Jagged Little Pill | Alanis Morissette

Primeira cantora a figurar na minha lista. E primeiro álbum que não vem de uma banda. E primeira aparição de um álbum que não vem nem dos Estados Unidos, nem da Inglaterra. Mas este não é o primeiro álbum dela, como muita gente pode pensar…

Jagged Little Pill é o terceiro álbum de estúdio de Alanis Morissette. Os dois primeiros, Alanis e Now Is The Time, foram lançados somente no Canadá. Enquanto o primeiro rendeu-lhe um disco de platina em seu país-natal, o segundo foi considerado um verdadeiro fiasco, tanto comercialmente quanto pela crítica. De certa forma, Jagged Little Pill foi o primeiro álbum de Alanis tal qual a conhecemos.

Seu álbum de apresentação ao mundo, diferentemente de seu tão malhado segundo álbum de estúdio, atingiu a impressionante marca de 25 milhões de cópias vendidas, das quais 16 milhões foram vendidas nos Estados Unidos, figurando entre os 20 álbuns mais vendidos de todos os tempos naquele país.

O divisor de águas entre os dois primeiros álbuns e este que foi seu mais bem sucedido trabalho, foi a parceria com o produtor musical de Los Angeles, Glen Ballard, que deu à sonoridade de Alanis um ar menos pop e mais rock, com fortes influências do pós-grunge.

As letras são destaque neste álbum, abordando temas como ansiedade, relacionamentos abusivos e separações traumáticas.

O álbum ganhou, neste ano, um musical homônimo, assinado por Diablo Cody. Dá pra contar nos dedos quantos trabalhos foram adaptados para o teatro, então este feito dá ainda mais crédito a este álbum que foi produzido pra se ouvir de ponta a ponta.


1. All I Really Want

O álbum começa com uma espécie de hino às milhares de mulheres que se sentem diminuídas por relacionamentos abusivos. A personagem desta canção tem sede de viver, mas seu companheiro a poda de todas as maneiras possíveis. Ela já não suporta mais, e começa a dizer o que ela realmente quer de sua vida.

Não! Ela não é a Odette, desta lendária esquete do Porta dos Fundos! Mas a personagem de Alanis se compara a Estella, do livro Grandes Esperanças, de Charles Dickens.

Chega de mim, vamos falar de você por um minuto. Chega de você, vamos falar da vida por um momento. Os conflitos, a loucura e o som das pretensões caindo por todos os lados. Por que você está petrificado, em silêncio?

2. You Oughta Know

Primeiro, a lenda urbana. Esta canção seria um desabafo de Alanis a seu ex-namorado, o ator Dave Coulier. Alguns acreditam que All I Really Want também seria dedicada a seu desafeto de 1992, então estas duas faixas seriam uma espécie de sequência sobre o mesmo tema.

Em entrevista ao BuzzFeed, Coulier disse que, depois de muitos questionamentos acerca desses boatos, telefonou para Alanis, e ela disse que a música poderia ser sobre qualquer um, e que ele, Coulier, poderia dar a resposta que quisesse a tais questionamentos. E foi quando ele finalmente disse: “Sim, sou eu.” – e a lenda se tornou real.

Mas a verdade é que a letra pode ser sobre qualquer cara que abandona qualquer mulher, desprezando-a e fingindo que ela nunca existiu.

3. Perfect

Primeira balada do álbum, que vem como que para acalmar os ânimos, depois dos múltiplos tapas na cara das duas primeiras faixas. Perfect vem mais introspectiva, mas ainda assim com uma boa dose de sarcasmo. Trata-se das inúmeras expectativas nada razoáveis que pais projetam sobre seus filhos.

Seja um bom menino, tente um pouco mais. Seja uma boa menina, você tem que tentar um pouco mais. Aquilo simplesmente não foi bom o bastante para nos orgulharmos.

4. Hand In My Pocket

Esta é a versão da Alanis para aquela expressão popular “nós é pobre mas é limpinho”. Mostra uma garota em conflito consigo mesma, tentando se provar ao mundo e se justificando a tudo e a todos, como se realmente devesse algo a alguém.

E o refrão vem pra escancarar o conflito interno entre a garota insegura e a expansiva e cheia de confiança em si mesma. Ela tem uma mão no bolso, representando apatia, hesitação, indiferença, enquanto que a outra está cumprimentando a todos, fazendo sinal de paz, tocando piano, em clara demonstração de receptividade ao outro.

5. Right Through You

Alanis exorcizou todos os seus demônios neste álbum, e esta faixa não poderia ser diferente. Ao invés do ex-namorado ou dos pais ou de sua própria auto-estima que flutua entre total confiança e questões acerca de suas reais capacidades, aqui ela fala daquele produtor musical canadense que ignorou suas qualificações musicais, e apenas se focou em seus atributos físicos.

Primeiro veio o conflito da transição da garotinha para a jovem Alanis e o foco em outros temas, outras letras, com as quais seu antigo produtor não compactuava. Depois veio o interesse mais pelo seu corpo que pela sua música e, por fim, o rompimento e o encontro com seu novo produtor em Los Angeles, o qual levou-a ao estrelato e respeitou-a como artista.

Mais um tapa na cara. Isso a Alanis sempre soube fazer muito bem!

6. Forgiven

No fun with no guilty feelings…

É assim que Forgiven se apresenta. Novamente a garota que vive em conflito entre aquilo que deseja e aquilo que aprendeu desde pequena que pode ou não pode fazer. Mas aqui um fator adicional é inserido: o poder esmagador da religião sobre nossos sentimentos e vontades e desejos.

7. You Learn

Mas, como já dizia Roger, do Ultraje a Rigor, “depois aprende por aí, que nem eu aprendi”. E esta canção se contrapõe perfeitamente à anterior. Sabe aquela censura toda exercida pela religião? Então, a vida vem e ensina tudo para aquela garota católica, e esse aprendizado é dolorido, mas libertador. A ponto dela vivenciar e se orgulhar disso tudo e recomendar aos outros que passem pelos mesmos erros e acertos!

Eu recomendo ter o coração partido por qualquer um. Eu recomendo andar pelado pela sala de estar. Eu recomendo ter o olho maior que a barriga. Eu recomendo que você fale sem pensar, a qualquer hora. Se deixe levar, se desprenda (você vai se desprender eventualmente, de qualquer jeito).

Você vive, você aprende. Você ama, você aprende. Você chora, você aprende. Você perde, você aprende. Você sangra, você aprende. Você grita, você aprende. Você se aflige, você aprende. Você se sufoca, você aprende. Você ri, você aprende. Você escolhe, você aprende. Você reza, você aprende. Você pergunta, você aprende. Você vive, você aprende…

Definitivamente, minha música e letra favoritas deste álbum! E ouvi-la em 2009 ao vivo no Via Funchal foi demais!

O vídeo não fui eu quem gravou. Tive a sorte de achá-lo no YouTube.

8. Head Over Feet

Exorcizados os diversos demônios que aterrorizavam sua mente, Alanis – ou a personagem de seu álbum – sente-se livre para amar e ser amada. Aqui temos um casal que se ama e se respeita, tendo um ao outro como amantes e melhores amigos. A garota, antes torturada por traumas diversos, agora agradece a seu amigo-amante pelas suas boas maneiras, amor e devoção.

9. Mary Jane

E não é que alegria dura pouco? Uma vez exposta a repetidas situações traumáticas, os fantasmas acabam sempre voltando. E aqui temos Mary Jane, a garota que dedica sua vida aos outros, buscando sempre a felicidade alheia e descuidando-se de sua própria felicidade.

Então aproveite este momento, Mary Jane, e seja mais egoísta. Não se preocupe com os carros que vão e vem, tudo que importa é sua liberdade.

Apesar das boas intenções, esta canção causou furor e longos textos de protesto por parte de grupos feministas, entendendo que os conselhos de Alanis a Mary Jane causam mais mal que bem. E, ao que parece, elas estão certas! Leia bem a letra e verá que os conselhos parecem vir não de alguém que quer realmente ajudá-la. Os conselhos parecem mais querer diminuí-la, enquanto indivíduo, que reforçar sua independência.

O que há, Mary Jane? Teve um dia difícil? Ouvi dizer que está perdendo peso de novo, Mary Jane. Já se perguntou para quem o está perdendo?

10. Ironic

Esta foi a faixa de trabalho do álbum, com direito a clipe engraçadinho na MTV e tal. E, ao que parece, a estratégia funcionou! Mas o risco que correu era grande, convenhamos. Ironic é o sarcasmo em pessoa, mas esse sarcasmo vem com respeito não a uma pessoa, mas a situações cotidianas. Trata-se de aceitar que merd*s acontecem e seguir em frente. Mas a pegada mais pop desta faixa poderia matar o resto do álbum, o que, para nossa felicidade – e da Alanis – não aconteceu.

Pode assumir, não tenha vergonha. Você já cantou essa música, abrindo a boca até não aguentar mais, só porque a Alanis canta desse jeito no clipe, não é verdade?

11. Not The Doctor

Cada vez que ouço este álbum, sinto mais e mais que homens, como eu, são uma desgraça psicológica na vida das mulheres! Começa lá atrás, com a relação entre filha e pai, sua adoração pela figura daquele que deveria protegê-la e, ao mesmo tempo, reforçar sua capacidade de seguir em frente por conta própria, e todas essas coisas que os psicólogos sabem melhor que eu. Mas acho que a gente não faz a coisa direito, seja no papel de pai – espero que não esteja traumatizando, de alguma forma, minhas filhas – ou no papel de namorado, marido, amigo e assim por diante. Talvez porque os pais não ensinavam às filhas que elas podiam seguir em frente por conta própria, e dava exemplos não lá muito exemplares aos filhos, e assim se perpetuava o patriarcado. Sei lá.

Tudo isso pra explicar que Not The Doctor é sobre a garota que vomita todas as coisas que ela não aceita ser para o cara que exige sua presença, mas sob seus absurdos e abusivos termos. Not The Doctor é Alanis dizendo tudo que ela não aceita ser àquele imaturo homem ao seu lado apenas quando lhe é conveniente.

Homens, acordem! Está na hora de crescermos! E depois tem gente que diz que Feminismo é mimimiMimimi é quando homens percebem que anos de mimos e desejos atendidos na hora que eles querem estão com os dias contados…

12. Wake Up

Esta parece ser continuação da faixa anterior, mas com toda aquela raiva sob controle. É o tapa na cara final, e mais frio e duro de engolir. Esta é a pílula de gosto ruim, mas quem tem que engolir são todos aqueles que a fizeram se sentir mal no passado.

Você gosta de neve, mas só se estiver quente.

Você gosta de chuva, mas só se estiver seco.

Você gosta de dor, mas só se não for tão intensa.

Você senta… e espera… pra receber.

Não há mais amor, nem dinheiro, nem emoção.

Há um menino desprotegido, morrendo de medo, com as mãos na cabeça.

E uma menina menosprezada e impaciente, levantando a mão.

Porque é fácil não valorizar, tão mais fácil não valorizar.

Porque é fácil não tentar, tão mais fácil não tentar.

Mas é fácil ignorá-los, tão mais fácil ignorá-los.

Aqui se faz e não se paga, vale só para você.

Levante, levante, levante e saia.

Dê o fora, dê o fora daqui, já chega.

Levante, por favor.

Acorde!

13. You Oughta Know / Your House (a cappella)

E a fúria deste álbum termina de forma sublime. Uma faixa oculta, ao final de versão da segunda faixa. Um pedido de desculpas à capela.

Não consigo saber se esta faixa se trata da garota que buscava seu lugar no mundo, que clamava por respeito e distribuía tapas na cara por aí, e que agora vem e pede perdão a seu parceiro, ou se seria o rapaz que vem e clama por perdão.

Quem quer que seja, sabe que não deveria estar ali, que invadiu o apartamento dele ou dela, e que deve sair logo, porque quem habita aquele espaço logo estará de volta. Seria aquela última visita ao espaço que dividiam, antes que não se vejam nunca mais?


Por que Jagged Little Pill está na minha lista de álbuns pra se ouvir de ponta a ponta? Porque foi um dos álbuns mais vendidos de todos os tempos. Porque trata-se de uma super produção musical, que navega entre o pop e o rock. E porque as letras são verdadeiros tapas na cara ao comportamento machista, nos fazendo refletir sobre as muitas merd*s que a gente acaba sempre fazendo, por mais que a gente ache que não somos machistas.

A verdade é uma só: a gente se esforça, mas é preciso muita consciência e auto-conhecimento para não deslizar e cometer um ato machista, quando isso é o que a sociedade nos ensinou desde pequenos. Não estou buscando desculpas, estou apenas assumindo que, se a gente descuida, acaba fazendo alguma idiotice aqui ou ali. Porque foi isso que a gente aprendeu desde pequeno, se não em casa, na rua, com os amigos, nas novelas, nas músicas, nos filmes. O machismo ainda vai nos assombrar muito, anos a fio…

Prova disso é Mary Jane! Até a letra de Alanis já foi criticada por movimentos feministas! Acredito que Alanis queria que a letra representasse a fala do homem que abusa psicologicamente de Mary Jane, mas não encontrei nenhuma explicação dela a respeito, então fico aqui com minhas suposições.

Verdade seja dita: mimimi é coisa de homem que não quer perder seus privilégios. E Alanis, neste álbum, fez arruaça na zona de conforto de muito, mas muito marmanjo por aí. E é por isso que ela está aqui na minha lista. Obrigado, Alanis! And don’t be alarmed if I fall head over feet.

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