Talassofobia

por Lara Märchen *

“Anda logo, Tales! O grupo chega em 15 minutos e nem começamos a arrumar as coisas!” – gritava, afoito, meu irmão caçula.

“Já vou, Caíque, já vou!” – mas queria mesmo era não ter que ir.

Se existe mesmo essa coisa de destino, o roteirista da minha vida deve ser o Mestre dos Sádicos! Tanto lugar pra nascer, e o desgraçado foi me enfiar justo numa família de pescadores de Ilhabela? E se isso não bastasse, incluiu na minha história a volta do Caíque pra ilha, depois de cursar Administração em São Paulo, cheio de ideias criativas e um enorme, ridículo anel de formatura em sua mão direita… E foi assim que, de pescadores, passamos ao turismo ecológico, com a Nereu Dive, agência especializada em mergulho autônomo ao redor da ilha.

Quer prova ainda maior do senso de humor cruel, desumano até, daquele que traçou meu destino? Eu, Tales Nereu, filho de pescadores, irmão de dono de agência de mergulho, bisneto de gregos vindos da ilha de Thessaloniki, sofro de talassofobia. Ta-las-so-fo-bi-a. Tenho medo mórbido do mar.

“Porra, Tales! Anda logo com esses cilindros! O pessoal tá chegando e não preparamos quase nada! Agenda cheia hoje, brô!”

Snorkels? Check. Máscaras de mergulho? Check. Cilindros? Recarga verificada, dois mil e quatrocentos litros. Neoprene? Tamanhos conforme cadastro dos mergulhadores. Facas de mergulho? Check. Lastros? Check. Nadadeiras? Vamos torcer pra que sirvam, sempre tem uma ou outra que dá problema. Coletes? Check. Lanternas? Todas aqui, mas a visibilidade está boa, o dia está claro, pouco provável que precisem delas. “Caíque, o equipamento tá todo em ordem!” – e ali acabaria meu trabalho num dia normal. Talvez uma verificação das condições gerais do barco, a recepção dos mergulhadores, apresentação das normas de segurança. Esse era o mais próximo que chegava do mar. Mas nem todo dia era normal. Aquele, com certeza, não tinha nada que o fizesse merecer tal classificação.

Doze mergulhadores. O cadastro mencionava dez. “Nos esquecemos do Juiz de Paz e de sua assistente!” – lamentava o noivo, um jovem executivo, desses que fizeram fortuna com uma ideia ponto.com e o dinheiro de algum investidor-anjo. Dinheiro que, por não ter mais onde investir em seu negócio milionário de desenvolvimento de apps que vão fazer sucesso-relâmpago e depois acabarão desaparecendo em questão de meses, resolveu enfiar numa porcaria d’um casamento no fundo do mar.

Não sei de onde veio essa onda de casamentos em locais inusitados! Dia desses, assistia um programa na TV que mostrava um casamento nas geleiras do Alasca! O casal chegou de helicóptero, a noiva de vestido tradicional e o noivo de terno. Imagina o frio! Além deles, o Juiz de Paz, a equipe que filmava a cerimônia, o piloto do helicóptero e a moça de fraque que serviu champanhe aos recém-casados. Sério isso? Depois que vi aquela cena, comecei a achar casamento no fundo do mar meio que “carne de vaca”, como dizem os mais velhos. Exceto aquele casamento, naquele dia, celebrado com o apoio da agência de meu irmão.

“Doze está além da capacidade de supervisão dos instrutores. O Capitão Marcelo, que também é instrutor credenciado, vai precisar mergulhar. Tales, você vem com a gente e assume o barco durante o mergulho, ok?”

Não nasci com esse meu pavor do mar, tampouco minha fobia vem de algum fator inexplicável, oculto nas profundezas de meu inconsciente. A origem do meu medo tem nome e sobrenome: Nerissa Nereu, minha irmã do meio. Tinha 19 anos na época e ela, 14. Celebrávamos minha habilitação de Capitão Amador, poucos meses após obter Arrais e Mestre. Desliguei o motor da lancha nas proximidades da Ilha das Cabras e ali ficamos, conversando, sabe-se lá por quanto tempo. Estávamos tão eufóricos com minha conquista que não vimos o tempo passar, muito menos a tempestade se aproximar. O dia se transformou em uma fração de segundos, aquela enorme nuvem negra pairando sobre nossas cabeças, o mar ficando cada vez mais agitado.

“Melhor a gente voltar.” – disse.

“Não sem antes lhe dar este presente!” – Nerissa me olhava com seu enormes olhos castanhos, um olhar cativante, um sorriso aberto de orelha a orelha. Em suas mãos, um par de correntes douradas, cada qual contendo uma de duas metades de uma silhueta. Os pingentes, quando unidos, formavam uma sereia. Na metade feminina da criatura mística, Nerissa gravado na parte de trás. Na metade peixe, Tales.

Abracei-a carinhosamente, peguei sua corrente e coloquei-a em seu pescoço. Retribuindo meu ato, Nerissa pediu que me ajoelhasse, para que ela alcançasse meu pescoço. Ao tentar prender o fecho, a corrente e a metade peixe do pingente escorregaram de suas mãos e caíram no mar. Quando me virei, minha irmã já estava no mar, em busca daquele pingente que acabara de naufragar.

Gritava desesperadamente pelo seu nome. Meu lado emocional de irmão mais velho me dizia para mergulhar e resgatá-la, enquanto meu lado racional de Capitão Amador recém-habilitado me dizia para me acalmar, porque Nerissa era mergulhadora experiente, apesar da pouca idade, e logo voltaria à superfície. O que de fato aconteceu. Lá estava minha irmã, a uns cinco metros da lancha, sorrindo para mim, a correntinha em suas mãos. Me virei para pegar uma bóia para lançar até ela e, para minha surpresa, não havia sinal dela por ali. Segundos atrás, um sorriso. Naquele momento, a imensidão e o vazio do mar.

Atirei-me na água e tentei localizá-la. Não demorou muito para vê-la afundando, uma expressão de espanto estampada em seu rosto, a correntinha firmemente agarrada pela sua mão esquerda. Era como se uma força a puxasse para baixo, impedindo-a de nadar em direção à luz. Por mais rápido que nadasse, a distância que nos separava seguia crescendo, até um ponto que a visibilidade estava totalmente comprometida. Já não tinha mais ar em meus pulmões, e minha visão turvou-se. E isso é tudo que me lembro. Porque, quando recobrei os sentidos, estava em terra firme, sendo atendido por paramédicos. No meu pescoço, duas correntinhas, cada qual com sua metade de um pingente em formato de sereia. Carrego-as comigo até hoje. Minha irmã do meio, ou seu corpo? Jamais localizado.

Isso aconteceu há exatos dez anos, numa segunda-feira, 28 de dezembro de 2009. Hoje, sábado, 28 de dezembro de 2019, sou convidado a encarar novamente o mesmo mar, nas proximidades da Ilha das Cabras, que tirou Nerissa da minha vida para sempre. Caíque provavelmente não se deu conta de que dia é hoje. Eu, por ter vivido o que vivi, jamais serei capaz de me esquecer.

Antes de entrar no barco e encarar meu mais terrível inimigo, o ritual de sempre, mantido em segredo de todos ao meu redor. A propósito, ninguém sabe de minha fobia, além de mim mesmo e do cara que me vende Diazepam, o azulzinho, pela internet. Nunca nos encontramos, mas seus serviços são profissionais e discretos. Mando cinco goela abaixo e lá vamos nós, mas não sem o tradicional sinal da cruz e um beijo nas duas metades do pingente de sereia.

“Gente, vamos recapitular os procedimentos de segurança. Queremos que possam curtir este momento mágico sem se preocupar com quaisquer outros fatores externos, mas isso só é possível se agirmos, todos, dentro das normas de segurança de mergulho autônomo.” – comentava meu irmão, ao nos aproximarmos do local escolhido para a cerimônia, o motor da embarcação em rotação reduzida.

Todos sabiam exatamente como tudo funcionaria. Estava tudo esclarecido, ensaiado em terra e revisado nos minutos que antecederam ao mergulho. Seria um instrutor para cada dois mergulhadores. Seria o único a permanecer no barco, motores desligados, comunicação com os instrutores via ultrassom. Minha lista de atribuições incluía a cronometragem do tempo da cerimônia e o controle do tempo de retorno dos mergulhadores à superfície. Naquela altura, as pílulas já tinham atingido o auge de seus efeitos. Seria capaz de matar um tubarão branco com as mãos, se preciso fosse, de tão desarvorado, noiado, pirado. A droga tem essa coisa de abafar nossos medos, nos transformar em heróis destemidos. Se conhecesse essas malditas bolinhas azuis dez anos atrás, minha doce Nerissa ainda estaria aqui, ao meu lado, neste barco, esperando esse casamento imbecil acabar.

A cerimônia deveria estar chegando ao fim, exceto se os noivos quisessem viver felizes para sempre, nas profundezas do litoral paulista. Se demorassem muito mais para iniciar o retorno, e considerando que mergulhadores amadores tendem a consumir quase o dobro de oxigênio que instrutores habilitados, o risco de alguém acabar se deparando com cilindros vazios antes da hora ficaria cada vez maior. Tentei contato com os instrutores, mas a voz retornava abafada, quase que completamente encoberta por sinais sonoros que lembravam o canto das jubartes.

“Caíque, na escuta? Vocês precisam iniciar procedimento de retorno. Repito: iniciar retorno à superfície. Copia?”

“Roger, brô. [Ooooooooooh] retorno [Ooooooooooh] minutos [Ooooooooooh] problema [Ooooooooooh] noiva [Ooooooooooh] subindo logo.”

A falta de clareza na comunicação estava me levando a loucura. Talvez não apenas isso, mas também as malditas pílulas azuis, meu medo mórbido do mar, as lembranças que aquele lugar me trazia… Tudo me incomodava! Mordia os lábios, a dor dominava minhas mandíbulas. Sentia cheiro e sabor de sangue, não sabendo se vinha de minhas gengivas, minha língua, minha garganta.

“Caique, pelo amor de deus, me responde! Retornem à superfície. Me escuta, criatura? Retornem à superfície! Imediatamente! Roger that?”

“Estamos [Ooooooooooh] uns [Ooooooooooh] mais para [Ooooooooooh] barco.” – seguido por um incômodo silêncio, como se a comunicação tivesse se perdido por completo.

Tentei contato com outros instrutores, sem sucesso. Num momento de desespero, me debrucei na borda do barco, me aproximando ao máximo da água, como quem levanta seu celular em busca de melhor sinal de rede. Nessa tentativa enlouquecida de restabelecer contato com os mergulhadores, meu irmão caçula incluído, me deparei com aquela metade mulher do pingente em formato de sereia afundando naquelas águas pela segunda vez.

Como em um filme em preto-e-branco, aquela tarde de segunda-feira de dez anos atrás voltou à minha mente. Podia ver minha Nerissa sorrindo, a correntinha em suas mãos. Mas, desta vez, não me virei em busca de uma bóia. Mantive meu olhar fixo nela, sem piscar por um milésimo de segundo que fosse. E foi então que pude vê-la, graciosamente mergulhando mar adentro, primeiro sua cabeça, e então uma enorme cauda projetando-se mar afora e retornando água adentro.

Aquela imagem, real ou imaginária, veio como um chamado. Precisava mergulhar, encarar meus medos, resgatar meu irmão mais novo e, quem sabe, reencontrar minha irmã do meio.

Atirei-me ao mar e, minutos depois, pude ouvir novamente aquele canto que, há pouco, interferia na comunicação com os mergulhadores. Era um canto belo, contínuo, que parecia falar diretamente com meu coração. Era como se meus sentimentos pudessem compreender o significado daquele som que, aos meus ouvidos, soava como interminável “oh”.

Seguia em direção à fonte do canto, até que me deparei novamente com aquela imagem surpreendente. Da cintura para cima, Nerissa. Da cintura para baixo, uma longa cauda, coberta por escamas esverdeadas. Em suas mãos, a correntinha com a metade mulher do pingente, presente de minha irmã, perdido e recuperado há exatos dez anos.

Nadava o mais rápido que podia, mas parecia que Nerissa estava sempre a mesma distância de mim. Era como se ela e eu nos locomovêssemos, cada vez mais em direção às profundezas do oceano, na mesma velocidade. Sentia que meus pulmões chegavam ao limite de sua reserva de oxigênio, quando a distância entre nós finalmente começou a diminuir. Não podia desistir naquele momento. Me esforcei um pouco mais, apesar de perceber que estava muito perto de perder minha consciência. Mas a necessidade de reencontrar minha irmã era mais forte que o grito de meu corpo pela sobrevivência.

Quando estava prestes a abandonar minha obsessão, atingi finalmente meu objetivo. Mal podia acreditar: estava, novamente, frente a frente com minha irmã.

Lá estava ela, Nerissa, um sorriso que ia de orelha a orelha, seus enormes olhos castanhos que hipnotizavam o mais insensível dos homens. Ficamos, frente a frente, por alguns segundos, e ela então me estendeu suas mãos, a correntinha e sua metade do pingente repousando sobre elas. Estendi minhas mãos em sua direção, com o intuito de recuperar o presente que me fora oferecido há uma década. Ela me entregou o artefato e segurou minhas mãos. Um toque suave, carinhoso, que foi gradualmente se transformando em um forte aperto, suas mãos me mantendo imóvel no fundo do mar. Aquelas mãos, antes suaves, se tornaram nada além de ossos e restos de carne. Não havia mais cauda, sequer sorriso gracioso. A minha frente, os restos mortais de Nerissa, parcialmente apodrecidos, parcialmente devorados por todo tipo de vida marinha. Entrei em desespero, em partes pelo que vi, em partes por me dar conta da distância que ainda devia percorrer para retornar à superfície, e a total falta de reservas de oxigênio em meus pulmões. Pior, aquelas mãos pareciam não me deixar sair dali. E isso é tudo que me lembro daquele meu último encontro com Nerissa.

Quando recobrei os sentidos, estava em terra firme, sendo atendido por paramédicos. No meu pescoço, duas correntinhas, cada qual com sua metade de um pingente em formato de sereia. Na minha mão direita, um enorme anel dourado com uma pedra azul ao centro.

“Onde está meu irmão?” – gritei tão logo consegui projetar minha voz.

“Descanse, querido. Descanse.” – uma voz suave tentava me acalmar, suas mãos acariciando meus cabelos. Voltei meu olhar lentamente para cima. Sorri um sorriso tímido, porém sincero.

“Te amo, Nerissa.”


* Lara Märchen escreve contos de terror e suspense. Este texto foi escrito para um concurso literário sobre o mar, Abyssal, coordenado por J.C.Gray.

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