The Wall | John Lanchester

concretoáguaventocéu:

concreto

água

vento

céu:

é basicamente sempre o mesmo.

O jornal Daily Express classificou esta distopia de John Lanchester como “Um 1984 para os nossos tempos”. Foi essa frase que me fez desenvolver certa curiosidade por este então desconhecido livro, após me deparar com um cartaz numa estação de metrô em Londres, e agradeço ao Daily Express por isso! A comparação não poderia ser mais adequada.

O ano é incerto, mas se trata de um futuro não muito distante. Daqui trinta, talvez cinquenta anos. O aquecimento global resultou no aumento do volume dos oceanos, de forma que países começaram a construir muros para evitar a perda de parte de seus territórios para o mar. Com as mudanças climáticas, vieram seus impactos na agricultura e pecuária. Terras antes férteis passaram a ser improdutivas. Variações de temperaturas se acentuaram, as regiões frias ficando ainda mais frias, as regiões quentes atingindo temperaturas desérticas. Mas nada disso é explicitamente citado no livro. Essas passagens são sutilmente abordadas, e apenas explicam o por quê dos jovens terem desenvolvido verdadeira ojeriza pelos mais velhos. “Eles foderam com o mundo!”

Existia um mundo no qual pessoas eram livres para transitar entre países, ainda que houvesse algum grau de controle de imigração. Um dos prazeres da vida era passar o tempo de frente ao mar, fosse em um resort exclusivíssimo, fosse deitado na areia, apreciando a brisa e o sol e o barulho das ondas. Mas não mais. Nesse futuro não muito distante, tudo se resumia ao muro. Aquele que foi originalmente construído para evitar o avanço das águas sobre a terra. Aquele que, posteriormente, isolou os países uns dos outros. Existia o povo. E existiam os Outros. Eles, os Outros, eram uma ameaça a ser combatida. E, para tal, jovens passavam dois anos de suas vidas em serviço obrigatório de proteção do muro. Eram dois anos contados, minuto a minuto, até que aqueles 730 dias chegassem ao fim. Isso se nada acontecesse. Porque sempre havia o risco de um confronto direto com os Outros. E tais confrontos eram, literalmente, casos de vida ou morte. Proteja o território contra os Outros, e terá sua vida de volta após esses 730 dias. Permita que Outros adentrem nosso território, e será lançado ao mar. Um entra, um sai. Essa era a regra não escrita. Esse era o temor de todo Defensor em serviço no Muro.

Trump e seu muro entre Estados Unidos e México. Boris Johnson e seu Brexit. Os muitos imigrantes ilegais que morrem afogados ao tentarem, desesperadamente, deixar para trás Síria ou outros infernos, em seus frágeis botes infláveis, e aportar em território europeu. Venezuelanos em fuga para Brasil ou Colômbia. Os exemplos são muitos, e estão todos aí, bem na nossa cara. O mesmo vale para o derretimento das regiões frias ao norte, o desprendimento de enormes blocos de gelo, as temperaturas subindo ao longo dos anos. O futuro imaginado por Lanchester está sendo construído hoje. Nós somos os velhos que foderam com a realidade que está por vir.

The Wall ainda não foi traduzido para o português. Ainda. Espero que alguma editora se disponha a fazê-lo. Porque esta é leitura mais que obrigatória para nossa geração. Assim, quem sabe, possamos fazer algo, hoje, para não sermos aqueles que foderam com o mundo daqueles que passarão dois anos de suas juventudes em serviços obrigatórios de vigilância de nossas terras contra a invasão dos Outros.

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