem.

No melhor estilo “somos melhores que os Beatles”, Noel certa vez disse que a música tinha forte influência de Bowie e sua canção Look Back in Anger, de 1979, e que também tinha “alguma coisa ou outra que os Beatles possam ter feito”. Essa coisa de diminuir nossos ídolos é algo que a Freud explica – eu acho.

5. Hey Now!

Sabe aquele momento em que sua banda fica famosa, meio que da noite pro dia, e a coisa toda muda, e você fica se lembrando do tempo em que era uma banda alternativa, independente, e agora se vê preso às amarras do estrelato? Não? Pois é, isso é só pra banda grande, não pra moleques feito o Blur

😂

Hey Now! é a viagem de Noel ao passado, para libertar-se daquele conflito e assumir seu lugar no topo da cadeia alimentar, digo, das paradas de sucesso.

Não se sinta envergonhado – porque o tempo não acorrenta.

O que mais me chama atenção nessa música são os intervalos, quando você jura que a música acaba, mas ela continua. Soa pra mim como algo propositadamente inserido ali, com um significado. Pare, reflita, siga em frente, a vida – e a banda – continua.

6. (66191378)

Faixa instrumental de 44 segundos, trata-se de um trecho de The Swamp Song, faixa não incluída no álbum mas presente no single Wonderwall, junto com Round Are Way e The Masterplan.

7. Some Might Say

Lembra daquele momento auto-ajuda de Roll With It? Aqui é quando a realidade bate forte e a gente começa a reclamar da vida.

Alguns podem dizer que o sol brilha depois da tempestade; vai e fala isso pro cara que não consegue brilhar.


Alguns podem dizer que não acreditam no paraíso; vai e fala isso pro cara que vive no inferno.

8. Cast No Shadow

Aliviou as frustrações quotidianas na faixa 7? Então vamos refletir sobre a vida… com uma canção simplesmente perfeita! Mesmo sem prestar atenção na letra, você é capaz de sentir a mensagem que a canção quer transmitir só de ouvir seu instrumental!

Desculpa, mas vou ter que incluir a tradução inteira aqui. É das coisas mais poéticas que já ouvi em uma canção! Pois é, os irmãos briguentos sabem fazer poesia…

Aqui vai um pensamento pra todos os homens que tentam entender o que está em suas mãos
Ele caminha ao longo da estrada do amor e da vida, sobrevivendo se conseguir
Preso a todo o peso de todas as palavras que ele tentou dizer
Acorrentado a todos os lugares em que ele não desejou ficar
Enquanto ele encarava o sol, ele não fazia sombra
Enquanto eles pegavam a sua alma, eles roubavam seu orgulho


Enquanto ele encarava o sol, ele não fazia sombra

Já me peguei várias cantando essa música no carro, volume máximo, vidros fechados, sentindo a batida no peito e aquele aperto na garganta. Quem nunca?!?

9. She’s Electric

Esta música sempre me soou meio que perdida no álbum. Mas talvez seja aquela coisa de se esconder da dura realidade, sabe? Bate a revolta na faixa 7, uma baita reflexão sobre a vida na faixa 8, a coisa aperta pra valer, então a banda vai e faz uma baladinha pra esquecer de tudo isso.

Trata-se de uma baladinha que conta a estória do garoto que namora uma garota, mas que já namorou a irmã dela, e tem uma certa queda pela mãe dela, e não se dá bem com o irmão dela, nem com alguns dos primos dela… Ou seja, absolutamente nada demais!

Não pode ser outra coisa, senão a banda tentando fugir do peso que questiona no resto do álbum, tentando apenas ser uma banda qualquer.

10. Morning Glory

O ruído da cidade que desperta, a guitarra que replica o som do rádio-relógio em modo alarme, e alguém que se pergunta o por quê de ter que se submeter àquela rotina.

Mas a coisa toda tem também um lance adolescente, pueril até, quando usam o termo “morning glory”. A melhor tradução que consigo achar para essa gíria seria “tesão matinal”. Sabe aquela coisa de acordar com “ele” duro? Então, “morning glory” pode ser entendido dessa forma…

Preciso de um pouco mais de tempo pra acordar.


Que lance é esse de tesão matinal?

11. (66191378)

Voltamos à The Swamp Song, o que me faz pensar que eles queriam muito incluir a faixa no álbum, mas acabaram não fazendo. Sei lá.

12. Champagne Supernova

Desculpem-me o palavreado, mas que puta forma fodida de fechar uma álbum! Agora fui bem Oasis, usando palavrões pra definir sentimentos!

Pra quem não sabe, Noel tem a boca mais suja do mundo! Veja aqui. Ah, o YouTube vai perguntar se você é maior de idade pra poder assistir…

😱

Champagne Supernova é a faixa de mais de sete minutos, mas que não cansa de ser ouvida e ouvida de novo e mais uma vez. Dá vontade de por no repeat… mesmo…

A letra fala de como as pessoas mudam com o passar do tempo, que alguns amigos se vão quando mais precisamos deles. Mas não se preocupe, porque aqueles que ficam juntos, vencem juntos, e apenas observarão, lá de cima, aqueles que os abandonaram e acabaram ficando pra trás.

Mas o diabo mora nos detalhes… e pode ser que essa vitória é nada além de uma viagem regada a drogas, e que a vida continua a mesma merda, e que talvez os amigos que se juntam pra “ficar altos” – gíria que remete a “dar uns tiros”, cheirar cocaína – acabam se encontrando na supernova da overdose. Essa interpretação combina com o infinito “we were getting high” e a foto do encarte, comentada anteriormente. Por que um pote de açúcar e a cara de desespero do bonequinho?

O próprio Noel assumiu em entrevista que a letra pode ter diferentes interpretações, desde a mais psicodélica das viagens até um “agora toma” a todos aqueles que nos deixaram na mão. Ainda, sobre algumas partes da letra que são bastante dúbias, como “caminhando lentamente através do hall, mais rápido que uma bala de canhão”, Noel disse que isso pode ter diferentes significados para diferentes pessoas, e isso é o mais legal dessa letra.

Um último detalhe: existe um coquetel – não preciso dizer que não se pode encontrá-lo no cardápio – chamado Champagne Supernova, e que foi bastante popular nos anos 90, consumido principalmente pelos hipsters de Wall Street. Trata-se de um copo de martini, cheio de champagne, e com as bordas cobertas de cocaína, da mesma forma que aquele sal na borda do copo de marguerita.


Por que Morning Glory merece estar na minha lista? Porque é um álbum do Oasis, não dos Beatles ou daqueles moleques do Blur

Brincadeiras à parte, o álbum é super bem estruturado e tem uma história legal. Foi tão bem produzido que apenas fez crescer as brigas estupidamente infantis entre os irmãos Gallagher. E muitas das canções deste álbum estão no setlist de bandas e bandas mundo afora.

No meu casamento não tocou Wonderwall porque minha esposa não deixou. Aposto que tocou no casamento de um monte de gente, apesar da líder em casamentos ainda ser Bitter Sweet Symphony, do Verve. Malditos violinos… fizeram mais sucesso que o violoncelo da música do Oasis

Pra terminar, apenas uma pequena provocação a mais – senão não seria sobre os encrenqueiros de Manchester. Quem copiou quem?!?

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