O Processo | Franz Kafka

Companhia das Letras, 1997

Não existe erro possível. As autoridades de que dependemos, tanto quanto as conheço, e apenas conheço os escalões mais baixos, não são do género de ir procurar a culpa no seio da população; pelo contrário, como diz a lei, é a culpa que as atrai, e elas devem então mandar-nos, os guardas. É a lei. Onde poderia haver erro?

Imagine-se nesta situação. Num dia qualquer, você se desperta e segue seu ritual matinal, como fosse aquele um dia comum. Mas logo percebe que aquele seria o dia no qual sua vida mudaria para sempre.

Num pequeno cômodo da pensão em que reside, no qual o café da manhã costuma ser servido, dois estranhos aguardam por você. Anunciam sua detenção, em decorrência de um processo judicial que acabara de ser instaurado. O mérito da causa? Você, o acusado, saberá no momento oportuno. Difícil é precisar quando chegará esse tal momento oportuno…

O acusado, Franz K., ou simplesmente K., vê sua vida desmoronar ao longo da insana tentativa de defender-se de um processo cuja linha de acusação tampouco lhe é permitido conhecê-la.

A história pode ser interpretada sob os mais diversos ângulos.

Por um lado, provavelmente o mais óbvio, a história escancara a burocracia processual que permite a corrupção no meio judicial, e uma verdadeira indústria de recursos, favores e influências que se alimenta da lentidão da justiça.

Por outro lado, permite-nos visualizar a crueldade da vida em sociedade, quando alguém é malhado em praça pública, sem direito à defesa. Somos primeiramente acusados, detidos, e só então nos é permitida a defesa, quando talvez já seja tarde demais.

Um fato curioso sobre O Processo é que a história foi publicada como obra póstuma, e claramente se tratava de obra inacabada. Foi o escritor tcheco, Max Brod, quem trouxe a público a história, por ele compilada a partir de manuscritos deixados pelo seu amigo, Franz Kafka, um ano após sua morte. Existem diferentes versões d’O Processo, as diferenças sendo a forma que os capítulos foram dispostos e quais foram deixados de lado, na forma de apêndice ou simplesmente ignorados.

Essa história por trás da história, por si só, já valeria um livro ou filme! Mas também serve de alerta: se não gosta de histórias com finais abertos, ou cuja narrativa soa confusa ou quebrada, este provavelmente não é um livro para você. Busque outros livros de Kafka. Comece pel’A Metamorfose, por exemplo, seu livro mais famoso. Mas não deixe de conhecer a obra deste que é meu segundo autor favorito, logo atrás de George Orwell.

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