Hot Fuss | The Killers

Depois de três álbuns dos anos 90, já estava mais que na hora de trazer algo mais recente pra esta minha lista. E foi assim que Hot Fuss ganhou a posição de # 4.

Mas a sequência na qual álbuns aparecem na lista não significa absolutamente nada. Ela é totalmente aleatória. Mas uma coisa é certa: todos foram produzidos pra se ouvir de ponta a ponta!

Lançado em 2004, Hot Fuss foi exatamente aquilo que seu título sugere: um orgasmo daqueles de acordar os vizinhos!

Na gíria, hot fuss pode ser entendido como altos, longos e nada discretos gemidos femininos, que anunciam seu orgasmo pra quem quiser ouvir. E foi assim com o álbum de estreia dos rapazes de Las Vegas, que fez-se ouvir, em alto e bom tom, nos quatro cantos do mundo.

Além de alcançar a sétima posição na Billboard e a primeira posição na lista dos mais vendidos na Inglaterra em 2004, e ter contabilizado mais de sete milhões de cópias em todo o mundo, o álbum aparece na lista dos 100 melhores álbuns da década, compilada pela revista Rolling Stones, e é um dos álbuns da virada do século a figurar no livro “1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer”. Em outras palavras, um orgasmo e tanto!

As influências da banda neste primeiro álbum vão do pós-punk do Joy Division e New Order a cantores como David Bowie e Lou Reed. E por falar em New Order, é do clipe de Crystal que vem o nome da banda. Já seu segundo trabalho, Sam’s Town, é influência pura de “The Boss”, também conhecido como Bruce Springsteen.

Este álbum conquistou alguns fãs ilustres, dentre eles ninguém menos que Bono Vox, vocalista da banda irlandesa U2, que certa vez disse: “É muito raro encontrar uma banda que tem não apenas boa música, mas também boas letras. Quanto escuto The Killers tocando, desligo o telefone.” – e em reciprocidade, o vocalista do Killers, Brando Flowers, disse logo depois que seu sonho é se tornar a versão norte-americana do U2.

Seguindo a fórmula do Pearl Jam, com sua trilogia que inclui Once, Alive e Footsteps, a terceira figurando no álbum de lados-B Lost Dogs, Killers também criou a sua, a Murder Trilogy, composta por Midnight Show, Jenny Was a Friend of Mine e Leave the Bourbon on the Shelf, esta terceira também incluída em um álbum de lados-B, Sawdust, lançado em 2007.

Quer uma dica de sucesso? Crie uma trilogia, lance suas músicas no álbum de estreia da sua banda e deixe a terceira para singles e lados-B. Funcionou para eles. Quem sabe não funciona pra sua banda também?


1. Jenny Was a Friend of Mine

Faixa de abertura do álbum, poderia facilmente ser confundida com alguma canção do The Cure! O som do baixo se destaca nesta canção, da mesma forma que em muitas do Cure, e os vocais de Flowers remetem ao timbre e a forma de cantar de Robert Smith. Mas pode entender tudo isso não como cópia barata, mas sim, como um tributo muito bem trabalhado.

A faixa não foi das mais populares do álbum, mas reconhecida pelos fãs da banda como a segunda da trilogia citada anteriormente. Soa como o assassino tentando se defender, dizendo que não havia motivos para ter cometido o crime do qual era acusado.

“Discutimos naquela noite, sob a chuva; ela disse que me amava, mas tinha que ir; ela não podia gritar enquanto a mantinha bem perto de mim e dizia que não a deixaria partir; não há motivos para este crime, Jenny era minha amiga…”

2. Mr Brightside

Tem uma rádio aqui na Inglaterra, Absolute Radio, na qual sou viciado! Se você curte rock, precisa conhecer a Absolute. Ela é minha referência em música de verdade. De fato, o slogan dos caras é “where real music matters”.

Por que estou falando da rádio? Porque Mr Brightside recebeu da Absolute Radio, em parceria com a XFM, o prêmio de Música da Década em 2010. Naquele mesmo ano, a Last.fm revelou que essa foi a canção mais ouvida através de serviço de streaming desde seu lançamento, com mais de 12 milhões de execuções até outubro.

A letra da música aborda o poder destrutivo da insegurança e ciúmes descontrolado sobre uma relação. Nada do que é narrado por Flowers precisa estar acontecendo de fato; mas certamente se passa, de forma clara e real, em sua imaginação. Pense no trecho “and it’s all in my head” e, a partir daí, você interpretará sua letra sob ótica totalmente distinta.

Vale muito à pena ver o clipe e acompanhar a tradução da letra.

3. Smile Like You Mean It

Uma das músicas mais apropriadas do álbum para uma geração mimada e que não vê graça em nada, ou para aqueles que vivem se lamentando das escolhas que fizeram no passado.

É sobre olhar pra trás e sorrir e aceitar os caminhos trilhados e, apesar daqueles dias ruins e seus momentos difíceis, a gente acaba sempre atravessando as intempéries da vida e precisa voltar a sorrir pra valer.

4. Somebody Told Me

Essa foi a música que abriu as portas da banda para o mundo. Seguindo o sucesso de bandas retrô, como The Strokes e Jet, Somebody Told Me tomou as paradas de sucesso mundial, mas não logo de cara. Ouve uma primeira versão do single, em capa cor-de-rosa, que foi um fracasso de vendas. Posteriormente relançado com fundo azul, o single chamou a atenção da crítica e fez crescer a popularidade da banda.

A letra segue também o estilo Strokes, e conta a história de um cara que tenta conhecer uma garota em um night club.

A Billboard descreveu essa faixa como “altamente infecciosa” e “viciante”. E acredito que não há definição que melhor se encaixe a ela.

5. All These Things That I’ve Done

Há quase um ano, fui a um show do Killers no Hyde Park, em Londres. Eles fecharam sua apresentação com esta canção, e foi então que percebi seu real significado. Esta é uma belíssima oração, isso é o que ela é!

Certo de que essa era a resposta, resolvi pesquisar mais a respeito. Eis que descobri que Brando Flowers é Mórmon – seguidor da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. A letra desta música é sua oração a Deus, reconhecendo-se pecador em pensamentos e palavras, por conta daquilo que aborda em suas letras, o que seria invariavelmente contrário aos valores que prega sua igreja.

“Quando não houver mais pra onde correr, vai ter espaço pra mais este filho? Se você pode me apoiar, me apoie. Eu quero lutar por isso, eu quero abandonar isso. Você sabe… não, você não sabe! [a] Eu quero brilhar no coração dos homens, eu quero um sentido que venha do fundo do meu coração partido.”

[a] Claro que Ele não sabe! Porque Ele nunca sentiu as tentações que assombram sua criação…

E assim segue a oração, até o infindável e, para muitos, indecifrável refrão, repetido à exaustão por um coral gospel:

I got soul, but I’m not a soldier.

(Tenho alma, mas não sou um soldado)

Esse é Flowers, assumindo-se fiel, mas não a ponto de querer lutar pela causa divina e sair por aí, em missões, evangelizando povos.

Por conta desta belíssima oração, Flowers já tem seu lugar garantido ao lado do Pai Celestial!

6. Andy, You’re a Star

Esta faixa tem toda sonoridade típica do Joy Division. Trata-se de uma vingança tardia e sarcástica a Andy Messersmith, ex-colega de classe de Flowers na Juab High School em Nephi, Utah. Andy era bastante popular no colégio por conta de sua performance nos esportes, e atormentava-o sempre que possível. Digamos que, nos dias atuais, chamaríamos tais tormentos de bullying.

E por que vingança? Porque hoje Flowers é vocalista da mundialmente famosa Killers, enquanto que Andy continua na Juab High School, em Utah, trabalhando como professor de educação física.

7. On Top

Com sua icônica introdução nos teclados, seguida da batida quebrada do baixo e bateria, esta é outra das faixas que deixa clara as influências de bandas como New Order e The Cure. Dá pra ouvir também uma guitarra estilo The Smiths no refrão. E não é que um dos melhores álbum dos anos 2000 é, na verdade, uma releitura de bandas dos anos 80?

Flowers compôs esta canção para sua namorada na época, como trilha sonora para o dia que a pediria em casamento. Não é demais?

8. Change Your Mind

Outra canção retrô a la Strokes, mas que não fez tanto sucesso quanto Somebody Told Me. A batida tem algo de dançante, novamente em clara referência aos anos 80.

Aborda o amor e sua capacidade de virar nossos pensamentos de cabeça pra baixo, especialmente quando não correspondido. Mas não em tom deprê. Como diz a letra, o cara é persistente e, caso ela não se interesse por ele, irá fazer de tudo pra tentá-la convencê-la a mudar de ideia”.

9. Believe Me Natalie

Com uma batida característica e cativante e guitarras que lembram The Smiths e, por que não, o U2 de The Unforgettable Fire, esta faixa tem seus méritos por si só, mas soa algo deslocada do contexto geral do álbum. Essa é a impressão geral do público, e isso explica por que essa faixa não é assim tão conhecida, e provavelmente muito menos valorizada que poderia ser.

Mas preste atenção na letra. Literalmente, a música fala de uma dançarina de um clube no SoHo, em Nova Iorque, que contraiu AIDS. Mas pode ser sobre qualquer pessoa que você conheceu e que precisa de uma palavra amiga para superar as adversidades e encontrar uma razão para viver e ser feliz.

Ninguém pode voltar atrás e desfazer aquilo que está feito. Todos têm potencial e uma beleza única. Ninguém deve dar ouvidos a familiares e amigos que insistem em dizer que não podem fazer aquilo que desejam. Todos têm alguém que genuinamente acredita neles e lhes dão apoio pra continuar sua batalha pelos seus sonhos.

Agora que você sabe do que se trata esta faixa, fecha os olhos, põe o som no máximo, sente as batidas da bateria e o som dedilhado da guitarra e viaja pra dentro do mundo da Natalie. Ela agradece o apoio.

10. Midnight Show

E aqui começa a trilogia sobre um assassinato…

“A maré que quebra não podem esconder uma garota culpada, com corações ciumentos que começam com brilhos e cachos; tirei o ar de meu amor sob lustre de estrelas e a vi desaparecer em meio ao show da meia-noite.”

Se você é fã do U2, certamente conhece Gloria, do álbum October. Alguma semelhança na introdução?

11. Everything Will Be Alright

Pra fechar o álbum, uma faixa que me remete a George Michael… Serão meus ouvidos?

Trata-se de uma triste canção de amor em cacos, de quem finalmente encara os fatos e vê sua amada deixando-o para sempre. Ele implora para que ela fique, dizendo que foi sincero em cada uma das muitas vezes que disse que a amava, e que tudo ficaria bem se ela resolvesse ficar. Dá até pra imaginá-lo se ajoelhando e implorando para que ela reconsidere sua decisão, não dá?

Mas não precisa ficar aí imaginando muito não! Dá uma olhada no clipe, que é super bem produzido, e tira suas conclusões!


Por que este álbum merece ser ouvido de ponta a ponta? Porque, apesar de não ter uma estória tão bem amarrada quanto os três anteriores desta lista, ele dá o tom do que esperar do The Killers nos trabalhos seguintes.

A banda é diferente pelo fato de buscar referências em grandes cantores em bandas dos anos 80 e adicionar um toque de modernidade. Trata-se de um retrô mais experimental que Strokes ou Jet, porque não parecem sentir a necessidade de soar exatamente como as bandas antigas, e essa liberdade de criação pode ser claramente notada na predominância de bateria, baixo e teclados, enquanto que aquelas outras bandas insistiram nos acordes de guitarra em suas Les Paul, mantendo-se fiel ao timbre de algumas das bandas mais famosas do pop-rock dos anos 60 e 70.

Do mais, as letras acabam, de uma forma ou de outra, falando com a gente em diferentes momentos da vida. Quem nunca sentiu ciúmes tolo, ou precisou de um empurrão pra seguir em frente, ou pensou em fazer uma música pra se declarar pra alguém? Quem nunca questionou sua própria fé, ou sentiu-se arrependido de certas escolhas do passado? Apenas espero que Midnight Show e Jenny Was a Friend of Mine não tenham nada que faça seu coração bater mais forte…

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