The Joshua Tree | U2

Semana passada estava em um embate pessoal entre bandas que amo e bandas que costumava amar, mas acabei me cansando. Pensei em escrever sobre The Wallflowers, Matchbox 20 ou até mesmo sobre Metallica e seu aclamado Black Album. Mas acabei voltando aqui pro álbum de hoje: The Joshua Tree, do U2.

Não me entendam mal, gostou muito da banda. Eles são geniais. Mas ouvi tanto, mas tanto, mas tanto esse álbum, que acho que resolvi botá-lo de castigo por, digamos assim, pelo menos uma década! Mas aí apareceu meu amigo Flávio, fã incondicional do U2, e me trouxe de volta à condição de apreciador. Nos bons tempos, me apresentaria como fã de carteirinha, mas Songs of Innocence, aquele famigerado álbum de download gratuito (mas obrigatório) pelo iTunes, me incomodou horrores! E sei que não estou sozinho nisso aí, porque a banda teve que vir a público pra pedir desculpas pelo transtorno… Pois é, U2 pisou na bola, e feio, com aquela invasão de privacidade!

Mas enfim, todo mundo erra, e eles estão perdoados. No # 5 da minha lista de álbuns pra se ouvir de ponta a ponta, aquele que vendeu mais de 25 milhões de cópias em todo o mundo, elevando a banda ao estrelato: o trintão The Joshua Tree!

Lançado em 1987, no auge dos meus 14 anos, The Joshua Tree tinha tudo que um adolescente em busca de um sentido para a vida podia querer de um álbum. Uma produção fotográfica intrigante, as imagens em preto-e-branco, no meio do vazio dos desertos norte-americanos. Um ar mítico, tanto no cenário quanto nas letras. A característica guitarra do The Edge, os vocais do Bono, o baixo pronunciado do Adam Clayton e a bateria de cadência quebrada, que começou lá no primeiro álbum, e o visual super-descolado do Larry Mullen Jr. Num passado distante, quando toquei bateria com uns amigos em Marília, o Larry era quem eu queria ser quando crescesse…

The Joshua Tree é álbum que atravessou décadas, mantendo-se sempre atual, a ponto da banda ter saído em turnê mundial para celebrar seu trigésimo aniversário.

As cerejas do bolo? Grammy Awards. Reconhecido pela Biblioteca do Congresso Norte-Americano como trabalho de alta relevância cultural, histórica e estética. Os singles With or Without You e I Still Haven’t Found What I’m Looking For atingiram a primeira posição nas paradas norte-americanas. E a lista segue, quase que infinita…

Pega seu CD e põe pra rodar, volume máximo, e se desliga do mundo. Tem mensagens muito profundas aqui neste álbum, daquelas que põem a gente pra pensar. Então aproveita bem os 50 minutos e 11 segundos deste álbum que foi produzido pra se ouvir de ponta a ponta.


1. Where The Streets Have No Name

O álbum começa com o “Selo The Edge de Arpeggio”. Não tem como ouvir a introdução dessa faixa e não saber que se trata do U2! Pra quem não sabe, arpeggio é quando um acorde é tocado nota a nota, ao invés de ser tocado em uma única batida, as notas tocadas em uma sequência crescente (da mais grave para a mais aguda) ou decrescente. The Edge se especializou nessa técnica, combinada a pedais de delay (uma espécie de eco). O U2 não é a única banda a fazê-lo, os Smiths também tocam em arpeggio, assim como a brasileira Legião Urbana. Mas tem algo de exclusivo nos arpeggios do The Edge, que a gente escuta e logo sabe que é ele. Aí está um pouco da mágica do U2

Mas essa mágica quase custou sua aposentadoria precoce. Isso porque a música era tecnicamente desafiadora, e a banda precisou de muitas horas de estudo da composição, assinada pelo The Edge, até chegar a sua gravação e inclusão no álbum, como faixa de abertura.

Quando a compôs, o guitarrista queria criar uma música que se tornasse marca registrada da banda em apresentações ao vivo. No que diz respeito à sua aceitação pelo público e crítica, parece que ele atingiu seus objetivos.

Sua letra remete à dinâmica social na Irlanda do Norte. Segundo a letra, é possível saber a religião de uma pessoa, e o quanto ganha, apenas por observar onde mora. Partindo dessa constatação, imagina-se um mundo no qual as ruas não têm nomes, ou melhor, onde não exista tamanhas diferenças e segregações entre classes sociais.

2. I Still Haven’t Found What I’m Looking For

Isto é o que acontece quando uma banda cujos integrantes tiveram forte formação cristã descobre o gospel norte-americano! I Still Haven’t Found… foi aclamada pela crítica, atingindo primeira posição na Billboard e recebendo duas indicações ao Grammy de 1988.

A letra fala da incessante busca por Deus, ou qualquer que seja a busca de uma pessoa que enfrenta todos obstáculos, todas as adversidades, por conta de algo que ainda desconhece, mas no qual acredita fielmente.

Acredito na vinda do Reino, quando todas as cores sangrarão em uma única, mas a verdade é que ainda estou correndo…

3. With Or Without You

Tenho um amigo, o Gustavo. Ele não é como o Flávio, fã incondicional da banda. Mas eles são vizinhos. E o Gustavo toca violão. E a gente toca juntos, sempre que possível. E, por conta de um vídeo que conta a história de um casamento, nos intitulamos Ivo & Dalto. É nossa forma de homenagear o U2 – ainda que não seja lá grande homenagem de nossa parte…

Se pensarmos em algumas das bandas que já apareceram aqui nesta lista, temos que o Pearl Jam teve sua Black; o Radiohead teve sua Fake Plastic Tree; e o Oasis teve sua Wonderwall; então, é lógico que U2 tinha que ter sua With Or Without You! Esta é a baladinha que estourou e virou canção obrigatória nas versões acústicas da vida…

Apesar de parecer extremamente simples, o uso da tecnologia por trás dessa faixa chega a ser amedrontador para alguém pouco letrado em pedais de efeito, câmaras de eco e outros aparatos do gênero, como é meu caso. Tem uma infinidade de efeitos de repetição de guitarra nessa faixa, mas o que a gente tende a ouvir é o baixo, o teclado e a bateria. Mas escute a versão do Keane para With Or Without You, gravada sem parafernália tecnológica, e compare-a com a versão original. Só assim é possível notar a imensa diferença que esses pedais de efeito são capazes de fazer.

A letra é uma reflexão de Bono sobre os conflitos entre a vida de músico e vida de homem casado. Segundo o vocalista da banda, a letra remete à necessidade de enfrentar a realidade, ao invés de reprimir desejos e se privar de algo que gosta de fazer. Trata-se da difícil e dolorosa busca pelo equilíbrio.

4. Bullet The Blue Sky

Aqui o lado político da banda vem à tona, com toda sua força, os vocais de Bono em tom de revolta. Esta é a Sunday Bloody Sunday, ou a New Year’s Day deste álbum, mas desta vez com forte influência melódica do blues norte-americano, e alguns trechos vocais que, arriscaria dizer, influenciaram os caras do Rage Against The Machine. Ou vai me dizer que não consegue ver semelhança entre os versos finais desta faixa e os vocais de Killing in The Name?

A letra fala das intervenções militares dos Estados Unidos sobre a Nicaragua e El Salvador.

5. Running To Stand Still

Uma balada nada romântica, com um toque de folk e blues americanos, conta a vida de um casal viciado em heroína. Houve uma “epidemia” de heroína em Dublin, capital da República da Irlanda, nos anos 80.

É possível ouvir na canção um toque de Bad, faixa do álbum The Unforgettable Fire, e não é pra menos. Aquela canção aborda o mesmo tema, e esta faixa teve sua melodia elaborada quase que de improviso, vez que a banda queria aproveitar a letra no álbum, pois acreditavam em seu potencial lírico. Adam Clayton, baixista da banda, se refere a esta faixa como Bad Part II.

6. Red Hill Mining Town

Lembro-me garoto, viajando na melodia desta faixa, me referindo a ela como “a música da guitarra de gaivota”. Isso porque The Edge usa e abusa do som dos dedos correndo entre os trastes de sua guitarra, ocasionando um ruído que, para meu eu adolescente, lembrava o cantar de gaivotas sobrevoando o pier de uma praia qualquer.

Mas sabe o quê? Red Hill Mining Town não tem absolutamente nada a ver com gaivotas, praias e afins! A canção fala sobre o movimento grevista dos trabalhadores nas minas de carvão do Reino Unido, ocorrido em 1984, em resposta ao posicionamento da então primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher, quanto ao fechamento de número significativo de minas não lucrativas.

E aquele “som de gaivotas”, qual a relação com minas de carvão? Sinceramente, não faço a menor ideia…

7. In God’s Country

Esta é a forma que a banda encontrou para homenagear os Estados Unidos, mais especificamente Nova Iorque, lugar que, apesar de seus problemas e aparente frieza, ostenta enorme poder de sedução.

A musicalidade mais rock’n’roll, menos arpeggio, foi provocação de Bono a The Edge. Provavelmente, ali nascia as raízes do U2 reformulado, menos irlandês, mais americano, que veio nos álbuns posteriores.

8. Trip Through Your Wires

Gaita. Gaita. E mais gaita. Ou harmônica, pra ser mais técnico. Aqui o U2 abraçou a cultura norte-americana pra valer, e o resultado foi fabuloso! Pode até não ser das canções mais famosas da banda, mas trata-se de uma bela viagem ao mundo do blues, e a guitarra de The Edge combina perfeitamente com a melodia.

Sabe aquela coisa de trilogias, que abordamos nos textos sobre álbuns do Pearl Jam e do Killers? Esta canção é complementada por The Sweetest Thing, que foi lançada posteriormente no álbum The Best of 1980 – 1990. E o que vem a ser estas canções? Uma declaração de amor, nada além de uma bela declaração de amor. E sabe o clipe da segunda parte desta declaração romântica? Foi gravado às pressas pela banda, como uma espécie de pedido de desculpas de Bono a sua esposa, Ali Helson, por ter se esquecido do aniversário dela.

9. One Tree Hill

Esta canção é homenagem póstuma ao neo-zelandês Greg Carroll, ex-rodie da banda, que faleceu em 1986, em acidente de moto. A carga emocional por trás desta canção foi tamanha que os vocais tiveram que ser gravados em primeiro take – ou seja, na primeira tentativa – pois Bono não conseguia mais cantar sem perder a voz.

O videoclip da versão incluída no álbum Rattle and Hum expressa muito bem a dor da perda do amigo.

10. Exit

No começo, esta faixa até parece uma continuação melódica de With Or Without You. Mas a coisa toda vai mudando, por volta do final do primeiro minuto, e ganha peso por volta de um minuto e quarenta. Como baixista que se preza, e amante de pegadas com mais peso, tenho esta faixa entre minhas preferidas do álbum, apesar de ser uma ilustre desconhecida do público em geral.

A música foi gravada em primeiro take, em algo que era pra ser nada além de simples jam session, mas que acabou virando faixa oficial do álbum, depois de algumas pequenas edições. A letra retrata a mente de um serial killer, cuja inspiração veio do livro A Canção do Carrasco, de Norman Mailer.

11. Mothers of The Disappeared

Pra fechar o álbum, Bono retorna à América Latina, com uma faixa em homenagem à Associação das Mães da Plaza de Mayo, um grupo de mulheres cujos filhos desapareceram durante os regimes ditatoriais da Argentina, entre 1976 e 1983. Excelente lição de história em forma de música, especialmente dedicada a quem acredita que não houve ditadura e tortura na América Latina. E também serve pra mostrar que não é de hoje que U2 milita em prol dos Direitos Humanos.

E porque tais atrocidades não foram “exclusividade” da Argentina, mas se repetiram em toda América Latina, a música também homenageia as mães chilenas, salvadorenhas e tantas outras, cujos filhos acabaram por “desaparecer misteriosamente” durante tais regimes.

A versão ao vivo mais legal dessa canção? Para mim, é aquela gravada em parceria com Eddie Vedder, do Pearl Jam. Assiste aqui, só não vale me culpar pelos ciscos nos olhos…


Por que The Joshua Tree merece estar aqui na lista de álbuns pra se ouvir de ponta a ponta? Porque este álbum representa a essência do que é U2. Tem um pouco do U2 irlandês, e tem as bases do U2 americano. Tem o U2 que discute o mundo no qual vivemos, e tem o U2 que fala de amor e outros sentimentos. Porque resume o U2 do passado e dá uma bela dica do que viria a ser o U2 nos álbuns que se seguiram. E porque vendeu mais de 25 milhões de cópias, claro!

U2, vocês são geniais! Prometo não deixar mais este álbum de castigo, como acabei deixando-o por um bom tempo… Mas, por favor, me prometam nunca mais enfiar outro álbum guela abaixo, ok?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.