O Perdigueiro e o Asno

por Lara Märchen *

Há séculos e séculos, num pequeno rancho às margens da Floresta Negra, na Germânia, vivia um jovem fazendeiro, chamado Michael Markel. Faziam-lhe companhia seu fiel perdigueiro, uma dezena de ovelhas, algumas galinhas, um asno e uma mula.

Apesar de jovem, o Senhor Markel era viúvo. Sua esposa foi atacada pelo Monstro da Floresta Negra, alguns dias após fugir de casa com seu amante, um domador de leões de um circo que passou pelo vilarejo. Seu corpo dilacerado, ossos e órgãos internos à mostra, foi encontrado por Pergie, o perdigueiro. Pelo ato de bravura, avançando floresta adentro, em busca da esposa do fazendeiro, o cão acabou conquistando sua confiança, bem como respeito e admiração de todos os animais da fazenda.

Moradores contavam, de geração em geração, a história de um monstro maligno que habitava a Floresta Negra, protegendo-a da invasão dos homens. Segundo a lenda, o Mostro da Floresta, uma espécie de ogro com longos caninos projetados para fora da boca e poderosíssimas garras, devoraria quem quer que se atrevesse a invadir seu território. Com a morte daquela mulher, a antiga lenda do Monstro da Floresta provou-se real, ganhando força entre os moradores do vilarejo. Ótimo para o Senhor Markel, sobre quem jamais levantou-se a menor suspeita que fosse sobre o assassinato, com requintes de crueldade, de sua esposa. Excelente para Pergie, que ganhou posição de destaque, como líder dos animais daquele rancho. Isso porque ele, o perdigueiro, foi o último a sair vivo daquela floresta assombrada.

Numa manhã de maio, seguindo sua rotina diária, o fazendeiro dirigiu-se ao celeiro, onde se deparou com uma cena aterrorizante. Para seu desespero, encontrou ali asno e jumenta mortos, e seu perdigueiro coberto em sangue. Havia presenciado cena parecida antes, mas não em suas terras. Aquilo foi anos atrás, no coração da Floresta Negra. E, ao invés de seus animais de trabalho, o corpo no chão era o de sua esposa. Naquele caso específico, a culpa recaiu sobre o Monstro da Floresta Negra. Mas como explicar tamanha barbaridade em sua propriedade?

O desespero levou o jovem fazendeiro a um estado de paralisia, até que presenciou um par de milagres envolvendo sua mula. Observando cuidadosamente seu corpo, pôde notar alguns movimentos no interior daquilo que sobrou de seu ventre. Sem titubear, tomou um velho facão em mãos e, após alguns longos cortes, retirou dali um pequeno filhote de jumento, ainda vivo.

A comunidade local foi chamada para presenciar o duplo milagre que aquele filhote representava. Primeiro, por ter sido gerado por uma mula, animal esse condenado pela natureza à esterilidade. Segundo, por ter sobrevivido a tamanha brutalidade, muito provavelmente um inesperado ataque do Monstro da Floresta, fora de seu território sagrado. Temendo novos incidentes, a comunidade se juntou em mutirão para construir uma alta cerca de madeira, separando o vilarejo daquela floresta amaldiçoada, para que o mostro fosse confinado em seu território e não voltasse a vitimar outrem fora dali.

O jovem fazendeiro passava a ser agraciado não apenas pela companhia de seu fiel e corajoso perdigueiro, mas também por um pequeno e sagrado filhote de mula, batizado Assie.

Conforme o tempo passava e o pequeno Assie crescia, ele se espelhava no seu herói, Pergie, em absolutamente tudo. Agia não como um asno, mas sim, como cria d’um perdigueiro. Ajudava no pastoreio das ovelhas, vigiava as galinhas durante a noite, sentava-se ao lado do fazendeiro na sacada do rancho e dali contemplava, em silêncio, a beleza do pôr do sol avermelhado de outono.

O que, a princípio, era uma ajuda mais que bem-vinda ao perdigueiro, acabou se transformando em acirrada competição pela atenção do Senhor Markel. Pergie estava realmente enciumado, e faria qualquer coisa para reaver sua posição de destaque naquele rancho.

Numa noite escura de lua nova, o céu encoberto por nuvens, nenhuma estrela que fosse à vista, Pergie chamou o pequeno Assie para uma conversa. “De pai para filho”, disse, e saíram caminhando em direção àquela alta cerca de madeira que demarcava os limites da Floresta Negra. Nela, uma única falha, uma ripa removida, permitindo a passagem entre o território seguro e o amaldiçoado. Sentado ao lado do asno, o olhar distante, começou sua confissão.

  • Assie. Você sabe o que se esconde por trás dessa cerca?
  • O Monstro da Floresta Negra?
  • Não, Assie. Por trás dessa cerca, se esconde um segredo. Você quer que lhe conte esse segredo?
  • Sim! Me conta! Me conta! – respondeu, com extrema excitação, o pequeno Assie.
  • Posso lhe contar, posso sim! Mas, como dizem por aí, existe apenas uma maneira de manter um segredo, uma vez compartilhado…
  • Me conta! Me conta, vai?
  • Tudo bem… Já que insiste… Assie, por trás dessa cerca, mora um segredo. Um segredo entre o fazendeiro e eu. A esposa do Senhor Markel também sabia desse segredo, mas não está mais aqui para contá-lo a mais ninguém…
  • E qual é esse segredo, Pergie? Me conta, me conta!
  • Assie. O segredo é que não existe nenhum Monstro da Floresta.
  • Como assim? Todos sabemos que foi o monstro que matou a Senhora Markel! Foi esse mesmo monstro, a propósito, que matou minha mãe, e quase me matou antes mesmo d’eu ter nascido…
  • Quem matou a Senhora Markel foi o fazendeiro. Quatro machadadas. Uma na cabeça, outra nas costas, outra no peito e uma última na barriga.
  • Mas e quanto ao monstro? E as histórias que ouvimos, que você o afugentou, mas que já era tarde demais, e que a Senhora Markel não sobreviveu àquele ataque violento? E como se explicam as partes devoradas de seu corpo?
  • Fui eu quem a devorou, estraçalhou, despedaçou. Não podia deixar o fazendeiro ser condenado por aquele ato de defesa de sua própria honra. Foi então que me ocorreu que poderia despedaçá-la e então latir, incansavelmente, como fosse um pedido de socorro. Quando a população chegou ao local, lá estava eu, coberto de sangue, o corpo do Senhora Markel no chão. “Foi o Monstro da Floresta Negra!”, logo gritaram em coro. O plano havia funcionado. Foi aí que ganhei o respeito do fazendeiro, e posição de destaque entre os animais da fazenda.
  • Mas, se não existe Monstro da Floresta, quem teria assassinado meus pais?
  • Na noite anterior à morte de seus pais, sua mãe me confidenciou parte de um segredo. Ela me disse que meus dias de privilégios estavam contados. Perguntei o porquê de sua certeza, e ela me disse que, muito em breve, tomaria meu lugar. Não entendi muito bem onde ela queria chegar com tal revelação, até mesmo ignorei tal ameaça. Até que, na manhã seguinte, o veterinário veio examiná-la, e pude ouvi-lo comentando com o fazendeiro de que aquilo era um milagre, que aquela mula era especial e que deveria ser poupada de trabalhos até o grande dia. Não sabia o que tudo aquilo significava, mas podia sentir que as ameaças de sua mãe eram mais concretas do que podia imaginar. Foi então que desenhei meu plano.
  • Você matou minha mãe?
  • Não! Por mais forte que seja, não seria capaz de abater um asno e uma mula. Mas poderia muito bem despedaçá-los depois de mortos… E foi assim que trouxe veneno de rato para a cocheira, esperei que seus pais caíssem desacordados, e então comecei meus trabalhos. O que sabia era que deveria agir rapidamente e evitar ao máximo engolir sangue contaminado… Mas não tinha a menor ideia de que o trunfo de sua mãe viria a levar o nome de… Assie!
  • Você é um assassino! Um covarde assassino! Como pôde fazer uma coisa dessas com meus pais?
  • Meu pequeno Assie… A única coisa que realmente importa neste instante é que você conhece meu segredo. E, como disse anteriormente, só existe uma forma de manter um segredo depois de compartilhá-lo. Então, antes que tenha que matá- lo, corra! Corra para dentro da Floresta Negra, e não volte nunca mais.

Assie correu o mais rápido que pôde, atravessando aquele apertado vão na cerca e desaparecendo Floresta Negra adentro. Não contente, Pergie decidiu segui- lo. “Não teria a menor graça deixá-lo escapar assim, sem ter a chance de aterrorizá- lo um pouco mais.”

Enquanto o seguia, farejando o rastro do pequeno asno, Pergie pensava: “Como pode ser assim tão idiota? Acha mesmo que teria como planejar o assassinato de seus pais? Como é que conseguiria misturar veneno de rato na comida deles? E como faria para não acabar envenenado ao abocanhar e estraçalhar seus corpos, suas entranhas? É muito inocente esse Assie mesmo… Mas ele ainda é pequeno… Será uma ótima diversão caçá-lo!”

A verdade é que Fergie não fazia a menor ideia de quem havia atacado os pais de Assie. A história envolvendo a Senhora Markel, essa sim era verdadeira. Mas a morte dos pais do pequeno asno? Aquilo não passava de invenção do perdigueiro, seu toque final para apavorar o pequeno Assie e convencê-lo a desaparecer floresta adentro.

  • Aaaaaassie! Onde está você, pequeno Assie? Pergie está vindo atrás de você, e estou faminto! Aaaaaassie! – o perdigueiro seguia, floresta adentro, chamando pelo jovem asno. Seu objetivo? Certificar-se de que o filhote não retornaria ao vilarejo. Sabia que o máximo que poderia fazer era machucá-lo. Assie já era grande demais para o velho Pergie.
  • Corre, Pergie! Corre! – gritou o filhote, passando por ele em alta velocidade. O perdigueiro não fazia a menor ideia do tipo de plano que se passava pela cabeça daquele jovem. Pego de surpresa, acabou ficando ali mesmo, estático, refletindo sobre a intenção de Assie com aquela encenação. Aquela dúvida foi a penúltima coisa que se passou pela cabeça do velho cão, segundos antes dela ser atravessada pelos longos e afiados caninos do Monstro da Floresta Negra.

Assie se escondeu atrás de alguns arbustos, assistindo em silêncio àquela cena de terror. A besta devorava seu herói canino, começando pela cabeça e seguindo corpo abaixo, remexendo e remoendo e retirando cada órgão antes protegido pela sua pele, carne e ossos. Uma vez satisfeito, o monstro caminhou lentamente até o arbusto onde Assie se escondia. Farejou, levantou sua pata traseira, demarcou seu território e seguiu mata adentro.

Passado o susto, já quase de manhã, Assie saiu de seu esconderijo, dirigiu-se àquilo que restou do velho perdigueiro, deitou-se sobre seu herói e começou a zurrar, até que o fazendeiro chegou ao local, machado e facão em mãos e uma feição de espanto estampada no rosto.

Desde aquela manhã, Assie passou a ser reconhecido pela comunidade local como o asno dos três milagres, o qual sobreviveu ao ataque do Monstro da Floresta pela segunda vez. Entre os animais da fazenda, Assie se tornou seu novo e incontestável líder. Pelo menos até o dia em que os segredos da Floresta Negra fossem compartilhados com mais alguém.


* Lara Märchen escreve contos de terror e suspense. Este texto foi escrito para um concurso literário sobre contos de fadas macabros.

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