Se a Princesa disse…

por Lara Märchen *

Em terras tão distantes quanto a época em que esta história se passou, havia um enorme castelo às margens do Mar Cáspio. Uma enorme muralha cercava as terras do Rei Akhmet Aronov, oferecendo proteção a seus súditos contra saqueadores e outras ameaças, em troca de devoção, obediência e impostos.

Akhmet era casado com a bela Rainha Byrganym. O casal real tinha uma única filha, a jovem Princesa Damira.

Damira passou a adolescência no território atualmente conhecido por Inglaterra, estudando na King’s School. Naquela época, com cabelos curtos e sempre vestindo roupas masculinas, foi admitida sob o nome de Príncipe Amir, mas não sem generosa contribuição em dinheiro do reino de Aronov e acordos comerciais vantajosos ao reino anglo-saxão. Fazia poucos meses que retornara ao castelo, trazendo consigo conhecimento vital para a prosperidade do reino.

Numa manhã de primavera, plebeus começaram a apresentar sinais de uma doença misteriosa. Bolhas pipocavam em suas peles, tinham febre e convulsões, tossiam sangue. Não demorou muito para surgisse todo tipo de justificativa para aquela praga. Fúria divina, possessão demoníaca, ato de bruxaria. Cada morador tinha uma explicação para aquela doença que se alastrava pelo reino.

Por mais tempo do que deveria, o rei recusou-se a tomar providências sobre aquela epidemia que levava, dia após dia, parte de seus súditos à morte. Isso até o dia em que uma de suas criadas tossiu ao servir-lhe chá, espalhando gotas de sangue sobre mesa e xícara. A praga chegara ao castelo.

Uma reunião de emergência com seus conselheiros foi chamada para definir ações contra aquela ameaça invisível.

“Vamos identificar as bruxas por trás desse feitiço e queimá-las vivas!” – disse o Comandante do Exército.

“Precisamos organizar uma procissão pelas ruas do reino, chamando a população para rezar e pedir a deus que pare de levar as almas de nossos homens, mulheres e crianças!” – implorou o Bispo da Igreja Anglicana, recém-introduzida no reino por imposição dos anglo-saxões.

“Precisamos confiar na ciência! Estou desenvolvendo novos remédios para acabar de vez com essa praga, mas preciso de mais garras de morcegos! Não posso curar a todos sem os recursos necessários para minhas poções!” – apelou o curandeiro.

Nisso, a Princesa Damira, que escutava a conversa atrás da porta, entrou sem bater e anunciou: “Eu sei o que precisamos fazer.”

O rei e seus conselheiros ouviram a jovem princesa e, apesar de suas recomendações parecerem não fazer muito sentido, os homens resolveram dar-lhe uma chance.

“Se a Princesa disse…” – afinal, anos de estudo na Inglaterra tinham que servir para alguma coisa.

Foi assim que o bispo levou todos os enfermos à igreja, onde passaram dia e noite rezando, sendo medicados com as poções preparadas pelo curandeiro real e mantendo distância da população saudável. Soldados saíram à caça de morcegos, sendo instruídos a matá-los e trazerem consigo tão somente suas garras, que seriam usadas pelo curandeiro na preparação das poções. Além das garras de morcego, deveriam trazer ao reino raposas, quantas fosse possível, vivas. Grandes viveiros foram construídos, posicionados ao redor dos celeiros reais, onde se armazenavam grãos e outros alimentos. Cordas foram afixadas pelas ruas, permitindo às raposas correrem pelo reino noite afora, suas fortes coleiras em couro devidamente presas às cordas. Moradores foram agraciados com redução de impostos, proporcional ao número de gatos que tivessem em casa, desde que não fossem famigerados gatos pretos. Por fim, velhos colchões de palha e tapetes de pêlo foram queimados, em uma grande fogueira, na noite de 19 de junho, em oferenda a São Judas Tadeu. Naquela fogueira, foram também cremados os corpos das vítimas da praga.

Poucas semanas após implementar tais medidas, o reino viu-se livre da praga, e a princesa ganhou uma cadeira no Conselho Real.

Uma criança ficou doente? Perguntem à princesa o que deve ser feito! Animais aparecem mortos pela manhã? A princesa sabe o que fazer! Os campos de trigo estão sendo atacados por gafanhotos? Chamem a princesa! E assim a jovem Damira foi conquistando espaço no Conselho Real e admiração dos súditos. Não importava o quão absurda a palavra da princesa pudesse soar, suas prescrições eram sempre seguidas à risca. Porque, se a Princesa disse…

Damira sabia muito bem o que estava fazendo, e como fazê-lo. Combinava o conhecimento adquirido em seus anos de King’s School com crenças locais, dando parte dos méritos a outros conselheiros. Sabia que a praga era transmitida pela pulga dos ratos, e que muitos desenvolviam tuberculose e varíola junto com a peste bubônica. Logo, deveriam pôr enfermos em isolamento. Quer melhor lugar que a igreja, onde o Bispo poderia rezar pelas pobres almas, fazendo crescer o poder da igreja no reino? Não havia medicação para a praga, mas havia a poção mágica do curandeiro real, que requeria garras de morcegos em sua preparação. O exército real poderia exterminar morcegos, que também transmitem enfermidades, e aproveitar para trazer ao reino algumas raposas, cujo feromônio é repelente natural de roedores. E gato à solta significava mais uma ameaça aos indesejados roedores, mas jamais gatos pretos, que eram associados, na crendice popular, a atos de bruxaria. O plano perfeito, sabiamente combinando ciência e crenças, tudo isso sem criar desavenças com os conselheiros do rei. O problema é que, nessa equação toda, a princesa se esqueceu de sua própria mãe.

O fato de Damira ter conquistado espaço no Conselho Real, até então reservado unicamente a homens, despertou inveja na Rainha Byrganym. Conforme o tempo passava e a princesa ganhava mais e mais destaque entre os conselheiros e a admiração incondicional da população, a inveja se convertia em ira. A rainha seria capaz até mesmo de matar sua própria filha, se essa fosse a única forma de encerrar aquele pesadelo.

Dia após dia, a rainha desenvolvia implicância com sua filha, a Princesa Damira. Sempre havia algum motivo para criticá-la, diminui-la, apontá-la como culpada deste ou daquele equívoco. E, quando alguma de suas recomendações acabava não dando resultado, a rainha aproveitava para maldizer a própria filha reino afora. O problema é que suas tentativas não atingiam a reputação da jovem princesa. Mas nem por isso passavam despercebidas pela sábia garota.

Numa fria manhã de outubro, o reino amanheceu diferente. Antes mesmo que o sol despontasse no horizonte, o curandeiro real, o bispo e algumas criadas ocupavam os aposentos do rei. Ele estava enfermo. Febre alta, espasmos, palavras confusas tentavam sair em meio a espuma que insistia em se formar em sua boca. Vomitava uma mistura de bílis e sangue. Mas o que mais assustava a todos ali presentes era o fato do rei chorar sangue. Um sangue escuro, quase negro. Nunca haviam presenciado qualquer coisa que fosse vagamente semelhante àquela situação.

“Chamem a Princesa Damira!” – ordenou o rei, em um dos poucos momentos em que sua fala podia ser compreendida.

Damira olhou para o pai, examinando-o cuidadosamente. Colheu gotas de sangue que escorriam de seus olhos, testou sua viscosidade, sentiu seu cheiro. Saiu da sala, trazendo consigo um grosso livro de capa negra. Ordenou ao curandeiro que preparasse um composto de ervas, seguindo receita que transcreveu em um pergaminho. Pediu ao bispo que reafirmasse o batismo de seu pai, fazendo-o na banheira de seus aposentos, em água morna, quase fria, e de corpo inteiro. Às criadas, pediu que retirassem e incinerassem toda roupa de cama do rei.

“Se a Princesa disse…”, repetiam, um a um, após receberem as orientações da jovem Damira.

Quando uma das criadas levantou o travesseiro do rei, uma surpresa. Uma adaga de ossos, com um pentagrama talhado em sua empunhadura, logo acima da guarda. Debaixo do lençol, aos pés da cama, um boneco de palha, vestindo roupas iguais às do rei, um líquido negro escorrendo dos olhos e alfinetes cravados em seu peito. Ao seu lado, um frasco contendo dois pequenos bonecos de palha. O maior vestia roupas iguais às da rainha. O menor se tratava de um pequeno demônio.

“Prendam a Rainha Byrganym!” – ordenou ao Comandante do Exército Real. “Ela é uma bruxa, que vendeu a alma ao diabo em troca do trono de meu pai!”

O Comandante titubeou por um instante, até que uma das criadas sussurrou em seu ouvido esquerdo: “Se a Princesa disse…”

Naquela mesma noite, a Rainha Byrganym era condenada à fogueira por atos de bruxaria. O Rei Akhmet não pôde assistir à execução de sua rainha e traidora. Recuperou-se, mas perdeu a visão por completo. Dias depois, em plenas condições emocionais e de saúde para dirigir-se a seus súditos, anunciou sua renúncia ao trono, em função de sua cegueira, proclamando sua filha a Rainha Damira Aronov.

Em seu discurso inaugural, a nova rainha novamente exaltou os membros de seu Conselho Real, afirmando que, sem a fé em Deus, sem o conhecimento milenar do curandeirismo e das tradições, e sem a força do exército e do povo, não seria capaz de exercer seu papel à frente de seu reino. O que deixou de fora de sua fala a seus súditos foi, propositalmente, o conhecimento científico adquirido em terras estrangeiras, e o coração de ferro que se forjou nesses anos de exílio, muito além do significado de seu próprio nome.

E a Rainha Damira viveu feliz para sempre. Seus conselheiros e súditos? Esses também viveram felizes, desde que não desagradassem sua rainha.


* Lara Märchen escreve contos de terror e suspense. Este texto foi escrito para um concurso literário sobre contos de fadas macabros.

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