Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas | Titãs

O álbum de # 8 da minha lista é o primeiro de rock nacional, e vem daquela que é, sem duvida alguma, a melhor banda de rock brasileiro de todos os tempos da última semana: os Titãs.

Apesar da fiel legião de fãs de Renato Russo e sua banda, meu gosto pessoal prefere exaltar os rebeldes do Titãs. A Legião Urbana foi uma super banda de rock nacional, isso é fato inegável. Mas enquanto a Legião é poesia, os Titãs são pedrada. Enquanto a Legião é The Smiths, os Titãs são Sex Pistols. A Legião é Shakespeare, os Titãs são Bukowski.

A história dos Titãs meio que seguiu aquela fórmula da Jornada do Herói de Joseph Campbell.

Começaram com Titãs, o primeiro álbum. Era o mundo normal, tal qual o conhecíamos, das bandas de rock nacional dos anos 80. Veio então o segundo álbum, Televisão, e a crise de um quase fracasso em vendas. Eles precisavam embarcar em uma jornada ao desconhecido, e daí saiu Cabeça Dinossauro, álbum que dispensa apresentações. Mas aquela fúria juvenil vinha acompanhada de letras igualmente pueris. Pense em Bichos Escrotos. Pense em Polícia. Pense em Homem Primata. Aquele álbum mudou os Titãs, mas ainda faltava amadurecer as letras. E foi no quarto álbum da banda, Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas, que essa mudança se concretizou. E aquele álbum ajudou a moldar uma geração de rebeldes, da qual orgulhosamente faço parte!

Comida. Infelizmente. Desordem. Lugar Nenhum. Me lembro do Primeiro Colegial, aulas de interpretação de texto. A professora do Monsenhor Bicudo, em Marília, interior de São Paulo, trazendo um gravador, a fita cassete com o álbum e as letras impressas a mimeógrafo. Quantas bandas mais conquistaram o privilégio de terem letras de suas músicas estudadas e debatidas em sala de aula?

A rebeldia do álbum começa no título, uma provocação a um país onde todos querem que Jesus lhes dê as coisas mastigadas, de mão beijada, sem que se tenha sequer o trabalho de mastigar o pão. Na foto de capa, pilares em uma construção secular, possivelmente a Acrópole em Atenas, na Grécia, dando a ideia de perpetuidade à passividade do povo com relação ao status quo. Contrastam-se nas melodias a sonoridade ora eletrônica e crua, ora influenciada pelo punk-rock, igualmente crua. Por fim, ao invés dos tradicionais lados A e B, o vinil vem com os lados T e J, as variações em sonoridade devidamente separadas entre T e J.

Questões existenciais são vomitadas o tempo todo na nossa cara, ao longo dos pouco mais de 37 minutos desse álbum.

Primeiro, que o que uma pessoa má realmente quer é amor. Pessoas realizam verdadeiras atrocidades porque, de alguma forma, querem ser amadas. Podemos debater se querem ser amadas ou admiradas ou temidas ou respeitadas. De forma torta, essa vontade de fazer sobressair o eu sobre o todo também é uma forma de buscar o amor. Distorcido. Doentio. Mas é amor. E o que é o amor de verdade? Qual a diferença entre amor e sexo? Porque quem tem [um monte de palavrão que não vou reproduzir pra não ser censurado] quer amor de verdade!

Depois vem Arnaldo Antunes nos perguntando sobre nossa fome. Temos sede de quê? Temos fome de quê? Muito se fala sobre sede de viver, mas parece que pouco aprendemos sobre isso nestes últimos trinta anos…

Terceira faixa do álbum, O Inimigo deveria virar hino nas redes sociais, repetido à exaustão! “Às vezes você tem razão, às vezes não.” – porque hoje em dia, todo mundo quer ter razão em tudo. Sempre. E poucos realmente param pra pensar que, às vezes, o inimigo está aqui, bem dentro de nós. Por conta da individualidade, acabamos agindo como inimigos de nós mesmos.

E esses conflitos todos entre o que é o amor, o que a gente quer da vida, quem é nosso inimigo, acabam se resumindo na quarta faixa do álbum, Corações e Mentes.

Eu não suporto mais violência e paixão. | Não aguento mais viver dentro dessa prisão. | Meu amor, minha guerra, eu erro e você erra. | Às vezes acho que te amo, às vezes acho que é só sexo.

Diversão parece vir como resposta às questões anteriores. E essa parece ser, inevitavelmente, a saída adotada por muitos de nós. A vida está uma m*rda, mas a gente segue em frente, porque sabe que vai ter um fim de semana lá na frente. A gente sobrevive de segunda a sexta, para se iludir com uma vida de sexo, drogas e diversão no final de semana. E aí bate o remorso, a gente percebe que tudo isso é fútil. Mas que se f*da! O que a gente quer é diversão, porque diversão é solução pra mim.

E esse mundo de diversões fúteis segue vida afora, até que a gente percebe que já estamos velhos e acabados e não aproveitamos a vida de fato. Infelizmente. Mas não se preocupe. Porque, “quando enfim chegar a tua hora, não vão pôr flor ao pé da tua cova.”

E assim fecham o lado T, com a faixa-título do álbum, que resume muito bem a narrativa de seu lado eletrônico. E que nos venha tudo de mão beijada. E a gente agradece e louva a Jesus pelo pão mastigado.

No lado J, saímos da crítica ao “eu” e seguimos pela crítica ao “todo”. Aquele todo que nos ensina a mentir, dando o exemplo da mentira o tempo todo. Aquele todo que defende a ordem no discurso, mas toma medidas que contrariam seu discurso o tempo todo. Olha esse trecho, não parece que foi escrito em meio à paralisação dos caminhoneiros?

São sempre os mesmos governantes, os mesmos que lucraram antes. | Os sindicatos fazem greve porque ninguém é consultado. | Pois tudo tem que virar óleo pra por na máquina do Estado.

Lugar Nenhum vem da interminável busca do brasileiro por um lugar melhor pra se viver. Me incluo nesse grupo aí. O grupo de brasileiros que teve a oportunidade de sair e viver mundo afora, ou aqueles que simplesmente puseram a cara a tapa e foram tentar a vida por aí, legal ou ilegalmente, tendo uma proposta de trabalho ou apenas um sonho e a sorte toda desse mundo. Para muitos, esse é o sentimento mesmo. Aquele sentimento de que “nenhuma pátria me pariu”. É trocar o status de expatriado pelo sem-patriado, com o perdão da liberdade ortográfica.

E, para muitos brasileiros, fica o dilema entre defender uma bandeira, tomar partido, seguir um lado da ideologia política, tão distorcida nos dias de hoje, ou escolher seguir adiante, sem Armas Pra Lutar. Sabe o rótulo de “isentão” que botam na gente, quando não conseguem nos atormentar com provocações sobre ser “coxinha” ou “esquerdista”? Sabe aquela coisa que dizem, que quem não toma partido, permite que os outros decidam por ele? Tem gente tão desiludida com tanta mentira, desonestidade intelectual e até mesmo ignorância, que acaba preferindo “Prosseguir desarmado, suportar desarmado, desarmado, sem armas pra lutar”.

Nome Aos Bois fecha de forma corajosa o lado T do vinil. Nada mais que uma lista de nomes. Nomes de alguma forma conectados. Nomes que contribuem para todas as frustrações vomitadas ao longo do álbum. A lista vai de políticos a líderes de seitas religiosas, passando por nomes do capitalismo mundial e até mesmo apresentadores de TV. Uma versão atualizada dessa faixa não seria viável, visto o infindável número de nomes a serem adicionados. Se lançassem uma versão 2.0, não seria Titãs, mas Pink Floyd! [Desculpem-me os fãs da banda que faz música de 26 minutos, como é o caso de Shine on You Crazy Diamond.]


No CD, incluíram posteriormente a faixa-bônus Violência, cuja poesia e sonoridade conflitam com o restante do álbum. O tema é consistente, a forma não. Na minha opinião como fã da banda, um erro tê-la incluído.


Sabe quando dizem que não se faz mais música brasileira como antigamente? Para mim, essa afirmação faz todo sentido. Rock como o dos Titãs não é pra se dançar, é pra se pensar. Mas se o que buscamos é diversão, nesse quesito estamos muito bem representados nos dias atuais. Espero apenas que não tenham escolhido sua comida e sua bebida por você…

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