Metallica (Black Album) | Metallica

Leme, interior de São Paulo. Capital nacional do heavy metal (isso eu tô inventando). A maior concentração de bandas por mil habitantes do interior do Estado (também tô inventando). E tem a Sabazius, melhor microcervejaria do (meu) mundo. E tem o Tribunal, com seu festival de rock no final de julho. E tem o Izão, que é o dono de bar mais mal-humorado e mais gente boa do mundo (o time dele não tem mundial, mas ele é campeão mundial de reclamar dos clientes de carteirinha)!

Em homenagem a esse ambiente peculiarmente agradável, escolhi o álbum de número seis da minha lista: Metallica, o álbum homônimo da banda, lançado em 1991 e que vendeu mais de 21 milhões de cópias.

Quinto álbum de estúdio da banda, o Black Album representa a passagem do Thrash Metal para uma pegada mais melódica. E a aposta foi mais que acertada, considerando-se a recepção de crítica e público, a ponto da banda sair em turnê mundial em 2012, tocando este álbum de 62 minutos e 40 segundos na íntegra!

Quando um álbum atinge o status de turnê, é porque ele representa a essência da banda. Pense nas turnês do The Wall ou do The Dark Side of The Moon, do Pink Floyd. Ou no The Joshua Tree, do U2. Pois o Black Album também chegou lá! E agora é hora de falar dele por aqui!

Na posição número seis da minha lista de álbuns pra se ouvir de ponta a ponta, Metallica! E que venham os pesadelos!


1. Enter Sandman

“Nana, neném, que a Cuca vem pegar…” – que mané Cuca, que nada! Aqui é seu pior pesadelo chegando pra confundir o que é real e o que é sonho! E, quem diria, tudo começa com uma espécie de “fada do sono”. Na lenda do Sandman, um duende vem e põe um pó mágico nos olhos das crianças, pra que elas se sintam sonolentas e possam dormir a noite toda. Mas nesta faixa, o pesadelo que assombra a criança é a síndrome da morte súbita infantil, que é quando uma criança aparentemente saudável vem a óbito durante a noite, sem que a causa da morte possa ser determinada por meio de autópsia.

Uma atmosfera sinistra acompanha os riffs de guitarra, criando o cenário perfeito para a letra. Escute-a no escuro, olhos fechados, e imagine-se no lugar da criança que teme ser abraçada e levada pela morte durante o sono. Este é o pesadelo de Enter Sandman.

Agora me deito para dormir; rezo ao Senhor para que guarde minha alma; e se morrer antes de acordar; rezo ao Senhor que leve minha alma.

Quieto, garotinho, não diga um palavra sequer; e não se preocupe com aquele barulho que ouviu; são apenas os monstros debaixo da sua cama; no seu guarda-roupas, na sua cabeça.

2. Sad But True

Esta faixa foi composta pra ser cantada pelo público. É a faixa perfeita para apresentações ao vivo. Impossível ouvi-la e não levantar o braço direito, punhos fechados, dando sócios no ar aos berros de “Hey, hey!”.

A música fala sobre dependência química. Quando o vício em álcool e drogas te domina, e suas ações passam a ser comandadas pelo seu melhor inimigo.

Quando sua vida não tem sentido sem a companhia do álcool e outras drogas. Quando seus amigos se afastam justamente quando mais precisa deles, e aí seu vício te convence que todos seus amigos são falsos, mas ele, o vício, está ao seu lado pro que der e vier. Quando seu vício lhe causa dor, mas ao mesmo tempo a ameniza e mascara. Triste mas real.

3. Holier Than Thou

Talvez a segunda composição deste álbum que mais se aproxima do antigo Metallica, com uma pegada mais pesada que o resto do álbum, mas ainda assim menos Thrash que faixas dos quatro trabalhos anteriores da banda.

A letra desta música é perfeita para os dias de hoje, com tanto discurso moralista nas mídias sociais, vindo daqueles que se acham mais santos que a própria santidade.

Chega! A ignorância rolando pra fora da sua boca de novo. Vozes que sussurram ao redor da sua cabeça. Por que você não se preocupa consigo mesmo? Quem é você? Por onde andou? A fofoca queimando na ponta da sua língua. Você mente tanto que acaba acreditando em si mesmo. Não julgue para não ser julgado.

4. The Unforgiven

Ninguém é livre pra ser quem realmente se é. Todos somos moldados pela sociedade, seguimos certos padrões, usamos certas máscaras, vivemos da forma que se espera que vivamos. E então, quando nos aproximamos da morte, nos arrependemos daquilo que fomos e daquilo que não nos permitimos ser. E aí vem o arrependimento, e não nos perdoamos a nós mesmos, nem a mais ninguém. Essa é The Unforgiven.

A melodia segue ordem reversa das baladas tradicionais. Pense em One, outro sucesso da banda, ou então em Tear of The Dragon, do Bruce Dickinson. Baladas normalmente começam lentas, e ganham peso no refrão. The Unforgiven segue a lógica inversa, começando com peso e seguindo mais suave durante o refrão. E seu clipe é f*da, então vale a pena vê-lo antes de seguir pra próxima faixa.

Uma última curiosidade: aquela corneta no início da faixa vem de um filme de cowboys intitulado The Unforgiven. Isso também explica a toada faroeste da introdução.

5. Wherever I May Roam

Leia a letra e pensará que se trata de um nômade que sai pelo mundo, dormindo onde quer que possa dormir, sobrevivendo como puder, porque sua vida não pode ser vivida em regime de escravidão.

Mas leia novamente, mais atentamente, e perceberá que a letra fala sobre a própria banda! Trata-se do Metallica que se encontra com seu público nas turnês, que se recria em seu quinto trabalho de estúdio, que se desafia a criar um álbum tecnicamente elaborado como … And Justice For All e depois busca a simplicidade, quase comercial, do Black Album.

Off the beaten path I reign.

6. Don’t Tread on Me

Volta, Thrash! Se Holier Than Thou cheirava ao antigo Metallica, Don’t Tread on Me é uma espécie de “nunca vou te abandonar”! É a faixa que dá um gostinho de “não somos comerciais” aos fãs do Metallica mais pesado. Ainda que não seja Master of Puppets, e ainda que o refrão seja mais suave que alguns sons guturais aqui e ali, a faixa tem seu charme.

Don’t Tread on Me é sobre guerras. É sobre a ideia de que, para preservar a paz, é preciso se preparar para a guerra. É sobre o patriotismo norte-americano, o “ame-o ou deixe-o”. E o título da faixa se via estampado em bandeiras amarelas, carregadas pelos soldados da força naval norte-americana, onde também se via uma cobra em espiral, a qual estampa a capa do Black Album.

7. Through The Never

E o peso continua… como pano de fundo para um verdadeiro ensaio filosófico sobre a humanidade! É aquela velha discussão sobre o quanto de conhecimento acreditamos ter acumulado ao longo dos tempos, e quão pequenos somos, frente a vastidão do universo. É sobre questionar o quanto realmente sabemos, visto que nosso conhecimento se limita ao fragmento cósmico que somos. Ainda que nos consideremos seres evoluídos, a verdade é que não passamos de primatas ignorantes.

8. Nothing Else Matters

Esta é a canção do Metallica com maior número de versões cover! Só neste site aqui, tem 48 versões diferentes, incluindo uma da Shakira!

A melodia foi composta enquanto o vocalista da banda, James Hetfield, falava com sua namorada ao telefone. Por isso o dedilhado em quatro cordas soltas: ele só tinha uma mão livre, já que, com a mão esquerda, segurava o telefone!

A letra também foi dedicada a sua namorada, como que para lembrá-la que estavam sempre juntos em pensamento, ainda que a distância fosse grande, por conta das turnês.

So close, no matter how far…

9. Of Wolf And Man

Impossível ouvir esta faixa e não converter-se instantaneamente em um headbanger! A batida faz a cabeça chacoalhar incessantemente pra frente e pra trás, na cadência da bateria. Contagiante.

A letra traça um paralelo entre a figura mística do lobisomem e a fera que habita cada um de nós. Somos todos selvagens e racionais.

Ceifando a terra. Tomando as ovelhas abatidas.

10. The God That Failed

Esta canção é uma homenagem póstuma a mãe de Hetfield, que morreu de câncer. Ela era cristã fervorosa, e acreditava que Deus a curaria de sua doença, de forma que acabou recusando tratamento médico. Por fim, a cura divina não veio, e ela veio a falecer. Como diz o título desta faixa, sua mãe colocou toda sua esperança n’O Deus Que Falhou.

Esta foi a forma que o vocalista da banda encontrou para demonstrar sua ira contra um deus que falhou, não correspondendo à fé que sua mãe nele depositou.

11. My Friend Of Misery

Adoro a linha de baixo desta faixa! É de uma simplicidade perfeita, daquele tipo que soa complexo, mas não é. É aquela máxima da perfeição que reside na simplicidade. Menos é mais.

Ao contrário da linha de baixo, temos a vida miserável do sujeito que reclama de tudo e de todos, que se faz de vítima, que não é capaz de enxergar nada de positivo em si mesmo, nos outros ou no mundo.

Nessa Era de Mídias Sociais, isso é o que mais tem por aí… Tudo está ruim, tudo está errado, nada dá certo, ninguém escuta as dores dos outros, o mundo vai acabar em merda – e não vai ter merda pra todo mundo… e assim por diante…

12. The Struggle Within

E chegamos à última faixa do álbum, com os tormentos de uma mente perturbada, assombrada pela baixa auto-estima e incontáveis atos de auto-sabotagem.

A cadência quase que militar da bateria soa como o exército de vozes na cabeça de alguém que não consegue acreditar em si mesmo. Esta faixa soa como continuação da anterior. É o ser miserável, que estraga o dia de todos ao seu redor, e permite que sua mente ataque-o sem parar, colocando-o para baixo, até que atinja o fundo do poço.


Por que escolhi Metallica para homenagear Leme? Por ser a terra do metal, onde vivem grandes amigos que curtem metal, onde se ouve metal em praticamente todos os bares, todos os carros, todas as casas… Então, não tinha melhor forma de agradecer tais amizades, que falar de uma banda que faz parte da coleção de álbuns e de shows de cada um deles!

E porque vendeu mais de 21 milhões de cópias, nada mal para uma banda de metal!

E porque a banda apostou todas as fichas nessa mudança do Thrash para o Metal, e conseguiu fazê-lo com maestria!

Metallica, com seu Black Album, figura na posição número seis da minha lista de álbuns pra se ouvir de ponta a ponta!

Meu muito obrigado aos meus amigos de camiseta preta de Leme, sempre!


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